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Carta enviada a Totó Riina, já chefe dos chefes da máfia

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 15 de julho de 2009.

Salvatore Totó Riina, por ocasião de audiênca judicial.

Nos anos 90, Salvatore Totò Riina, o chefe-dos-chefes (capo dei capi) da Máfia, declarou guerra contra o Estado italiano e fez subir para 800 o número de mortos entre suas vítimas.



Riina, nascido na pequena cidade siciliana de Corleone (nome dado ao protagonista do filme O Podereso Chefão, interpretado por Marlon Brando), foi o mais sanguinário dos capi da Máfia, também chamada de Cosa Nostra.



Sem deixar de comandar o órgão de cúpula da secular Máfia e sem tirar os pés da Sicília, Riina driblou a polícia e a Justiça durante 23 anos. A primeira ordem de prisão contra ele foi expedida em julho de 1969. Mas Riina só foi preso em janeiro de 1993.



Esse longo período de fuga serviu para mostrar não só o poder mafioso e a força da omertà (lei do silêncio). Também revelou um sistema de conivências, ou melhor, de correlação entre máfia e política partidária. Em outras palavras, os cordéis manejados pelos potentes.



Na guerra contra o Estado, Riina, o capo dei capi, mandou dinamitar e matou os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borselino, respectivamente em 23 de maio e 19 de julho de 1992.



De maio a julho de 1993, Riina, chamado de “A Besta” por Tommaso Buscetta, determinou o bombardeamento de Roma, Milão e Florença.



Sobre os 300 quilos de dinamite detonados no centro histórico de Florença, na primeira hora do dia 27 de maio de 1973, versa a carta que Giovanna Maggiani Chelli acaba de enviar ao cárcere onde Totò Riina cumpre pena nominal de prisão perpétua, mas que não poderá ultrapassar os 30 anos.



Giovanna Maggiani Chelli preside a Associação dos Familiares das Vítimas da tragédia mafiosa ocorrida na Via dos Georgofili, em Florença. A sua filha, a jovem Francesca, saiu gravemente ferida e sobreviveu. Igual sorte não teve o seu namorado Dario Capolicchio e outras quatro vítimas.



No ataque mafioso a Florença, além de danos matérias a monumentos históricos como a Torre del Pulci e a uma das repartições da célebre Galeria degli Uffizi (onde estão obras de Da Vinci, Caravaggio, Botticelli etc.), várias dezenas de pessoas saíram feridas.



No primeiro parágrafo da carta enviada a Totò Riina, a senhora Maggiani informa que a sua filha Francesca conseguiu superar todas as dificuldades decorrentes do trauma e conquistou o título, com nota máxima e louvor da banca de examinadores (nota 110 e "lode"), de doutora em engenharia civil.



— “Egrégio signor Salvatore Riina. . . A sua explosão com dinamite despedaçou a minha filha, mas não destruiu a sua vontade. Entre muitas dificuldades e diante de um Estado italiano desatento, a minha filha conseguiu alcançar o objetivo a que se propôs”.



Na carta, que emociona e chama à reflexão, a senhora Maggiani, com ironia sutil, relembra duas outras cartas que mandara a Riina. Ela pedia para Riina tornar-se colaborador de Justiça, a denunciar aqueles que, um degrau acima, davam-lhe sustentação em troca de vantagens político-eleitorais: “O senhor sustenta que não é uma pessoa infame, mas consciência não a tem. Mas pode-se consolar com os políticos e altas autoridades, também sem consciência”.



Giovanni Falcone e Paolo Borselini.

Parêntese.


O senador siciliano Marcello Dell'Utri, que fundou com o premier Silvio Berlusconi a agremiação política Forza Italia, está condenado por associação à Máfia. Como recorreu à Corte de Cassação (última instância), ainda ocupa a cadeira de senador: é presumidamente inocente.



A senhora Maggiani não nomina Dell'Utri, mas volta a falar das ligações da Máfia com a política. A propósito, o senador vitalício Giuglio Andreotti, que foi sete vezes primeiro-ministro, acabou definitivamente condenado por associação mafiosa: a pena prescreveu em razão do decurso do tempo — o prazo prescricional contou-se pela metade (como no Brasil), pelos seus mais de 80 anos de idade.

Parêntese fechado.


A senhora Maggiani, mãe da recém-laureada Francesca, explicou a razão da sua última carta:
“O seu cunhado Leoluca Bagarella (nota informativa: era o ministro da Guerra da Máfia e irmão de Ninetta Bagarella, esposa de Riina) levantou um brinde pelo sucesso das bombas de 1993.
Hoje sabemos que todos os mafiosos estão a brindar pelas mudanças penitenciárias (nota informativa: houve abrandamento do regime de cárcere duro — art. 41, bis, do Código Penitenciário, em face de decisão da Suprema Corte - Corte de Cassação).
Eu brindarei publicamente quando morrerem todos aqueles que em 1993 deram as mãos à Máfia. Cada vez que morrer um desses, levantarei um cálice para brindar e gritarei como fez Bagarella quando morreram os nossos filhos”.




PANO RÁPIDO.
O método e os valores mafiosos se espalharam pelo mundo. No Brasil e sobre a adesão aos métodos mafiosos temos os Sarney, Calheiros, Barbalho, Collor, Quércia, Maluf, Roberto Jefferson, Arthur Virgílio, os da bancada parlamentar de Daniel Dantas etc., etc. Também existem os “picciotti”, para usar um termo mafioso sobre os “pequenos”, como os Severino Cavalcante da vida.



A propósito, ocorre-me com uma frase do magistral siciliano Giuseppe Tomasi di Lampedusa, tirada da sua obra Il Gattopardo: “Nos fomos os Gattopardi ( alguns traduzem por leopardos, mas erroneamente), os Leões. Quem nos substituirão serão os chacais, as hienas. E todos, leopardos, chacais e carneiros, continuaremos a acreditar que somos o Sal da Terra”.

--Wálter Fanganiello Maierovitch--


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