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DIREITOS HUMANOS: Pio XII, o papa de Hitler ?

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF,26 de outubro de 2008.

Papa Pio XII.

De ROMA. Nesta semana, o Vaticano passou por momentos de agitação e o papa Ratzinger, colocado numa “batina justa” pelo padre Peter Gumpel, no munus de postulador canônico da beatificação de Pio XII, teve de saltar de cima do muro.


Na passagem do 50º. aniversário de morte de Pio XII (9/10/58), no mundo laico registrado como Eugenio Maria Giuseppe Pacelli, o mencionado postulador Gumpel deu uma entrevista a afirmar só depender do papa Bento XVI a assinatura do decreto de beatificação de Pacelli. O momento não poderia ser pior. No antigo ghetto judeu de Roma, numa concorridíssima cerimônia que contou com a participação do neofacista prefeito de Roma, Gianni Alemano, do presidente da Câmara, GIanfranco Fini, também direitista e neofacista partido da Aliança Nacional, e de inúmeras autoridades prontas a esquecer os seus passados e proclamar os erros de Mussolini.


Naquela ocasião, foi lembrado os 65 anos da deportação de italianos judeus para o campo de extermínio de Auschwitz (Polônia): em 18 de outubro de 1943, os judeus, conduzidos pelos soldados da SS nazista embarcaram na estação Tiburtina (Roma) para a shoah, expressão a significar “catástrofe” e utilizada para designar os 6 milhões de judeus deportados e mortos nos campos de concentração nazistas.


O papa durante a Segunda Guerra Mundial, em eleição ocorrida em março de 1939, era Pio XII, que não levantou a voz, não proferiu alocução ou homilia, e nem escreveu texto de protesto contra a deportação de italianos, em razão de racismo. Paceli preferiu o silêncio, que a historiografia não deixou passar.


Para os chamados vaticanistas, jornalistas especializados na análise das questões do Estado do Vaticano e da Santa Sé, o padre Gumpel quis pressionar o papa Ratzinger, que está interessadíssimo, e as diplomacias já acertam os ponteiros, em aceitar o convite para visitar Israel e estabelecer boas-relações, em especial por se tratar de um papa nascido na Alemanha. No particular, Ratzinger sabe que a visita da premier alemã Angela Merkel à Israel foi coroada de êxito e a sua manifestação no parlamento do estado judeu virou compromisso histórico de combate ao nazismo e aceitação das diferenças.


Em face da pressão levada à imprensa por Gumpel, o papa Bento XVI deixou claro que vai colocar o decreto de beatificação de seu antecessor Pacelli na geladeira. Disse o papa Ratzinger “ ser oportuno um tempo maior de aprofundamento e de reflexão”. Dito isto, emendou um direto para cima de Gumpel: -“ diante dessa situação, não é oportuno exercitar pressões”.


Depois da estocada do papa, o padre Gumpel não deixou por menos e partiu para raciocínios canhestros e malintecionados. Lembrou que o papa Ratzinger, no 50º. aniversário de morte de Pacelli, convidou os cristão para que fossem feitas orações para a sua beatificação. E arrematou dizendo que o tempo de reflexão e amadurecimento da questão, referido pelo papa, arrisca de ser longo, senão longuíssimo. Jamais passou pela cabeça de Gumpel que as orações para a beatificação significariam, se atendidas, uma absolvição para Pacelli.


A última fala de Gumpel foi criticada pelo senador vitalício e ex-presidente da república italiana Francesco Cossiga, que atribui ao postulador, estabelecido conforme o direito canônico, um lado antesemita, com outro “um pouco nazista”. De se observar que Cossiga, da ala direitista do antigo partido majoritário da Democracia Cristã, é outro em fase de achar ser possível limpar a biografia. Cossiga era o ministro do Interior quando do seqüestro e morte de Aldo Moro, -- três vezes primeiro-ministro e de centro-esquerda, pelas Brigadas Vermelhas. De Giulio Andreotti, primeiro ministro, e de Cossiga, ministro responsável pela segurança interna, partiu a decisão, no interesse da CIA, de não negociar com as Brigadas Vermelhas a libertação de Moro, que estava ligado ao partido comunistas e ao eurocomunismo.


