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MÁFIA CROATA.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 1 de novembro de 2008.

Zagorec, ministro e general, traficava armas e roubou diamantes.

Ivo Pukanic, apelidado de Puki, ficou conhecido na Europa pelo jornalismo investigativo e pela amizade com o biliardário compatriota Hrvoje Petrac, um traficante de armas que fizera fortuna durante o governo do sanguinário presidente Franjo Tudjman. Com Tudjman e os seus generais croatas na mira da Corte Especial das Nações Unidas para os crimes de guerra e contra a humanidade na ex-Iugoslávia, Petrac fugiu para a Grécia, mas não escapou à extradição.


Petrac recebeu condenação, em primeiro grau, como mandante de crime de extorsão mediante seqüestro do filho do corrupto ex-general e ex-ministro da Defesa croata Vladimir Zagorec. Este foi preso e extraditado por corrupção para a Croácia, depois de localizado o seu esconderijo austríaco, onde mantinha contas bancárias estimadas em mais de 26 milhões de euros. Pelo resgate do filho de Zagorec o mandante Petrac teria solicitado 1,5 milhão de euros.


A propósito, quando a Croácia estava sob embargo, Zagorec comprava armas no mercado ilegal, por ordem de Tudjman, líder ultranacionalista, primeiro presidente da Croácia independente (1990) e vencedor da guerra contra a Iugoslávia de Slobodan Milosevic. Além dos desvios de dinheiro, Zagorec subtraiu dos cofres do Ministério da Defesa diamantes avaliados em 5 milhões de dólares. Uma das testemunhas da apropriação foi Petrac.


Tudjman e o delirante Milosevic, da Grande Sérvia, livraram-se, pelas mortes, de condenações pela Corte Internacional da ONU: um câncer fatal inviabilizou a extradição de Tudjman, falecido, em dezembro de 1999.


Por meio de fotografias, filmagens, extratos de contas correntes e declarações de entrevistados, o jornalista Puki adquiriu fama ao revelar como o primeiro-ministro de Montenegro fazia contrabando de cigarros Marlboro para toda a Europa.


Os 007 dos Estados integrantes da União Européia suspeitavam da associação do premier motenegrino Milo Djukanovic com a criminalidade organizada e a cobertura que ela dava, pois brecava pedidos de extradições a membros condenados da Cosa Nostra, foragidos e com mandados internacionais de prisão espalhados por todo o planeta. Só que a denúncia, com relação ao premier Djukanovic, partiu do polêmico Puki.


Puki, croata de 47 anos, conseguiu entrevistar, em 2003, o general Ante Gotovina, enquanto ele era, desde 2001, caçado, sem sucesso, pela combativa procuradora Carla Del Ponte, da mencionada Corte Internacional. A tarefa não deve ter sido difícil, pois o seu amigo Petrac era quem dera, por mais de quatro anos, cobertura financeira para Gotovina.


E mais: Gotovina aproveitou a entrevista para declarar que se apresentaria, caso fosse considerado apenas suspeito, e não réu-preso, em processo internacional. Apenas em dezembro de 2005 ocorreu, em Tenerife (Espanha), o encontro e a prisão de Gotovina. Gotovina era o homem da confiança do presidente Tudjman, que o encarregou de comandar a Operação Tempestade, iniciada em 4 de agosto de 1995, de recuperação, expulsão e massacre de civis sérvios, de maioria muçulmana, que ocupavam área proclamada como República Sérvia do Krajina, por Milosevic.


Ante Gotovina, general do massacre da operação Tempestade. Preso em Haia, à disposição da Corte Internacional para a ex-Iuguslávia.


Como explica Carla Del Ponte, no seu livro La Caccia: Io e i criminali di guerra (A Caça: Eu e os criminosos de guerra), no final de 1991, o Exército de Milosevic havia ocupado um terço do território da Croácia e, por acordo e fragilidade militar croata, a área acabou sob proteção dos capacetes-azuis da ONU.


Na quinta-feira 23, final da tarde, Puki deixou, na capital Zagreb, a redação do seu semanário chamado Nacional. Estava com o redator-chefe Niko Franjic. Ao abrir a porta do seu automóvel, na conhecida prática mafiosa sículo-americana que acabou incorporada aos atentados de Beirute, uma bomba detonou e mandou os dois jornalistas para os ares, a causar mortes imediatas.


Mais um crime de máfia, consoante reconheceu o primeiro-ministro croata Ivo Sanader, ex-pupilo e partidário do falecido Franjo Tudjman. Aliás, máfias que tomaram conta de países financeiramente quebrados do Leste, depois da queda do Muro de Berlim.


Duas semanas antes das explosões de Puki, amigo de Petrac que protegia Gotovina, a jovem Ivana Hodak, 26 anos, foi assassinada com dois disparos na cabeça, no centro de Zagreb. Ela era filha do advogado mais famoso da Croácia, Zvonimir Hodak, defensor do ex-general, ex-ministro da Defesa Vladimir Zagorec, inimigo de Petrac.


A Croácia, que tinha dificuldade de ser aceita na União Européia por demorar a entregar à Corte Internacional os seus generais foragidos, conseguiu vencer as barreiras do nacionalismo assassino: cooperou nas capturas. Agora a ameaça é outra, ou seja, terá a Croácia de acabar com a máfia para ser admitida.
Wálter Fanganiello Maierovitch.


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