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Direitos Humanos. Barack Obama pisa em Ovos.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 10 de abril de 2009.


O primeiro périplo de Barack Obama impressionou, pela habilidade diplomática e poder de antecipação. Outros chefes de estado ou de governo, confira-se por exemplo Ratzinger, Berlusconi e o ex-presidente W.Bush, a cada viagem pisam na bola, com polêmicas, gafes e frases revoltantes.


Com efeito. Na sua primeira grande viagem de trabalho, o presidente Barack Obama colocou uma pá de cal no longo período de arrogância diplomática. Isto no trato com chefes de Estado, de governo e organismos internacionais. Na cúpula londrina do G-20, Obama esbanjou humildade e colocou-se como coadjuvante ao reconhecer os méritos e incensar o presidente Lula como líder maior.


Obama só não esperava as resistências francesa e alemã quando – depois de emplacar o premier dinamarquês na secretaria-geral da sexagenária Aliança Atlântica – tentou empurrar a Turquia para dentro da União Europeia. No particular, existe uma oposição silenciosa de Grécia, Chipre, Áustria, Dinamarca, República Tcheca, Eslovênia e Lituânia.
Alemanha e França, que com Sarkozy acaba de se reintegrar à Aliança Atlântica, estavam de acordo com relação à indicação do dinamarquês Anders Fogh Rasmussen. Aliás, 27 dos 28 membros apoiavam Rasmussen.
A reprovação partiu do premier turco Recep Erdogan, membro no seu país do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP). Erdogan recordou o episódio das doze vinhetas ofensivas ao profeta Maomé, publicadas em 30 de setembro de 2005 no jornal dinamarquês Jyllands Posten e objeto de protestos pelo mundo islâmico. Erdogan criticou o dinamarquês pela falta de providências repressivas contra as blasfêmias. E, também, por permitir a transmissão, a partir da Dinamarca, da Roj TV, de orientação curda.


Rasmussen, à época, avisou que no seu país havia liberdade de manifestação de pensamento e se recusou a receber onze embaixadores de países árabes, todos a portar protestos formais debaixo do braço. O presidente Obama procurou acalmar o premier turco e até jantou com o presidente Abdullah Gül. Já existe, pelo que se comenta, a promessa norte-americana de a Turquia ser guindada à vice-secretaria da Otan e conquistar cargos no novo comando militar. A resposta de Erdogan, com aval do presidente turco, veio rápida: “Aceitamos o novo secretário em face da garantia dos EUA”.


O premier turco estava ressabiado, pois temia por parte de Obama uma postura diversa da de Bush, isto pelo seu compromisso com a defesa dos direitos humanos. O governo de Erdogan está em atraso em atender às recomendações da UE no campo dos direitos humanos: continua sem solução a disputa territorial com Chipre.


Só para lembrar, em janeiro de 2007, o Congresso norte-americano editou uma resolução condenatória sobre o genocídio de armênios, em solo do antigo Império Otomano. O então presidente Bush, pelos republicanos, conseguiu conferir à resolução força não vinculante à sua política externa: non-binding resolution.


A Turquia sempre negou o genocídio dos armênios e colocou no seu código penal, como crime, qualquer tipo de conduta afirmativa dessa espécie de delito contra a humanidade. O vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2006, o turco Orhan Pamuk, sofreu ameaça de ser processado e teve de deixar Istambul. O atual governo de Ancara continua a negar, como os anteriores, a ocorrência de genocídio. O governo admite, apenas, a transferência dos armênios para os confins com a Rússia e adverte que os mortos foram vítimas de conflitos civis.


O jornalista turco Murat Bardakci, em obra publicada no fim de janeiro deste ano, destrói a tese do governo. Bardakci teve acesso a documentos guardados pela viúva de Mehmet Talad, ministro do Interior (Defesa Interna) e que comandou os massacres da época com Enver, ministro da Guerra. Para se ter ideia, a população armênia era de 1,256 milhão de pessoas pouco antes de 1915. Dois anos depois, reduziu-se a 284.157.


Obama, ao recomendar a admissão da Turquia na UE, avançou o sinal. Para Obama, “os EUA e a Europa devem se aproximar dos islâmicos como amigos e parceiros no combate à injustiça, à intolerância e à violência. Necessitam construir uma relação fundada no respeito recíproco e no interesse comum”. Sob o prisma da geoestratégia e da geoeconomia, Obama reconhece na laica República da Turquia grande importância político-militar e uma fundamental parceira em face das reservas energéticas em áreas do Mar Cáspio. Sarkozy, pelo que se comenta, lembra das aceitações da Romênia e Bulgária e do ciclo migratório para a França, que não consegue ofertar trabalho nem para os franceses.


A chanceler alemã, Angela Merkel, externou o seu desacordo, mas com habilidade: “Um estreito vínculo com a Turquia é importante, mas devemos ainda pensar em como realizá-lo”. Merkel procura abrir uma nova via, ou seja, conferir à Turquia a condição de “partnership” privilegiada. Sobre o que vem a ser isso, não se tem a menor ideia. Talvez, seja um levar em banho-maria.

-Wálter Fanganiello Maierovitch-


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