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CORRUPÇÃO: cartolas e apitos aflitos.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 18 de outubro de 2008.

Luciano Moggi, suspenso administrativamente por 5 anos.

Francesco Saverio Borrelli, em 1992 e em Milão, era o procurador-chefe da famosa Operação Mãos Limpas, de repressão à corrupção na vida política partidária e empresarial italiana. Referida operação, além de Mani Pulite, ficou conhecida por Tangentopoli, que pode ser traduzido como Propinópolis.


Em 2006, Borrelli completou 70 anos de idade. Por força de norma legal, caiu na chamada aposentadoria compulsória. Abro parêntese para informar que, no Brasil, existem projetos de emenda constitucional para alteração do limite de 70 anos, de modo a ocorrer compulsória aposentadoria de juízes apenas aos 75 anos de idade. Para os desinformados, convém frisar que os juízes, próximos aos 70 anos, torcem pela aprovação da emenda.


O direito ao ócio com dignidade para Borrelli durou poucos meses. Voltou a trabalhar com apurações, para a confederação italiana de futebol e num caso especial. É que explodira no início de maio de 2006, às vésperas da Copa do Mundo de Futebol (julho de 2006), o escândalo do Calciopoli, ou seja, de fraude no Campeonato Italiano, com manipulação de resultados, árbitros na gaveta, formação de quadrilha e gigantescos interesses financeiros.

À frente dos suspeitos, como capi dei capi, estava Luciano Moggi (foto acima), diretor-geral da esquadra piemontesa da Juventus, parte do império Fiat, dos Agnelli e do apoiador Luca Cordero di Montezemolo, também presidente da Ferrari e da Masseratti e, à época, da Confederação das Indústrias.


Os procuradores de Justiça Filippo Beatrice e Giuseppe Narducci tinham uma farta quantidade de indicativos a revelar fraudes voltadas a garantir resultados em 29 partidas de futebol, todas manobradas por uma associação de delinqüentes. Beatrice e Narducci realizaram, em dois anos, 70 interceptações telefônicas, seis delas relacionadas a Moggi. Na Série A, segundo os procuradores, 28 resultados de jogos tinham sido manipulados (um deu-se na Série B) e quatro árbitros faziam parte do esquema criminoso, entre eles o conhecidíssimo Massimo de Sanctis, selecionado para apitar o Mundial de 2006 e afastado em face do escândalo.


Borrelli acabou contratado pela federação para administrativamente apurar, com a rapidez necessária, o caso, enquanto, na esfera judicial Beatrice e Narducci já tinham proposto a ação criminal contra 24 acusados. Na lista de réus, a acompanhar Moggi e De Sanctis, estavam o presidente da Lazio, Claudio Lotito, o da Fiorentina, Andrea della Vale, e o da Reggina, Lillo Foti.


A Juventus de Moggi, que ingressara como diretor-geral em 1994, teve cassado o título de campeã italiana, comemorado efusivamente pelos jogadores no campo do Bari. Mais ainda, a Juventus foi rebaixada para a Série B e começaria o campeonato com 9 pontos perdidos. Moggi, um ex-agente ferroviário de modesto salário, demitiu-se da Juventus em 11 de maio de 2006, mas com reservas financeiras suficientes para uma régia aposentadoria. Pela decisão no processo disciplinar, Moggi, por cinco anos, não poderá atuar como dirigente esportivo, ou seja, vai deixar a cartolagem.


No processo administrativo-disciplinar, Borrelli atuou como investigador no tribunal esportivo. A Fiorentina e a Lazio permaneceram na Série A, mas, respectivamente, com 11 e 3 pontos perdidos por punição, no campeonato futuro.


O processo criminal, neste mês de outubro, teve a primeira fase de admissibilidade da acusação vencida. Dos 24 acusados, dois ex-cartolas, antigos presidentes de Confederação e Federação foram excluídos. Os demais responderão por fraude esportiva e formação de associação delinqüencial. Nessa primeira fase, ficaram à disposição as interceptações telefônicas, colhidas pelo Ministério Público, frise-se, durante dois anos só foram tiradas do processo as interceptações dos não acusados, como, por exemplo, o do jogador brasileiro Emerson e que se referia à sua transferência da Roma.


Durante a instrução do processo criminal foram ouvidas 94 testemunhas, inclusive por videoconferência. A segunda e última fase do processo criminal, para debates, está designada para 20 de janeiro de 2009 e na Corte Criminal de Nápoles. Com a corda no pescoço, onze imputados solicitaram prosseguimento por rito abreviado, que admite acordo entre acusação e defesa, e a audiência já está designada para 29 de outubro.


Sobre a segunda fase, disse o advogado de defesa: agora será a verdadeira batalha, a sede natural onde ficará comprovado que os fatos eram completamente desconhecidos de Moggi.
Wálter Fanganiello Maierovitch.


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