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Caso Battisti: quando a ignorância prevalece.

Por MINO CARTA

IBGF, 07 de novembro de 2009.

Battisti.


Creio ter chegado o momento de dar por encerrado o debate sobre o Caso Battisti. Não espero de mim mesmo outro texto sobre o assunto. Na próxima semana, na quinta 12, o STF vai tomar sua decisão a respeito, que ouso supor final.



No seu conjunto, não é episódio edificante, sobretudo por exibir, por parte de setores importantes, ou tidos como tais, da política, da cultura, do jornalismo, um assustador grau de ignorância, impróprio em um país que aspira à contemporaneidade do mundo. Esta consideração valeria também se Battisti fosse alemão, espanhol, argentino ou chileno.



Darei um exemplo aparentemente pequeno, porém representativo. Saiu no Jornal do Brasil há dias um artigo assinado por André de Paula, advogado, anistiado político e integrante do Comitê contra a Prisão, a Tortura e a Perseguição Política no Brasil, e Fátima Lacerda, jornalista do Sindipetro, RJ. Nas primeiras linhas, a seguinte assertiva: “Mesmo que o Supremo Tribunal Federal se curve à vontade do governo Berlusconi...”
Temo seja impossível explicar à maioria dos brasileiros que, teoricamente, não vivem no limbo a diferença entre regime presidencialista, como o nosso, e regime parlamentarista, como o italiano.

Ao conceder refúgio a Battisti, o ministro Tarso Genro não afronta o governo Berlusconi, que tem tempo de duração predeterminado e que está sujeito ao risco de cair ao longo do caminho caso lhe venha a faltar o apoio da maioria parlamentar, e sim o Estado, instituição perene, representado pelo presidente da República, atualmente o ex-comunista Giorgio Napolitano.



Este, de fato, foi signatário de uma carta ao presidente Lula para protestar contra o passo em falso dado pelo nosso ministro à revelia das próprias leis brasileiras (quem tiver dúvidas, consulte-as) e do reconhecimento por qualquer corte internacional de que delitos de sangue, como os cometidos por Battisti, tornam-se automaticamente comuns. De mais a mais, Genro confundiu a Itália com Darfur.

Não duvido da boa-fé de André e Fátima, mas colho por trás das suas afirmações a incrível tentativa de comparar os chamados anos de chumbo da Itália e do Brasil. A luta armada aqui deu-se contra a ditadura, lá o alvo foi o Estado Democrático de Direito. A falta de compreensão desta diferença crucial ofende o conhecimento mínimo da história recente. Sem contar a miserável trajetória da Armata Brancaleone, que, lá pelas tantas, teve o concurso de Cesare Battisti, na origem meliante do arrabalde, disposto a descobrir na prisão uma vocação revolucionária.

Não soa convincente que sirva à causa da revolução o assassínio de um açougueiro ou de um joalheiro, e das demais vítimas do repentino herói da esquerda nativa. Ah, sim, a esquerda nativa... Já contei aqui que um porta-voz da própria informou-me, não faz muito tempo, sobre o abissal desprestígio sofrido por Carta-Capital neste longo e polêmico período.



Não imagino que se referisse aos frequentadores de tertúlias literomusicais parisienses, mestres universitários e até magistrados brasileiros, promovidas para liberar energias positivas a favor de Battisti pela escritora Fred Vargas e pelo senador Eduardo Suplicy. Aposto que aludia a um certo gênero de esquerdistas, de típica extração verde-amarela, que hoje dedicam seus melhores esforços à acumulação de grana.



Estes, até o próximo dia 12, não perdem as esperanças. Por exemplo. Parlamentares do PT pressionam o recém-nomeado ministro Toffoli a participar da votação do STF. É do conhecimento, porém, até do mundo mineral que como ex-presidente da Advocacia-Geral da União, a qual já se manifestou sobre a questão, Toffoli está impedido de votar no seu novo posto. Tudo é possível, está claro. E falaremos, sorrindo de puro gozo, do “nosso tradicional jeitinho brasileiro”.



Diga-se que a mesma AGU, contrariando as posições do ministro da Justiça e da Secretaria dos Direitos Humanos, reconheceu a validade da famigerada Lei da Anistia para premiar o coronel Brilhante Ustra, torturador emérito durante a repressão.



E a esquerda nativa? Sim, há esquerdistas autênticos neste país, belos exemplares de uma categoria que não acredita na validade da Lei da Anistia e no funeral das ideo-logias, mesmo porque, em um país entregue a desequilíbrios sociais insuportáveis, ainda se recomenda empenho a favor dos desvalidos. Como se justifica em um mundo que globaliza as diferenças.



Não são estes, contudo, aqueles que clamam por Cesare Battisti.

MINO CARTA.


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