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Justiça sob Medida. Tribunal faz blindagem dos mandantes do assassinato da jornalista.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 27 de julho de 2009.

Anna Politkovskaya.

A jornalista russa Anna Politkovs-kaya, nascida em 1958, foi assassinada em 7 de outubro de 2006, quando regressava para casa, em Moscou.



Os três irmãos Makhmudov, pistoleiros de aluguel, incumbiram-se da execução. Dzhabrail e Ibragim deram cobertura para Rustam realizar os disparos fatais. O revólver utilizado chegou ao executor pelas mãos do ex-policial Sergej Khadzhikurbanov. Coube ao coronel Pavel Ryagusov, do serviço ativo de inteligência FSB (ex-KGB), fornecer o endereço de Politkovskaya. A morte de Politkovskaya confirmou o alerta dado pelo filósofo francês Andrés Glucksman, um velho amigo da jornalista. Andrés repetiu a ela o que circulava em todas as redações: acaba assassinado quem se ocupa de investigar os desdobramentos dos atentados de 1999, aqueles que serviram de motivação para o presidente Putin deflagrar a segunda guerra chechena, entre 1999 e 2001. Na Presidência de Putin, vários jornalistas investigativos foram executados e os assassinos, nunca encontrados.



Em 1999, uma cadeia de atentados promovidos por separatistas chechenos, com 400 mortes, provocou uma desproporcional reação militar ordenada por Putin e as principais vítimas foram os civis.



Repetiram-se massacres iguais aos ocorridos quando a Chechênia declarou-se uma república islâmica independente, em 1991.



A respeito de torturas, abusos e toda sorte de violações a direitos humanos, Politkovskaya escrevia uma crítica de Putin. Para Ilya, filha da jornalista, ela “apurava os crimes cometidos pelos russos e pelos seus aliados na Chechênia”.



Às agências internacionais, o então presidente Putin desprezou a importância da jornalista como formadora de opinião. Só que, internamente e em razão do prestígio de Politkovskaya, os 007 da FSB saíram a espalhar a versão de complô contra o governo, engendrado pelo magnata Boris Berezovsky. Mandara matar uma jornalista de oposição a Putin para direcionar uma onda de suspeitas contra o presidente.



As investigações sobre a morte de Politkovskaya limitaram-se aos irmãos Makhmudov, todos nascidos na Chechênia. Nenhum deles conhecia Politkovskaya. Nada se apurou sobre os mandantes e os seus motivos.



Nem as suspeitas levantadas pelo periódico Novaya Gazeta, onde Politkovskay trabalhara, receberam a atenção devida. Para o jornal, em matéria de Yuliya Latynina, o prefeito de uma pequena cidade chechena, Shamil Burayev, encontrou-se, no verão de 2006, num restaurante de Moscou, com dois oficiais da FSB. Um desses oficiais colaborava com o governador filo-russo da Chechênia, Alu Alkhanov. A tarefa de contratar os matadores competiu a Burayev, que escolheu os irmãos Makhmudov.



O júri popular, em fevereiro, absolveu os irmãos acusados e tirou-os da cadeia. Em 25 de junho, a Corte de Apelação cassou a decisão absolutória e determinou novo julgamento, mas sem coleta de provas. Em outras palavras, nada será apurado a respeito dos mandantes do crime da jornalista Politkovskaya. Vai se julgar com o que estava nos autos do primeiro julgamento.



Essa recentíssima decisão da Corte talvez tenha estimulado os mandantes. Em julho, na quarta feira 15, Natalya Estemirova, moradora em Grosny, capital da Chechênia, foi sequestrada e eliminada com tiros na cabeça e no peito. A jornalista Politkovskaya tinha contato estreito com Natalya, dirigente de uma organização humanitária. Ela era tratada como a “herdeira” de Politkovskaya, na luta pelos direitos da pessoa.



A reação do presidente Dmitri Medvedev, que é jurista e ensinou direito civil em São Petersburgo, foi imediata, a mudar hábito de o presidente demorar para se pronunciar. Medvedev falou da necessidade de se “restabelecer na Rússia o governo da lei”. Ao admitir provável correlação do assassinato de Natalya com o de Politkovskaya, convocou um encontro com representantes de um movimento independente de proteção a direitos civis. E surpreendeu ao enviar ofício de pêsames à família de Natalya.



No que tocava à decisão da Corte de determinar novo julgamento, sem nova colheita de provas, no caso Politkovskaya, o presidente nada falou. Nem sobre a morte, em 5 de julho, de Madina Yunusova, de 20 anos de idade. Natalya apurava o caso Madina, cujo marido havia sido morto três dias antes, sob acusação de ser terrorista checheno.



Medvedev deve ainda muitas explicações. A repórter Anastasia Baburova, do mesmo Novaya Gazeta de Politkovskaya, foi metralhada e morta, em 19 de janeiro deste ano, no centro de Moscou, quando estava ao lado do advogado Stanislav Merkelov, defensor de famílias vítimas da polícia da Chechênia, de Ramzan Kadyrov, de perfil filo-Putin.



Pano rápido. O processo criminal sobre a morte de Politkovskaya está blindado de modo --a impedir o conhecimento dos mandantes do assassinato. Nem o ardiloso Grigory Yefimovich Rasputin faria melhor.

Wálter Fanganiello Maierovitch


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