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MÁFIA: Totó Riina e o seu fã-club.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 7 de janeiro de 2009.

Totó Riina, em foto publicada no The New York Times.

O “Facebook” é um website de relacionamentos. Ou melhor, uma network-social. Foi fundada por um ex-estudante de Harvard, Mark Zuckerberg.

No início, o “Facebook” era destinado somente aos estudantes do Harvard College. Logo depois, espalhou-se pelo mundo e é acessível pela internet.

No “Facebook” e com o título “Totó Riina il vero Capo de Capi” (o verdadeiro chefe-dos-chefes), uma página com a foto do “boss dei boss” abre-se para a comunidade dos seus admiradores e dos apologéticos a serviço da Máfia.

A página dedicada a Riina conta com 4.600 filiados. Ele e a Máfia são enaltecidos e glorificados. Por outro lado, recebem ofensas os internautas que ousam deixar mensagens de protesto contra os posicionamentos dos cultores do facínora Riina, todos, aliás, de postura ético-moral duvidosa.

Com efeito, Salvatore Riina, “capo dei capi” da potente e secular Máfia siciliana, foi dado como foragido da Justiça italiana em 8 de julho de 1969.

Riina permaneceu na condição de foragido da Justiça durante 23 anos. Só foi preso em 15 de janeiro de 1993, quando já completara 63 anos de idade.

Nascido na pequena cidade siciliana de Corleone (cujo nome acabou dado ao protagonista do filme “O Poderoso Chefão”: don Corleone) e chamado pelos soldados da Máfia de “zu Totó” (tio Totó em dialeto siciliano), nunca se sentiu ameaçado de prisão a ponto de precisar deixar a Sicília. Jamais se afastou do comando da organização criminosa transnacional conhecida por Máfia ou Cosa Nostra.

Quando preso, morava num apartamento de luxo, na aristocrática via Bernini. Foi capturada ao sair de casa num veículo da marca Citroën, conduzido por motorista particular. A polícia apenas lembrou-se de ingressar no apartamento e o lacrar no dia seguinte à prisão. Ao diligenciar, o apartamento já havia sido visitado por mafiosos que limparam gavetas e retiraram anotações e arquivos da Cosa Nostra, que estavam na posse de Riina.

Embora foragido da Justiça e dado como o criminoso mais procurado da Itália, Riina casou-se com a professora de escola pública, Antonina Bagarella (Ninetta), em cerimônia celebrada por um padre da Sicília: Ninetta Bagarella, foi a primeira mulher italiana a ser condenada por associação à Máfia.

O casal Riina registrou os quatro filhos no cartório de registro civil (anagrafe). Mais, Riina e Ninetta levaram os filhos para serem batizados numa igreja católica da Sicília. Os rebentos, quando em idade escolar, cursaram escolas públicas. Graças à omerta (lei do silêncio imposta pela Máfia), as autoridades nunca foram comunicadas.

Totó Riina, como ficou conhecido, foi o mais sanguinário dos chefes mafiosos, responsável por centenas de homicídios. Para usar a expressão consagrada por Leonardo Sciascia, um dos grandes nomes da literatura siciliana, a Máfia de Riina produzia “vítimas anônimas” e “cadáveres excelentes”, ou seja, executava cidadãos comuns e pessoas destacadas na sociedade, como, por exemplo, juízes, promotores, policiais, deputados, prefeitos etc.

Só para lembrar, Riina foi o mandante dos homicídios dos juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, dinamitados pela Máfia, com os seus agentes de escolta, em 23 de maio de 1992 e 19 de julho de 1992.

Preso em cárcere de segurança-máxima, agora com 78 anos e idade e sob regime disciplinar especialmente rígido previsto no artigo 41, bis, do Código Penitenciário italiano, Riina nega pertencer à Máfia, que a seu juízo nunca existiu e é uma criação de jornalistas, de magistrados e de intelectuais.

Com 1,58 de altura, recebeu dos chefes mafiosos regionais, que comandava como ditador, o apelido de Totó ù curto (Totó, o curto). Para os rivais, ele era Totó, la belva (a besta).

O falecido Tommaso Buscetta, que teve filhos eliminados por determinação de Riina e que foi casado com a carioca Cristina Guimarães (ela mora nos EUA), não considerava apropriado o apelido “La Belva” (a besta) e ressaltava: “As bestas não raciocinam, são instintivas. Riina não é assim, pois raciocina e como raciocina. Totó Riina é simplesmente a reencarnação de Átila: onde passou, ele levou a destruição, isto na máfia, na política e entre as pessoas para o bem”.

A comunidade de admiradores de Riina no “Facebook” acabou por inspirar outra iniciativa igualmente lamentável. O sucessor de Riina, o boss Bernardo Provenzano, também de Corleone e recordista em fuga por permanecer 43 anos foragido, sem se afastar da Sicília e da organização criminosa, conta com a admiração de muitos internautas. Na página “Facebook” dedicada a Provenzano estão inscritos 653 internautas.

PANO RÁPIDO. Ainda não se conhece, por iniciativa de brasileiros, comunidades virtuais dedicadas a réus que já ocuparam páginas policiais e judiciárias da mídia, como Daniel Dantas, Salvatore Caciolla, Fernandinho Beira-Mar, etc.
--Wálter Fanganiello Maierovitch--


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