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Paolo Borselino, dinamitado pela Máfia em 19 de julho de 1992

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

IBGF, 20 de julho de 2009.

juízes Falcone e Borselino: 23/5/1992 e 19/7/1992.




1.Máfia e Política.

No dia 19 de julho de 1992 a máfia explodiu o juiz Paolo Borselino. Também os cinco integrantes da sua escolta. Pela primeira vez, uma mulher, Emanuela Loi, fazia parte desse tipo de trabalho.


Várias cerimônias e atos públicos, no último final de semana, foram realizados para recordar Borselino e as demais vítimas.


Certa vez, um jornalista perguntou a Borselino se ele não tinha medo, pois a máfia não iria nunca desistir de matá-lo. A resposta de Borselino foi curta: “Quem tem medo morre todos os dias. Quem não tem, morre uma vez só”.


No final de semana, os magistrados da antimáfia de Palermo reuniram-se para, mais uma vez, debater sobre quatro mistérios que envolvem o assassinato de Borselino.


Por exemplo: depois da explosão foi subtraída a agenda vermelha de Borselino, do interior de uma pasta de mão. A pasta, com a agenda vermelha dentro, estava no interior do veículo blindado usado nos deslocamentos de Borselino.


Depois da morte de Giovanni Falcone (23 de maio de 1992) pela Máfia, –e também por explosão–, Borselino passou a escrever, na referida agenda vermelho, sobre suspeitos e as ligações da Máfia com a política e os políticos (confira ítem abaixo, de parte da coluna que acabo de publicar na revista Carta Capital).


Nesta semana, os juízes vão convocar Totó Riina, chefe-dos-chefes da Máfia à época dos assassinatos de Falcone e Borselino, para interrogatório sobre provas recolhidas em recentes investigações.



2. Métodos Mafiosos na vida política.

Titular da cadeira de História Contemporânea da Universidade de Palermo, Salvatore Lupo acaba de lançar a obra Quando la Mafia Trovò l´America. A pesquisa historiográfica sobre esse encontro, descoberta dos EUA, englobou arco temporal de 1888 a 2008.


Sobre métodos mafiosos empregados, comparações com o Brasil são inevitáveis. Essas seculares práticas também se enraizaram por aqui. A Máfia, como os José Sarney, Renan Calheiros, Arthur Virgílio, Jader Barbalho, para ficar naqueles mais notórios, atua como parasita. Ou seja, suga o Estado para obter vantagens que não atendem ao interesse público. Quando necessário, ocorrem deliberações secretas.


Em Nova York, ao passar a chamar a Máfia sículo-americana de Cosa Nostra, o superboss Lucky Luciano acabou traído pelo subconsciente. Na verdade, não se tratava, como asseverou em célebre reunião de “negócios”, de transformar a organização num reduto privê. A meta era o Estado virar coisa deles (cosa di loro), com políticos, magistrados, policiais e agentes da autoridade sendo cooptados, subornados e desfrutados: existia até a “bancada” da Cosa Nostra no Parlamento e na Justiça.


No Brasil, o Legislativo Federal transformou-se numa cosa para poucos privilegiados. E os parasitas de colarinho-branco brilham nas conquistas de verbas orçamentárias, privatizações, terceirizações, concessões, parcerias, acessos a fundos de pensão e quejandos. Totò Riina, então chefe dos chefes da Máfia, ficaria orgulhoso em saber como os métodos da sua secular societas criminis difundiram-se pelo Brasil. Talvez até montasse um instituto de ensino a distância, em Brasília, em terreno doado oficialmente e com grana para a construção de uma sede a fundo perdido, para especializar os picciotti di mafie com exame de cases atraentes. A propósito, Daniel Dantas poderia voltar a lecionar e trocar experiências com os alunos.


O movimento social italiano de contraste à criminalidade organizada data de mais de um século, como ensina Umberto Santino na obra Storia del Movimento Antimafia. E logrou-se descobrir a sólida correlação entre Máfia e política partidária.


O exemplo mais contundente foi o de Giulio Andreotti, sete vezes primeiro-ministro e definitivamente condenado por ter se associado à Máfia: beneficiou-se da prescrição. No ano passado, o ex-governador da Sicília Totò Cuffaro renunciou depois de condenado por favorecer a Máfia em concorrências públicas. Quanto ao europarlamentar Salvo Lima, braço direito de Andreotti, na Sicília, a própria Máfia resolveu aplicar a pena de morte. Ele foi considerado um paraculo, ou seja, pessoa que só pensa nela em termos de vantagens.


Nesta semana, o premier Silvio Berlusconi teve o nome mencionado em um processo da Máfia, em que figura como réu o senador siciliano Marcello Dell´Utri. Condenado, Dell´Utri, que fundou com o amigo Berlusconi o movimento político Forza Italia, recorreu da sentença de nove anos de reclusão por ser mafioso. Os juízes da Corte de Apelação decidiram ouvir a testemunha chamada Massimo, filho do falecido capo-mafia Vito Ciancimino, que foi prefeito de Palermo.


Quando ainda era prefeito e foi recolhido ao cárcere Ucciardone de Palermo, Ciancimino recebeu uma carta de Bernardo Provenzano, que dividia com Totò Riina o governo da Máfia. Para repasse a Ciancimino, a carta foi entregue a Massimo por Pino Lipari, à época “ministro das finanças” da Máfia e, hoje, colaborador da Justiça.


Aos juízes da Corte de Apelação, disse Massimo tratar-se de carta a avisar sobre próximos sequestrados e execução do filho de um político, em represália por traição à Máfia. Massimo recebeu a informação do pai de que o político era Silvio Berlusconi. Graças à interferência de Ciancimino, a ordem de Provenzano restou revogada: a carta será periciada na próxima semana.


Como se percebe, os políticos passam por maus momentos também fora do Brasil. Nos EUA, a indignação do momento refere-se ao ex-vice-presidente Dick Cheney, executor da política de terrorismo de Estado durante o governo Bush. Cheney proibiu a Agência Central de Inteligência (CIA) de comunicar ao Congresso, segundo determinava a lei, o projeto governamental voltado a secretamente matar e torturar terroristas.


Para Cheney, como bem sabem Sarney e Calheiros, as investigações sempre acabam dilatadas. Por exemplo, pode-se apurar, também, o desaparecimento de 190 mil fuzis destinados, pelo governo Bush, às novas forças do Iraque.


Em 2004, a empresa KRB, pertencente ao Grupo Halliburton, de Dick Cheney, deixou de entregar ao governo do Iraque as armas pagas pelo governo americano, dadas como desaparecidas. Frise-se: a empresa de Cheney recebeu pela compra, comprometeu-se com o envio e não devolveu o numerário pela falta de entrega no destino. Sabe-se, apenas, que os fuzis não foram enviados para exposição no Convento das Mercês, sob patrocínio da Petrobras.

-Wálter Fanganiello Maierovitch–


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