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Drogas. A Fúria dos Cartéis Mexicanos.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 03 de outubro de 2009.

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Para fechar setembro, três cabeças acondicionadas numa bolsa térmica foram deixadas, pelo cartel de Juárez, no centro da pista de rolamento da estrada que liga Ciudad Juárez a Chihuahua. Das oito principais organizações criminosas mexicanas de narcotraficantes, o cartel de Juárez, fundado pelos irmãos Carrillo e com operação em 21 estados, é o mais violento. Sua cidade-berço virou, desde dezembro de 2006, o alvo principal da interminável e inócua war on drugs do presidente Felipe Calderón.



Eleito sob o odor de fraude, o conservador Calderón mergulhou no projeto de “guerra às drogas”. A meta era fazer esquecer a alegada fraude e conquistar legitimação popular para neutralizar o esquerdista López Obrador, que prometeu um governo paralelo. No primeiro ano de mandato e com apoio financeiro do governo George W. Bush, o presidente Calderón priorizou o Plan Mérida e ganhou provisório e breve apoio dos mexicanos, incomodados com a violência, a proliferação dos cartéis e a fracassada repressão dos tempos de Vicente Fox.



O certo é que o Plan Mérida, uma adaptação do Plan Colombia, fez água. Os cartéis ficaram mais fortes econômica e belicamente. Hoje, e em razão da redobrada vigilância na fronteira com os EUA, os cartéis mexicanos aumentaram a oferta de cocaína à Europa e Rússia. Nos EUA, o envio dessa droga está estabilizado.



A África Ocidental consolidou-se como rota do tráfico de cocaína. E a Guiné-Bissau virou entreposto para posterior envio à Europa, via Espanha. Conforme investigação recente, o presidente João Bernardo Vieira acabou assassinado, em março deste ano, por oposição ao tráfico. Vieira chegou a informar à comunidade internacional que, em Guiné-Bissau, apenas 3% dos descarregamentos eram fiscalizados.



Para se ter ideia das vantagens econômicas da reengenharia promovida pelos cartéis mexicanos, basta examinar os preços. No mercado norte-americano, meio quilo de cocaína custa 22 mil dólares. Na Europa, a mesma quantidade é vendida por 45 mil euros e a moeda é mais valorizada.



Na véspera das três decapitações, o cartel de Juárez abandonou nove cadáveres crivados de balas, um deles com a cabeça arrancada do corpo, na periferia da cidade. Juárez, que faz fronteira com a norte-americana El Paso, vivem 1,4 milhão de mexicanos. Pela contabilidade oficial, em setembro foram assassinadas 600 pessoas só na localidade.



Do elenco das vítimas fatais de setembro consta o jornalista Norberto Miranda Madrid, que cuidava da página na web da Rádio Visión. Ele foi metralhado por cinco narcos encapuzados, que invadiram a rádio em 24 de setembro. A redação fica na cidade de Casas Grandes, distante 180 quilômetros de Juárez. O jornalista, dias antes do crime, havia publicado matéria sobre as ações de cartéis na região da Baixa Califórnia.



Em 4 de setembro, os narcos invadiram o centro de recuperação de toxicodependentes de Ciudad Juárez e eliminaram dezoito viciados em tratamento, por suspeita de deduragem. Na penúltima semana de setembro, e na estrada Acapulco-Zihuatanejo, área com territórios sob influência dos cartéis de Juárez, Tijuana e do Golfo, dos violentos Los Zetas, a polícia encontrou, ao lado de um carro abandonado, cinco corpos de mulheres, com os rostos totalmente desfigurados por impactos de projéteis de armas automáticas de grosso calibre.



O que mais impressiona na “guerra às drogas” é a insensibilidade de Felipe Calderón diante do elevado número de mortes de civis sem ligações com o narcotráfico. Morrem mais inocentes do que policiais, soldados e traficantes. Apenas neste ano foram assassinadas no México mais de 4 mil pessoas. De janeiro de 2008 a 30 de setembro de 2009, ocorreram 10 mil mortes.



O procurador-geral da República, Arturo Chávez, que tomou posse em 8 de setembro, declarou em entrevista coletiva que os cartéis se infiltraram no Estado e “até no Ministério Público que dirige”. Pouco antes da coletiva, Chávez recebeu a informação da surpreendente prisão do policial norte-americano Richard Padilla Cramer, que mudara para o lado dos cartéis.



Cramer tinha comandado a Task Force destinada a inibir o tráfico na fronteira Juárez-El Paso. Quando foi preso em Guadalajara, com base em informação da Drug Enforcement Agency (DEA), Cramer estava designado para cooperar com a polícia mexicana. Ele acabou cooptado e entrou na gaveta corruptora dos cartéis.



Com Calderón, Juárez passou a disputar com Darfur (Sudão) e Mogadiscio (Somália) o posto de cidade mais violenta do planeta. No México, tudo tende a piorar. Segundo a ministra das Relações Exteriores, Patricia Espinosa, o presidente mexicano mandou avisar que, dado o “pleno êxito”, vai continuar com a war on drugs.

Wálter Fanganiello Maierovitch


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