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TERROR e MÁFIA: O capo mafiaDawood Ibrahim na tragédia de Dubai.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

IBGF, 7 de dezembro de 2008.

Dawood Ibrahim.

1.
Tenho insistido em dizer que o crime organizado é gênero que tem como espécies a quadrilha, o bando, a máfia e o terror. Quadrilhas, bandos e máfias só têm a ideologia do lucro. Nenhuma outra.


Não surpreende, portanto, o fato de um capo-mafioso negociar com organizações terroristas. Comprar armas, bombas, passaportes falsos e conseguir fazer circular capitais reciclados, por exemplo, estão entre as necessidades básicas de uma organização terrorista, eversiva. E as máfias disponibilizam esses “negócios sujos”.


Dawood Ibrahim é um chefe mafioso do Paquistão, que tem sua organização de matriz mafiosa em Karachi, no Paquistão. Ele é o quatro da lista dos mais procurados criminosos do planeta.


No tragédia de Mumbai (Índia), Dawood foi quem negociou a venda de armas, explosivos, munições, etc, com a organização terrorista Lashkar-e-Taba , responsável pelatragédia em Mumbai. A Lashkar-e-Taiba controla a cidade paquistanesa de Lahore.


Segue abaixo, uma análise geopolítica do episódio e a atuação Terror-Máfia.




2.
No reaberto e famoso café Leopold da cidade de Mumbai, os habituês falam de um 11 de setembro indiano, com o hotel Taji Mahal no lugar das torres Gêmeas de Nova York.


O Leopold foi um dos alvos dos ataques terroristas, iniciados na noite de quarta-feira 26 e só controlados no domingo seguinte pela National Security Gards (Nsg). Esta, uma força especial antiterror cujos 7.500 integrantes são conhecidos pelo apelido de Black Cats (gatos negros), pelas divisas e lenços de pescoço de cores negra.


Para as autoridades do estado de Maharashtra, cuja capital é Mumbai (nome imposto pelos nacionalistas hindus em 1995 e a substituir Bombaim), os mortos somam 174 e não 195 como falado. Destes, 28 corpos são estrangeiros, incluídos os 9 israelenses massacrados na invasão do centro religioso Beit Chabad. Os feridos não ultrapassam 240.


Num país como a Índia, é inadequada a comparação. No Ocidente, ao contrário do Oriente, nunca tinha sucedido nada semelhante à fúria alqaedista. Na Índia, desde o tempo da independência, em agosto de 1947 e pós desmembramento do Império Britânico das Índias e às formações da União Indiana, de maioria hinduísta, e do Paquistão majoritariamente islâmico, são freqüentes os conflitos sangrentos e funestos.


A propósito, basta atentar para a constante violência em território indiano para se dar razão ao professor Alexander P. Schmid. Ao distinguir o homicídio decorrente de um crime comum do assassinato terrorista, ele frisou “não coincidir o alvo direto da violência com o alvo principal”. Ou seja, as vítimas da violência do terror são escolhidas ao acaso: alvos de oportunidade, ocasião, para usar a linguagem de Schmid.


Só para recordar, a Índia, que tem o segundo maior exército do planeta, já se envolveu, na disputada região da Caxemira, em três guerras contra o Paquistão: 1948, 1965 e 1971. E por uma faixa de terras na Caximira, existem fortes tensões com a China. Outro foco de instabilidade fica na fronteira da Índia com Bangladesh.


Internamente, é comum o governo indiano, que tem um péssimo serviço de espionagem por falta de órgão coordenador, enfrentar, com as suas forças de ordem. separatistas e autonomistas em Assam, Punjab, Tripura, Bihar, Andra Pradesh e Chhattisgarh. Em Nagaland, os embates são contra os rebeldes maioístas.


Na Índia, radicalismo religioso de matriz fundamentalista islâmica ou hinduísta e nacionalismo acerbado deságuam em assassinatos de políticos e ações terroristas a atingir civis. Para ficar apenas na dinastia fundada por Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), tivemos os assassinatos da premier Indira Ganhi (1984) e do seu filho e sucessor Rajiv Gandhi (1991), isto depois da constituição da Índia como uma república federada, com 28 estados e 7 territórios.


Depois da última tragédia causada pelo atentado terrorista em Mumbai, das confissões do único terrorista sobrevivente, Azam Amir Kasav, que também usa os nomes Mohamemed Ajmal Amin Kasab e Ajmal Kamal, começou o oportunismo político. O partido radical hinduísta Bharatiya Janata Party (Bjp) mira nas eleições gerais marcadas para março de 2009 e tira proveito de um 2008 que será lembrado pelas constantes ondas de terror: nos últimos seis meses consumaram-se seis graves atentados. Mais, estão sendo lembrados pelo Bjp o sangrento atentado ferroviário, em fevereiro de 2007, entre Nova-Delhi-Lahore. Ainda, a série de atentados a Mumbai, em julho de 2006, e que resultaram em 200 mortes.


