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Berlusconi: as Garotas de Programa e o caso Mills

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 1 dejulho de 2009.

Até a segunda-feira 22, quando na Itália foram encerrados o segundo turno das eleições administrativas (províncias e comunais) e o referendo sobre questões eleitorais, os escândalos protagonizados pelo premier Silvio Berlusconi nunca o preocuparam. Agora, o premier perde até os cabelos implantados e, segundo analistas políticos, passará a ser visto nas missas, de cabeça baixa, na busca da remissão de pecados.


Antes, e quando as coisas apertavam, Berlusconi sempre conseguia alterações legais para assegurar a impunidade e a consequente permanência no cargo de primeiro-ministro. No processo em que era certíssima a sua condenação como empresário envolvido em crime de falso balanço, a maioria parlamentar aprovou reformas legislativas, reduziu a pena para esse crime e Berlusconi beneficiou-se com a prescrição.


Em fevereiro deste ano, ocorreu a condenação do advogado David Mills, que recebera 600 mil euros, entre 1996 e 1997, para silenciar em juízo a respeito da participação do premier em duas empresas off shore, usadas para receber fundos ilegalmente, com corrupção de agentes da Guarda de Finanças da Itália.


Mills recebeu a pena de quatro anos e seis meses de prisão e era corréu de Berlusconi. Como a prova da acusação era sólida, com euros depositados na conta de Mills na Suíça, o siciliano ministro da Justiça, Angelino Alfano, aprovou projeto para garantir, ao primeiro-ministro e a outras altas autoridades, a suspensão dos processos: eles só voltam a tramitar no fim dos mandatos. A Lei Alfano pende de julgamento sobre a sua constitucionalidade.


Na sequência do “escândalo Mills”, o premier, pelos jornais, recebeu a notícia de que a sua segunda esposa, Veronica Lario, pediria divórcio. Ela se dizia cansada das humilhações decorrentes da infidelidade do marido. Logo veio o furo da surpreendente presença de Berlusconi no aniversário de 18 anos de Noemi Letizia, que, quando menor de idade, frequentava as suas festas, hospedava-se na sua cinematográfica mansão na Sardenha (Villa Certosa), chamava-o pelo celular, recebia a sua visita para cantarem músicas. De quebra, Noemi chama Berlusconi de “papi”, aliás, apelido dado por uma brasileira que vive em Milão e tem o nome de Renata, conforme revelado pelo jornal Corriere della Sera.


Berlusconi, de pronto, sustentou ser amigo do pai de Noemi, importante dirigente do seu partido em Nápoles, versão desmentida. Os escândalos Mills e Noemi, no entanto, não impuseram, no início deste mês de junho e por ocasião das eleições para o Europarlamento e para as administrativas, uma retumbante derrota a Berlusconi, líder do partido denominado Popolo della Libertà (PDL). Para o Parlamento Europeu, Berlusconi anunciava a obtenção de 40% dos votos. O seu PDL, em razão do efeito Noemi, ficou com 35%, inferior aos 37% conseguidos anteriormente, nas mesmas europeias.


Nas vésperas do segundo turno das eleições administrativas, Berlusconi envolveu-se em novo escândalo. Isso quando já aplainava a estrada, com apoio do influente eleitorado católico, para deixar a chefia de governo e chegar à Presidência da República.


Como fartamente comprovado por fotografias, gravações, interceptações telefônicas judiciais e testemunhos, Berlusconi recebeu três garotas de programa no Palazzo Grazioli, residência oficial. Uma delas, Patrizia D’Addario manteve relações sexuais, a pagamento, com o premier, no dia da eleição de Barack Obama, nos EUA. No começo, Berlusconi disse que não a conhecia, foi desmentido por fotos e por ela integrar, por sua influência, a lista do PDL para as eleições em Bari. Depois dos encontros, Patrizia entregou seis arquivos para a polícia, pois gravou e fotografou tudo.


No cargo, Berlusconi colocou-se como defensor de valores católicos, numa Itália onde a Igreja se intromete em questões de Estado e grande parte do eleitorado orienta-se mais pela cartilha vaticana do que pelo contido nos programas partidários. Mas o escândalo com as garotas de programa levou muitos católicos a mudarem o voto, como já percebeu Berlusconi. Por exemplo, o candidato da sua Milão venceu no sufoco, quando quase ganhara com larga vantagem no primeiro turno. A oposição se recuperou, manteve Bolonha, Florença e Pádua, e na sexta 26 escolherá, fortalecida, o secretário-geral do Partido Democrático (PD).


Berlusconi tentará reconquistar os católicos. No encontro italiano do G-8, marcado para julho, Berlusconi jamais será respeitado como chefe de governo por Obama, Merkel e outros. Já é tido internacionalmente como um pagador de michê que se diz conquistador.


Sua aventura com prostitutas foi descoberta em interceptações telefônicas pela Justiça de Bari. Apuravam-se negociatas e comissões ilegais do empresário Gianpaolo Tarantino, do ramo hospitalar. Era Tarantino quem arregimentava as garotas, que Berlusconi jura nunca ter pago. A propósito, Berlusconi, por outro projeto de Alfano, quer limitar as interceptações telefônicas, em mais uma lei ad personam.

Wálter Fanganiello Maierovitch


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