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MÁFIAS E CINEMA.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

IBGF, 13 de novembro de 2008.


Terminou na sexta-feira 31, com extraordinário sucesso, o Festival Internacional do Filme de Roma. Duas produções cinematográficas, a abordar os fenômenos da Cosa Nostra (da Sicília) e da Máfia Salentina (Puglia), também conhecida por Sacra Corona Unita, empolgaram. E as multinacionais distribuidoras saíram com a certeza de que as duas produções se transformarão em campeãs de bilheterias, a partir de 21 de novembro, quando ingressarão no circuito comercial internacional.


O certo é que o best seller Gomorra, do jornalista Roberto Saviano, já traduzido em 42 países (no Brasil ainda não), com mais de 1 milhão de cópias vendidas e prêmios importantes conquistados, como o do festival do livro de Frankfurt, abriu caminhos ao ser adaptado para o cinema e teatro.


Para se ter idéia, depois de Il Gattopardo, de Giuseppe Tomasi Di Lampedusa (1958), e de O Nome da Rosa, de Umberto Eco (1980), o livro Gomorra (2007), de Saviano, transformou-se no terceiro maior best seller italiano dos últimos 50 anos.


Quanto ao filme Gomorra, é forte candidato ao Oscar de melhor entre os estrangeiros. O dramático filme de Matteo Garrone, com 135 minutos de duração e rodado neste ano, cuida de criminalidade organizada de matriz camorrista, com destaque especial para a famiglia Casalese, controladora da capital mundial da contrafação (pirataria) que é Casal de Principe, na região da Campânia. Proporcionalmente, a meridional cidade casalese tem o maior número de automóveis Mercedes-Benz em circulação no planeta, e eles não são piratas.


O elenco de Gomorra é irreprochável, a começar pela consagrada, bela e jovem napolitana Maria Nazionale, que contracena com os partenopeus Toni Servillo, Gianfelice Imparato, Gigio Morra e Salvatore Cantalupo.


As duas produções que surpreenderam no Festival de Roma e levaram as máximas quatro estrelas da crítica especializada têm os títulos de Galantuomini e La Siciliana Ribelle.


O filme Galantuomini, do pugliese Edoardo Winspeare, mostra aspectos da Sacra Corona Unita, que é uma organização criminosa nascida, como o paulista Primeiro Comando da Capital (PCC), no interior de presídios, no caso, na província de Lecce. Ela controla territórios em Salento, que, visto o mapa da Itália, é onde fica o “salto” da bota, ou a velha Terra d’Otranto.


Ambientado entre os anos 1970 e 1990, o enredo versa sobre uma tormentosa história de amor entre um juiz, pertencente à classe burguesa, daí o galantuomini, e uma mulher rude, filha de camponeses e que era uma potente chefe de clã da referida Máfia Salentina. Em síntese, uma relação impossível entre pessoas diversas, com o amor em conflito com as leis e as convenções. Em Galantuomini, os protagonistas são interpretados por Donatella Finocchiaro e Fabrizio Gifuni.




O segundo filme de sucesso no festival, intitulado La Siciliana Ribelle, é baseado na real e amarga história de vida de Rita Atria, que, depois da exibição do filme no Festival de Roma, teve a escolta policial reforçada. Isso porque tem contas a acertar com a Máfia Siciliana e, conforme alertou Rita Borsellino, irmã do juiz Paolo dinamitado pela máfia e que recolheu os relatos de Rita Atria, o seu débito cresceu. Isso a partir do momento em que a sua vida, no que toca a desnudar a Cosa Nostra, será mostrada nas telas de cinemas espalhados pelo mundo.


A rebelde é interpretada pela fascinante Veronica D’Agostino e o filme é de Marco Amenta. Na trama, a filha, irmã e noiva de mafiosos, todos executados cruelmente pela Cosa Nostra, torna-se colaboradora da Justiça. Só que, num primeiro momento, com a intenção de se vingar da Cosa Nostra e de mafiosos. Com o decurso do tempo, a vingança cede lugar a valores de civilidade e de respeito aos direitos humanos. Então, a rebelde muda para o lado da antimáfia e conta tudo o que sabe sobre a organização, incluídos os crimes perpetrados pelo pai, o irmão e o noivo.


O Festival de Roma deste ano escolheu o Brasil como país homenageado e entregou a Al Pacino a cobiçada estatueta do Marco Aurélio de ouro, que reproduz a estátua eqüestre custodiada nos museus capitolinos, no Campidoglio concebido por Michelangelo. Outro convidado especial foi o ator de sucesso Rodrigo Santoro, que começou uma coletiva de imprensa na deslumbrante villa romana onde ficou hospedado com uma decorada saudação em italiano. Depois de afirmar ser filho de pai italiano, respondeu às perguntas em inglês.




A festa de abertura aconteceu na praça Navona, defronte à embaixada brasileira. Um arranjador norte-americano de Nova York reuniu 40 músicos brasileiros lá residentes, a maior parte percussionistas. O frevo fez a praça ferver, com turistas desinibidos a imitar os passistas brasileiros, sob os risos irônicos de elegantes travestis, nossos co-nacionais, que deixaram luxuosos carrões estacionados nas proximidades.


Wálter Fanganiello Maierovitch


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