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Assassinato da jornalista Politkovskaya. Família e jornal montam estratégia para derrubar a farsa.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/ especial para FOLH

IBGF, 06 de agosto de 2009.

Politkovskaya.

--1. A farsa montada pelas autoridades policiais e judiciárias russas, -- para evitar a identificação dos verdadeiros mandantes do assassinato da jornalista Anna Politkovskaya, que incomodava o então presidente Putin ao denunciar violações a direitos humanos--, poderá cair por terra a partir do processo criminal que foi anulado e que recomeça a tramitar amanhã.


O jornal Novaya Gazeta e a família de Politkovskaya preparam uma estratégia para trazer ao processo Serghiei Khadzhikurbanov.


Khadzhikurbanov dirigia a polícia de Moscou à época. Para o jornal onde trabalhava Politkovskaya, ele seria o responsável pela logística organizada a fim de garantir a execução do assassinato e o plano de fuga do matador de aluguel contratado.


Até as paredes da Lubianca, antiga sede da KGB e atual da FSB, sabem que o executor material atuava a mando de alguém que se incomodado com as matérias escritas por Politkovskaya no jornal Noya Gazeta. Logicamente, o ex-chefe de polícia de Moscou, cidade onde Politkovskaya foi morta, sabe muita coisa.


A estratégia supracitada, -- elaborada pelas duas filhas da vítima e pelo jornal--, volta-se a quebrar a proibição imposta pela Corte de Justiça russa, que limitou a atuação da acusação e dos assistentes de acusação, estes familiares da jornalista covardemente assassinada.


--2. A jornalista russa Anna Politkovskaya, nascida em 1958, foi assassinada em 7 de outubro de 2006, quando regressava à casa, em Moscou.


Os três irmãos Makhmudov, pistoleiros de aluguel, incumbiram-se da execução. Dzhabrail e Ibragim deram cobertura para Rustam realizar os disparos fatais.


O revólver utilizado chegou ao executor material pelas mãos do então chefe da polícia Sergej Khadzhikurbanov. E coube ao coronel Pavel Ryagusov, do serviço ativo de inteligência FSB(ex-KGB), fornecer o endereço de Politkovskaya.


A morte de Politkovskaya confirmou o alerta dado pelo filósofo francês Andrés Glucksman, um velho amigo da jornalista.


O filósofo, que mora em Londres, repetiu à jornalista o que circulava em todas as redações e agências de notícias. Ou seja: acaba assassinado quem se ocupa de investigar os desdobramentos dos atentados de 1999, aqueles que serviram de motivação para o presidente Putin deflagrar a Segunda Guerra chechena (1999/2001). Na presidência de Putin, vários jornalistas investigativos foram executados e os assassinos, como Rustam, nunca encontrados.


Em 1999, uma cadeia de atentados promovidos por separatistas chechenos, com 400 mortes, provocou uma desproporcional reação militar ordenada por Putin e as principais vítimas foram os civis. Repetiram-se massacres iguais aos ocorridos quando a Chechênia declarou-se uma república islâmica independente, em 1991.


A respeito de torturas, abusos e toda sorte de violações a direitos humanos escrevia Politkovskaya, uma crítica de Putin. Para Ilya, filha da jornalista, ela “ apurava os crimes cometidos pelos russos e pelos seus aliados na Chechênia”.


Às agências internacionais, o então presidente Putin desprezou a importância da jornalista como formadora de opinião: - “Não tem influência”. Só que, internamente e em razão do prestígio de Politkovskaya, os 007 da FSB saíram a espalhar a versão de complô contra o governo, engendrado pelo magnata Boris Berezovsky: mandara matar uma jornalista de oposição a Putin para direcionar uma onda de suspeitas contra o presidente.


As investigações sobre a morte de Politkovskaya limitaram-se aos irmãos Makhmudov, todos nascidos na Chechênia e nenhum deles conhecia Politkovskaya. Nada se apurou sobre os mandantes e os seus motivos.


Nem as suspeitas levantadas pelo periódico Novaya Gazeta, onde Politkovskay trabalhara, receberam a atenção devida. Para o jornal, em matéria de Yuliya Latynina, o prefeito de uma pequena cidade chechena, Shamil Burayev, encontrou-se, no verão de 2006 e num restaurante de Moscou, com dois oficiais da FSB. Um desses oficiais colaborava com o governador filo-russo da Chechênia, Alu Alkhanov. A tarefa de contratar os matadores competiu a Burayev, que escolheu os irmãos Makhmudov.


O Júri popular, em fevereiro deste ano de 2009, absolveu os irmãos acusados e tirou-os da cadeia. No dia 25 de junho passado, a Corte de Justiça russa cassou a decisão absolutória e determinou novo julgamento. Mas, um novo júri sem coleta de provas. Em outras palavras, nada será apurado a respeito dos mandantes do crime da jornalista Politkovskaya. Vai se julgar com o que estava nos autos, quando do primeiro julgamento.


PANO RÁPIDO. O processo criminal sobre a morte de Politkovskaya está blindado de modo a impedir o conhecimento dos mandantes do assassinato.


Vamos esperar e torcer para que a família da vítima e o jornal onde ela trabalhava quebrem a blindagem.


A família tentará, amanhã, apensar ao processo criminal do Júri popular os autos do processo que se encontram no Tribunal Militar.


Perante o Tribunal Militar, foi já ouvido Khadzhikurbanov, o ex-chefe da polícia de Moscou.


Com isso, estaria aberta a possibilidade de ele ser novamente chamado. Não seria prova nova, proibida pela Corte russa, mas novos esclarecimentos.

--Wálter Fanganiello Maierovitch.


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