Um dos líderes mais radicais do Bjp rumou na sexta-feira passada a Mumbai e passou a prometer dinheiro para as famílias das vítimas. O presidente do Bjp, Lal Krishna Advani, ataca o Partido do Congresso (Inc), situacionista e guiado por Sonia Gandhi, uma italiana, viúva do assassinado premier Rajiv Gandhi, filho de Indira.


Para o dirigente maior do Bjp, o Inc é incapaz de impedir a eversão, de reprimir os terroristas e afastar notórios políticos corruptos dos seus quadros. No enanto, Sônia Gandhi conquistou o respeito de grande parte da população. Primeiro ela, tida como estrangeira e distante da vida política, renunciou, em razão da morte do marido Rajiv, ao cargo de premier, que foi ocupado pelo atual primeiro ministro Manmohan Singh. Depois disso, ela se dedicou com sucesso ao aperfeiçoamento do hindi que, junto com o inglês, é língua oficial. Aí, Sônia mergulhou na atividade político-partidária e tornou-se a líder do Inc.


No momento, a ameaça de uma outra guerra com o Paquistão, que é igualmente potência nuclear, é improvável e o processo de paz não será interrompido: as relações diplomáticas foram restabelecidas em maio de 2003 e, no ano seguinte, os dois países firmaram uma moratória sobre a produção e emprego de mísseis com testada nuclear.


Não há dúvida, como ressaltou o vice-ministro do interior indiano, Shakeel Ahmad, que todos os terroristas eram paquistaneses. Mas, daí para responsabilizar diretamente o novo governo do presidente paquistanês Asif Zardari a distância é grande. Zardari é viúvo de Benazir Bhutto, assassinada em dezembro de 2007. Há pouco, ele venceu democraticamente as eleições que tiraram do poder o golpista ditador Pervez Musharraf.


Zardari é político habilidoso e, quando os terroristas ainda estavam em ação, colocou-se à disposição do governo da Índia para ajudar, após declarar que os dois países são vítimas do terrorismo. O problema maior de Zardari, apelidado de “doutor 10%” pelas suspeitas de indevido recebido de comissões ao tempo do mandato da premier Benazir, é com o incontrolável ISI, ou seja, o serviço secreto do Paquistão. Os 007 do ISI não se sujeitam ao governo e têm perfil filo-taleban. Há forte suspeita de o ISI dar proteção, nas regiões tribais e de fronteira com o Afeganistão, aos alqaedistas.


O premier indiano Singh contou que os terrorista que atacaram Mumbai, todos na faixa etária entre 20 e 25 anos, eram membros da organização Lashkar-e-Taiba, nascida no Afeganistão em 1991 e que se mudou para a cidade paquistanesa de Lahore.


A Lashkar-e-Taiba combate na região da Caximira e está plugada na rede da Al Qaeda, de Osama bin Laden.
De se frisar, conforme revelou o único terrorista sobrevivente, Azam Amir Kasav, que o grupo-de-fogo que agiu em Mubai era composto de cerca de 15 membros. Esse grupo, com faixa laranja no braço para reconhecimento entre os integrantes, partiu da paquistanesa Lahore. E atacou em Mumbai alvos adrede selecionados e a causar grande impacto internacional.


Kasav, de 21 anos de idade, natural de Faridkot na Caximira, revelou que a meta era eliminar pelo menos 500 pessoas. Todos portavam, além da kalashinikov de cano-curto, farta munição e granadas, suficientes, segundo os graduados da força especial antiterror, os Black Cats, para matar mais de 5 mil indivíduos.


As armas e munições foram compradas de duas organizações criminosas e mafiosas dirigidas pelo “capo” paquistanês” Dawood Ibrahim . Dawood é o quarto homem mais procurado no mundo. Para a CIA, principal agência norte-americana de espionagem, Dawood comanda uma network criminal que opera em Dubai e na paquistanesa cidade de Karachi. Esta foi o segundo ponto de parada dos terroristas antes de alcançar Mumbai. Em Karachi o grupo recebeu as armas e os equipamentos vendidos por Dawood.


Como se pode observar, a criminalidade de matriz mafiosa, que se dedica ao tráfico de armas, munições e equipamentos de combate como tanques, helicópteros, motos, lanchas e barcos, não tem ideologia. Interessa apenas o lucro. Por isso, as internacionais criminosas, como a comandada pelo “patrino” paquistanês Dawood, vende armas e equipamentos eletrôncicos para organizações terroristas.


O traficante de armas Dawood, que é o maior fornecedor ilegal de fuzis kalashinikov, é conhecido no Oriente Médio, em especial por ter vendido as armas empregadas no atentado terrorista de 1993, na mesma Mumbai.


--Wálter Fanganiello Maierovitch--


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