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CRIME ORGANIZADO: Dantas inicia 2009 com vitória.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 12 de janeiro de 2008.

Dantas, quando preso pela Polícia Federal.


Para sintetizar a força da criminalidade dos potentes, a saudosa escritora italiana Camilla Cederna repetia o teor de uma frase mandada grafar pela Máfia siciliana nos muros de Palermo: Chi ha soldi e amicizia va in culo alla Giustizia.


Os poderosos, ainda que usem de métodos mafiosos, têm pouco a temer. A propósito, o presidente Lula afirmara em entrevista, logo depois da reação negativa dos cidadãos em face do afastamento do delegado Paulo Lacerda do comando da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que ele voltaria ao cargo quando quisesse.


Uma sindicância do Gabinete de Segurança Institucional, comandado pelo general Jorge Armando Felix, concluiu não ter tido Lacerda nenhuma responsabilidade pelos fatos noticiados pela revista Veja, ou seja, um “grampo” de conversa telefônica entre o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO).


Mais ainda: o inquérito policial aberto sobre os fatos ainda carece da prova da materialidade delitiva, isto é, da existência do crime. Isto porque a gravação da conversa mencionada pela revista não foi encontrada: existe apenas a transcrição da interlocução, que pode ser resultado de montagem.


Nesse episódio do “grampo sem áudio”, coube ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, representar o papel do guardião da moralidade. Bem ele que, em livro laudatório, confessou ter fraudado a Constituição ao inserir artigos não apresentados e aprovados aos seus pares deputados.


A fim de pressionar Lula para afastar Lacerda, Jobim fez, durante reunião ministerial, afirmação falsa. Ele sustentou possuir a Abin, da mesma maneira que o Exército, equipamentos sofisticados para promoção de escutas telefônicas.


O pacato general Felix ameaçou resistir, mas preferiu, como se fora um disciplinado cabo-da-guarda, aceitar, embora a contragosto, o afastamento temporário de Lacerda. No início do governo Lula, já tinha sido passado para trás. Apesar de chefe, não pôde escolher o diretor da Abin e aceitou a indicação do delegado de polícia estadual Mauro Marcelo.


Com efeito. Àquela altura do episódio noticiado por Veja, o ministro Gilmar Mendes já havia, pelos jornais, ameaçado “chamar às falas” o presidente da República. Posteriormente, em entrevistas, Mendes deixou claro que jamais aceitaria a volta de Lacerda. Felix capitulou de novo.


Para fechar 2008, um acordo tirou Lacerda da Abin. O ministro Jobim foi mantido, apesar da mentira. Quanto a Felix, este não teve a dignidade de apanhar o boné.


O ministro da Justiça continua também. E a ele coube a missão de promover um atentado contra a inteligência do comum do povo. Lacerda virou adido policial, cargo importante, segundo explicou Genro. Teria ficado melhor, menos escancarado, reverter a sua aposentadoria, para legitimá-lo na função de adido: adido aposentado, só em república bananeira.


Na prática, a saída apresentada pelo ministro da Justiça não atendeu ao interesse público. Mais uma vez, Daniel Dantas saiu vitorioso.


Entre beijar a lona e aceitar a toalha jogada, Lacerda optou, com a consciência em paz pelo dever cumprido, por um exílio em Portugal. Talvez, para se fingir de morto.
--Wálter Fanganiello Maierovitch--


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