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BATTISTI condenado por disparar contra as pernas de pessoas nas ruas.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 13 de fevereiro de 2009.


Cesare Battisti “não foi condenado apenas por quatro homicídios e por pertencer a um bando armado terrorista. Foi também condenado pela ‘gambizzazione di varie persone’, ou seja, disparava com arma de fogo projéteis nas pernas das pessoas. Além disso, acabou condenado por furtos, porte de armas e outros graves crimes”.


De se acrescentar: (1) abuso sexual de incapaz. (2) tiros nas pernas de transeuntes para difundir o medo.


A afirmação de que Battisti, para aterrorizar, saia a disparar nas pernas de indeterminadas pessoas que circulavam pelas ruas foi, nada mais nada menos, do internacionalmente respeitado magistrado Gian Carlo Caselli.


As declarações de Caselli, que atuou como juiz de instrução dos processos da terrorista Brigadas Vermelhas, — a maior das organizações terroristas promotoras da luta armada na Itália e a responsável pelo seqüestro e assassinato do ex-premier e estadista Aldo Moro–, foram dadas à revista Carta Capital, que chegará às bancas na tarde de hoje.


Caselli, chamado por Berlusconi de juiz “togha rossa” (toga vermelha-comunista), foi entrevistado na revista Carta Capital pelo jornalista Mino Carta e pelo autor deste blog.


Para se ter idéia, Caselli, –como sucessor do juiz Giovanni Falcone dinamitado pela Máfia ( era outro considerado “toga-vermelha”)–, foi o responsável pelos processos criminais condenatórios, por associação à Máfia, de Giulio Andreotti (sete vezes primeiro ministro) e do senador Marcello Dell´Utri, amigo íntimo de Sílvio Berlusconi.


Por evidente que só num estado democrático de Direito, com uma magistratura independente e autônoma, se consegue condenar potentes. Aliás, Berlusconi responde a procesos criminais, suspensos enquanto for primeiro ministro.


Não se deve esquecer, no particular, a Operação Mãos Limpas de Milão (norte da Itália), que apurou a corrupção na política partidária italiana e condenou políticos de partidos de direita, centro e esquerda.


Em face dessa Operação, conduzida pela magistratura do Ministério Público de Milão, a Itália fez a reforma política e os tradicionais partidos foram extintos.


O senador siciliano Dell´Utri, supracitado, fundou com o seu íntimo amigo Silvio Berlusconi o partido Forza Itália. Tanto Andreotti como Dell´Utri estão condenados com trânsito em julgado por terem se associado à Cosa Nostra, num dos processos reveladores das correlações “máfia-política”.


Caselli foi sentenciado de morte pelo sanguinário Totó Riina, chefe-dos-chefes da Cosa Nostra (máfia siciliana), em célebre audiência realizada em sala-bunker do palácio da Justiça de Palermo.


Riina, que ficou mais de 20 anos foragido sem tirar os pés da Sicília e abdicar de governo da Cosa Nostra, disse ser “perseguido por mentiras do magistrado Caselli que fala de uma organização criminosa, Máfia, que nunca existiu”.


Tal afirmação representou um aviso, em audiência judicial, para a Máfia executar Caselli, que vive “blindado”, com a família.


Com Riina, a Máfia decretou guerra ao Estado-italiano: matou juízes, policiais e políticos. Mais, dinamitou cidades como Roma, Milão e Florença.


Guerra essa que, certamente, inspirou o Primeiro Comando da Capital (PCC) a declará-la contra o governo do estado de S.Paulo. No particular, a diferença foi que a Máfia perdeu e o PCC negociou vantajoso acordo com o governo de São Paulo.


Com 40 anos de carreira de magistrado e sempre na linha de frente, Caselli é o grande responsável, em razão de haverr enfrentado a Cosa Nostra, pelo surgimento, junto à sociedade que silenciava por medo (” omertà”), de organizações que lutam na Sicília pelos direitos de cidadania, pela legalidade, contra a Máfia e toda forma de violação a direitos humanos.


Sobre certo factoide criado pelo ministro Tarso Genro, — porteriormente desmentido pelos órgãos de imprensa como, por exemplo, os jornais Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo e Carta Capital–, de que Battisti fora condenado com base em um único depoimento, consistente numa delação premiada de Piero Mutti, o magistrado Caselli, no curso da entrevista à Carta Capital, esclareceu:
“O que é isso. Basta ler as sentenças nos processos, aliás são públicas e se encontram estampadas no site www.vittimeterrorismo.it , para se constatar quanto são falsa as afirmações que contra Battisti existiam apenas declarações de Mutti. Foram, ao invés, numerosas provas: os testemunhos, os colaboradores e os réus não colaboradores de Justiça, todos que com declarações em juízo possibilitaram, — junto com perícias, documentos apreendidos, armas e munições seqüestradas—, a reconstrução de toda a história dos Proletários Armados para o Comunismo (PAC) e de todas as responsabilidades pessoais de Battisti”.


PANO RÁPIDO. Não é lícito a um ministro da Justiça esconder a verdade. Nem inventar factoides para encobrir o pífio e único fundamento-legal da sua decisão de concessão de status de refugiado político a Battisti: a Itália não tem condições de garantir a integridade de Battisti, caso enviado para o seu território.


Genro, ou não leu os processos condenatórios de Battisti e foi irresponsável, ou quis cobrir com o manto da impunidade um assassino, por pensar que a Itália ainda é fascista e Battisti um herói da luta-armada. Se agiu assim, seguiu a “gauche-caviar”, que tem na escritora Fred Vargas (autora de sucesso livros de suspensa como Battisti) seu baluarte: os asilados de esquerda estão furiosos com a mentira divulgada por Vargas de que a primeira-dama Carla Bruni intercedeu junto ao governo brasileiro por Battisti, fato desmentido pela própria Bruni. Também os asilados estão indignados com as histórias mentirosas de Battisti: confira-se post deste blog, sobre o desmoronamento do muro protetor de Battisti.


Sinceramente, gostaria de saber, como escreveu Genro para conceder o refúgio político a Battisti, se alguém acredita que a Itália não tem condições de assegurar a vida de Battisti, caso restituído para cumprir condenações (aviso aos desinformados: não há na Itália prisão perpétua).


Aos que pensam no “perigo chamado Berlusconi” fica o convite para ler os jornais e a decisão do ilustre presidente Giorgio Napolitano (comunista histórico e chefe de Estado). Ele não acatou deliberação de Berlusconi e mandou cumprir a decisão da Justiça que determinava cessar as intervenções em Eluana Englaro, em estado-de-coma há 17 anos e vítima de um acidente automobilístico em 18 de janeiro de 1992.


Como se percebe, Napolitano manteve a Constituição e não permitiu interferência do premier Berlusconi, no caso, um teleguiado das ordem que chegavam do outro lado do rio Tevere, ou seja, do Vaticano.


Abaixo segue artigo, publicado no jrnal Folha de S.Paulo de ontem, do escritor e jornalista Pedro Del Pecchia, correspondente do jornal Folha de S.Paulo ao tempo do terrorismo na Itália.

–Wálter Fanganiello Maierovitch–
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PEDRO DEL PICCHIA: APÓS A queda do regime fascista e o fim da Segunda Guerra Mundial, o povo italiano decidiu pela instauração do regime republicano, por meio de referendo, em 2 de junho de 1946, colocando fim à monarquia. Na mesma data foi eleita a Assembleia Constituinte.


A nova Carta entrou vigor no dia 1º de janeiro de 1948, afirmando em seu artigo 1º que “a Itália é uma República democrática”. Mais adiante estabelece o voto universal, a liberdade partidária e o sistema parlamentarista de governo. Com a introdução de emendas ao longo dos anos que não modificaram sua essência, a Constituição de 48 permanece em vigor.


Nesse contexto, vivi na Itália de 1978 a 1981, trabalhando como correspondente desta Folha. Acompanhei de perto os inúmeros atos terroristas praticados à época por grupos de esquerda e de direita. Em dezembro de 1970, ocorreu uma tentativa fracassada de golpe de Estado por parte da extrema direita.


Este fato açulou os ânimos dos agrupamentos de extrema esquerda, que se tornaram mais ousados. As Brigadas Vermelhas, que surgiram em meados de 1970 ainda sob os ecos radicais do movimento de 1968, logo ganharam notoriedade por suas ações violentas.


Os ideólogos das Brigadas diziam que estavam dando continuidade à Resistência. Se os “partigiani”, nos anos 40, lutaram contra o fascismo e a ocupação alemã, os “brigatisti” estavam dando continuidade à “luta de libertação nacional”, agora contra o “Estado Imperialista das Multinacionais” -da sigla SIM em italiano.


Depois de ferir e assassinar dezenas de “inimigos de classe”, as Brigadas Vermelhas cometeram seu ato mais audacioso com o sequestro e assassinato de Aldo Moro, em 1978, que cobri para a Folha. Moro era uma espécie de paradigma moral da Democracia Cristã -partido que liderava a coalizão de governo na época.


O grupo Proletários Armados pelo Comunismo entrou em cena na segunda metade dos anos 70, na crista das ações espetaculares das Brigadas. É importante deixar claro que, diferentemente da opinião de alguns analistas brasileiros, o governo da Itália não era de extrema direita no final dos anos 70. Provavelmente até havia infiltração de gente de extrema direita nos serviços secretos italianos. Na ocasião, comentou-se e especulou-se muito sobre isso. Mas o governo, propriamente, era constitucional, democrático, com um Parlamento eleito pelo povo no pleito histórico de 1976, quando o Partido Comunista Italiano quase venceu a Democracia Cristã.


Aliás, o PCI sempre foi contra os grupos terroristas, de esquerda e de direita. Tachava-os de antidemocráticos.


Essa também era a opinião do presidente da República, Sandro Pertini, que jamais poderia ser tachado de conivente com a direita. Pertini, socialista histórico, uma lenda da esquerda europeia, foi companheiro de cárcere de Antonio Gramsci -ambos presos pelo regime fascista. Umas das razões para o assassinato de Moro, segundo inúmeros analistas, foi o fato de ele defender um entendimento direto entre a Democracia Cristã e o PCI. O democrata-cristão e o então líder comunista Enrico Berlinguer propugnavam por um “compromisso histórico” -uma nova aliança entre as duas maiores forças políticas do país, visando a governabilidade e os avanços administrativos que a Itália requeria para superar o pântano da burocracia, a ineficiência crônica do Estado e enfrentar os desafios da revolução tecno-científica que dava seus primeiros sinais.


Evidentemente, para os extremistas -à direita e à esquerda-, o chamado “compromisso histórico” era inaceitável. Não podiam admitir a aliança entre os dois maiores partidos políticos do país com a finalidade de renovar o Estado que combatiam. Aldo Moro foi assassinado por nostálgicos da Revolução Bolchevique que eram, não apenas leninistas, mas stalinistas -na mais crua e cruel definição desse qualificativo. Os “brigadistas” diziam, então, que estavam “golpeando o coração do Estado”.


De fato, esses radicais atacaram o Estado democrático de Direito que, com todas as imperfeições, mantinha-se na Itália -como se mantém até hoje- desde o final da Segunda Guerra. Eles visavam declaradamente tomar de assalto o poder e implantar a “ditadura do proletariado”. Até no nome, por exemplo, a organização Proletários Armados pelo Comunismo dizia a que vinha.


Não conheço o processo e, portanto, não sei se o sr. Cesare Battisti cometeu os homicídios a ele atribuídos.


Mas, seguramente, sei que ele não era, nos anos 70, um perseguido político por um regime ditatorial. Ao contrário, na vigência do Estado de Direito, ele optou, por vontade própria, pela subversão da democracia e, para isso, aceitou e incentivou o recurso às armas e ao terrorismo.


PEDRO DEL PICCHIA é jornalista e escritor. Foi correspondente da Folha de S.Paulo em Roma de 1978 a 1981.


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