Tão logo o padre Gumpel começou a pressão, voltaram, pelo planeta, as lembranças do pontificado de Pio XII, cujos reacionários usam a expressão de papa com “ postura neutral” no curso da Segunda Guerra, como se isso fosse moralmente aceitável.


Organizações judaicas lembraram da legenda colocada abaixo da imagem de Pacelli, no museu Yad Vashem de Jerusalem, fundado em 1953 e conhecido como Museu do Holocausto. Da mencionada legenda, colocada no Yad Vashem em 2005, procura-se, em 23 linhas, mostrar a omissão de Pacelli, com ênfase ao fato, que é verdadeiro, dele ter colocado de lado uma carta contrária ao antisemitismo, e o racismo, preparada e aprovada pelo seu antecessor.


No ano de 2007 começou um revisionismo com relação a Pacelli por parte de historiadores, mas, com os arquivos do Vaticano fechados até hoje para consultas laicas, o caminhar é lento e exige, como colocou Ratzinger, um período longo para reflexões.




Ninguém têm dúvida, e existem inúmeros testemunhos de judeus, que eles, especialmente as crianças e idosos, foram recebidos, escondidos e salvos em conventos e instituições católicas na Itália. Quando os nazistas, por 9 meses, ocuparam a Itália, muitos judeus foram salvos por terem recebido a proteção de freiras e padres. A partir desse fato irrefutável, começaram as indagações acerca da postura desses religiosos terem decorrido de uma determinação de Pio XII.


Fatos a pesar negativamente contra Pio XII também são irrefutáveis. Em 1993, quando ainda era secretário de Estado do Vaticano, foi ele o responsável pela costura e a celebração de um documento com o governo alemão, cuja meta era proteger os interesses da Igreja católica naquele país. Tal postura implicou, por evidente, no reconhecimento do regime racista, nazista, da Alemanha hitlerista.


Já na condição de papa, Pacelli efetivamente desconsiderou a carta preparada e que seria assinada pelo seu antecessor, que representava um protesto contra o antisemitismo.


Também silenciou quando informado oficialmente sobre o massacre dos hebreus, no curso da guerra. No episódio da deportação de italianos judeus para o campo de extermínio de Auschwitz, e ele estava no Vaticano e de tudo ficou a saber até porque do aprisionamento à deportação decorreram dois dias, Pacelli não interveio. Nem tocou no assunto em escritos públicos.


No curso do último episodio, com as pressões do padre Gumpel, -- a querer arrancar a assinatura papal no decreto de beatificação--, e do portavoz do governo de Israel, --- a advertir que os olhos não podem ser fechados diante do controverso papel histórico de Pio XII--, o papa Ratzinger teve de assumir posição, que foi bastante clara e prudente.


Prudente foi, também, o posterior pronunciamento do presidente de Israel, Shimon Perez. Para o presidente Perez, a visita de Ratzinger será uma honra para Israel.


No múseo Yad Vashem, a legenda debaixo da imagem de Pacelli não foi tirada, mas, no site, é apresenta uma versão light sobre ele. A propósito, depois do papa Ratzinger e do presidente Perez, coube ao diretor-presidente do museu do Holocausto contemporizar. Para o diretor-presidente Avner Shalev, a questão Pacelli representa um desafio para os que quiserem estudar seriamente, pois trata-se de uma questão complexa. Efetivamente, muito complexa, a ponto de um padre ter provocado uma manifestação do atual papa, que, respondeu com energia, marcou posição e, seguramente, já está a arrumar as malas para viajar para Israel.


Nenhum vaticanista, nesse momento, apostaria na assinatura, por uma papa alemão, da beatificação de um antecessor, sem odor de santo e já chamado de o Papa de Hitler.
Wálter Fanganiello Maierovitch.


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