São Paulo,  
Busca:   

 

 

Agora

 

Droga. UNODC. Uma droga de relatório.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 6 de julho de 2009.


As viúvas de George W. Bush, como o presidente colombiano Álvaro Uribe e o italiano Antonio Maria Costa – este, chefe do desprestigiado Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), em Viena – insistem no prosseguimento da política da War on Drugs, pois a consideram vitoriosa.


Isto independentemente das tragédias humanas e ambientais que causou. Um exemplo ocorreu na Colômbia, onde, em razão dos efeitos provocados pelo despejo de herbicidas por aviões a serviço do Plan Colombia-Washington, morreram, em Vichada, 25 crianças das comunidades de sikuanos, guayabweros e nukaks.


O novo czar antidrogas da Casa Branca, Gil Kerlikowske, já declarou falida a War on Drugs e as viúvas da política de militarização reagiram com apoio no relatório de 2009 apresentado pela UNODC, na sexta-feira 26, e por ocasião do Dia Internacional de Luta Contra as Drogas Proibidas.


Para dar munição a Uribe, no encontro com o presidente Barack Obama ocorrido na segunda 29, e também a fim de evitar o “trânsito em julgado” da desmoralizada política antidrogas de Bush, entrou em cena o italiano Antonio Maria Costa, com um relatório de 314 páginas. Depois do escritório da UNODC recolher dados chapa-branca (fornecidos pelos governos dos estados-membros da ONU), Costa anunciou a estagnação dos mercados de cocaína, heroína e maconha. Na Colômbia, falou da queda assombrosa da produção do cloridrato de cocaína, na ordem de 28%, em comparação com 2007.


Na ótica de Costa, esse relatório atesta o sucesso da política antidrogas Washington-UNODC. E Uribe, junto a Obama, postulou a renovação do Plan Colômbia. Costa, no encontro de ministros do G-8, no sábado 27 em Trieste (Itália), disse que a Guerra às Drogas funciona e os países devem colocar mais recursos: o budget de 2008 da UNODC foi de cerca de 332 milhões de dólares, sendo os maiores doadores Canadá, EUA, Suécia, Itália, Holanda e a Comissão Europeia.


A área de cultivo de folha de coca na Colômbia, segundo a UNODC, restou reduzida em 18%. O relatório anual da entidade ligada à ONU não ganha espaço na Europa, que tem um observatório independente, sediado em Lisboa. Na imprensa brasileira, no entanto, é bem divulgado, sem críticas. Pela respeitadíssima associação antimáfia Libera, ficou registrado, em janeiro de 2009, com ampla divulgação nos jornais europeus, que a UNODC e o governo Bush esconderam dados reais sobre cultivo, produção e tráfico de cocaína na Colômbia, no relatório do ano passado, para demonstrar a eficácia da Guerra às Drogas.


“As autoridades colombianas estimaram a produção mensal dos 152 cristalizaderos (responsáveis pela transformação da pasta intermediária em cloridrato, o pó) sequestrados em ações repressivas. E o resultado obtido desmente os dados da UNODC: o produzido nos 152 cristalizaderos, chega ao total mensal de 599 toneladas e 494 quilos de cloridrato de cocaína. Em apenas um mês alcança-se a produção anual apontada pela UNODC, que é de 600 toneladas.”


Por outro lado, outra investigação realizada pela magistratura antimáfia da Itália desmente a conclusão da UNODC, ou seja, “600 toneladas representa apenas a quantidade traficada, no curso de 2008, pela Camorra e ‘Ndrangheta”. Como se percebe, o relatório da UNODC tem o valor de um bilhete de Mega-Sena de concurso sem vencedores. Serve, entretanto, para Antonio Maria Costa afirmar que a política da ONU, que se manteve a reboque da ditada por Bush, dá bons resultados: Costa teve o mandato renovado com aval de Bush.


Ao apresentar o relatório de 2009, o diretor da UNODC manifestou-se contrário à legalização das drogas, talvez até para não ver fechado o seu posto de trabalho. Será um “erro histórico”, sustentou. Para o especialista Vincenzo Donvito, o diretor do UNODC “coloca venda nos olhos e não enxerga que os danos decorrentes da ilegalidade são maiores aos que dizem respeito às drogas em si”.


Considerado trapalhão, Costa, neste 2009, já elogiou a eficiência da política iraniana no combate ao tráfico do ópio e heroína. Apenas esqueceu que todo traficante no Irã é enforcado. Pelo relatório da UNODC, o consumo no Brasil dobrou em três anos, a atingir 0,7% da população.


Importante anotar, ainda, que Costa é contra a política de redução de danos e mandou recente carta ao prefeito de Torino para protestar contra projeto de prevenção ao HIV e às hepatites B e C, que incluía seringas descartáveis, sala para emprego de droga substitutiva e acompanhamento médico e psicológico (existente em 62 países da União Europeia). Quando assumiu o cargo, queria que todos os estudantes do planeta fossem submetidos a testes antidrogas nas escolas. Para Costa, todos estão sob suspeita.

Wálter Fanganiello Maierovitch


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet