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IRÃ. Novas Surpresas.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

IBGF, 25 de junho de 2009.

Khamenei e Ahmadinejad.

A iraniana Narges Mohammadi, física de profissão, é considerada o braço direito de Shirin Ebadi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, em 2003.


Narges acabou de sustentar que, apesar do governo despótico de Ahmadinejad, cresceram os movimentos feminista, estudantil e sindical. Para ela, “se os movimentos da sociedade civil continuarem a crecer no Irã, pode-se conseguir colocar rédeas no Estado”.


Narges sabe do que fala. E os protestos que não param representam a prova de que a sociedade civil iraniana está mais organizada e consciente do que se imaginava no Ocidente.


Por três vezes Narges foi detida por suas opiniões. Ao fundar a organização não governamental denominada Observatório para Eleições Livres, passou vários dias e horas sendo interrogada a respeito das suas intenções. Não bastasse, o secretário do Observatório para Eleições Livres foi detido e permaneceu dois meses encarcerado: o observatório nasceu da falta de transparência nas eleições e Shirin Ebadi (Nobel da Paz) e Narges pregaram o não comparecimento às eleições de 2005, que, no segundo turno, foram ganhas por Ahmadinejad. O perdedor foi Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, ex-presidente de 1989 a 1997. No Irã, como no Brasil, admite-se uma reeleição consecutiva ou várias espaçadas.


Taghi Rahmani, desse supracitado ativismo pelos direitos das mulheres e das crianças, ficou preso durante 14 anos por ser considerado subversivo.


Como se percebe, Narges entende bem de lutas de resistência civil. Mais ainda, ela sabe projetar conseqüências: “A democracia não nasce de repente, do improviso”.


Caso ocorresse a eleição presidencial de Mir Hossein Mousavi, de 67 anos, Narges afirma que seriam alargados os espaços nos campos da exteriorização do pensamento e dos direitos humanos.


Ontem, na praça que circunda o Parlamento, ocorreu nova manifestação dos partidários de Mousavi, que insistem em ter havido fraude eleitoral.


Segundo a rede americana CNN, os basiji (milícia governativa) abriram fogo contra a multidão e dois manifestantes, que corriam pela rua Jomhori, teriam sido atingidos.


Mensagens transmitidas por twitter informaram que manifestantes foram espancados na Praça do Parlamento e algumas mulheres feriram-se depois de empurradas de cima de pontes.


O Guia Supremo, ayatolá Khamenei, de 69 anos, não esperava pelas manifestações de ontem. Apostava no conformismo e na volta à paz, até diante da decisão do Conselho dos Guardiões: reconheceu irregularidades. No entanto, entendeu, com base na quantidade de votos a serem invalidados, não serem suficientes para comprometer a reeleição de Ahmadinejad.


Khamenei apostava, também, no impacto da desistência do recurso de impugnação das eleições apresentado pelo ex-canditado conservador Mohsen Rezai (um dos fundadores da organização Pasdaran, que é a milícia revolucionária).


Rezai, que na contagem oficial teria tido 1,7% dos votos, retirou o recurso para acalmar os ânimos e fez uma advertência: “A situação política, social e de segurança do país entrou numa fase sensível e determinante, e ela é mais importante do que as eleições”.


Durante a manifestação de protesto na Praça do Parlamento, o ex-candidato Mousavi, dado como segundo colocado nas apurações, com 33,8% dos votos, publicou um comunicado na internet de três páginas. Nele, insiste na fraude e enumera diversas situações a caracterizá-la.


No Irã invisível, da luta pela cadeira vitalícia de “Rahbar” (Guia Supremo), continua o silêncio de Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, de 74 anos, apoiador de Mousavi e chefe do Conselho do Discernimento (também conhecido por Conselho dos Peritos). Esse órgão é composto de 86 membros, com 8 anos de mandato, e é o único capaz de derrubar Khamenei.


PANO RÁPIDO. Para os ayatolás que apoiam Khamenei e o seu delfim Ahmadinejad, a CIA estaria por trás das manifestações e promoveria uma guerra de informações falsas voltadas para enraivecer o Ocidente contra o Irã. Não é o que pensa a respeitada ativista Narges, acima mencionada.

–Wálter Fanganiello Maierovitch–


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