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Preso governador, que presidiu a Comissão Antimáfia na Itália.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

IBGF,15 de julho de 2008.

Foto do jornal Corriere della Sera: Ottaviano del Turco, ex sindicalista e ex-presidente da Comissão Parlamentar antimáfia. Governador da região do Abruzzi.


Conheço, há anos, o trabalho do jornalista César Tralli. É daqueles que “fareja” a notícia, consegue enxergar a gravidade dos fatos e sabe avaliar as suas conseqüências.

Não sei de qual região da Itália provém os Tralli. Mas, por acompanhar faz mais de 40 anos o fenômeno da criminalidade organizada mafiosa, sei bem que os jornalistas italianos brigam por um “furo”: parece pequena área, em escanteio de jogo final de campeonato, com estádio lotado.

Querem um exemplo. A minha querida amiga Marcelle Padovani, do francês Nouvelle Observateur, é correspondente na Itália. Foi Marcelle que conseguiu a primeira entrevista do juiz Giovanni Falcone, enquanto ele colocava na cadeia, pela primeira vez na história italiana, os grandes chefões da Cosa Nostra. Da entrevista, saiu o imperdível livro “Cose di Cosa Nostra” (Coisas da Cosa Nostra).

Os jornalistas italianos engoliram e não passaram recibo. E era uma correspondente francesa, Marcelle Padovani, que pegara uma exclusiva entrevista com o siciliano juiz Falcone, dinamitado pela máfia pouco tempo depois.

Por lá, ninguém ousa reclamar em razão de ter sido preterido. Ao contrário do Brasil, quando até o presidente Lula se entromete. Pelo jeito, gostaria de silêncio da imprensa nos casos do mensalão e de Daniel Dantas.

Pois bem. Ontem, houve um furo jornalístico quando da prisão de Ottaviano del Turco, governador da italiana região (estado) do Abruzzo (Itália) e ex-membro da Comissão Parlamentar Antimáfia . Uma fotografia foi tirada, com o governador no banco traseiro do carro da polícia: não dá para ver se estava algemado.

Segundo a acusação apresentada pela magistratura do ministério Público, Del Turco teria embolsado 6 milhões de euros em propinas.

A operação policial não foi espetacular.

Nas próximas horas, o governador, que se encontra custodiado em presídio da sua região, deverá peticionar (habeas-corpus) ao chamado Tribunal da Liberdade, que tem competência para apreciar casos de encarceramentos ilegais ou abusivos. Mais ainda, o Tribunal poderá colocá-lo em prisão domiciliar.

Na Itália, prisão domiciliar é coisa séria. Não se pode conversar nem com o vizinho. Admite-se, apenas, conversas com a esposa e os filhos.

As acusações contra o governador partiram de Vincenzo Angelini, um mega-empresário, que foi aceito como colaborador de Justiça. Em outras palavras, entrou no direito premial, pelas delações. As delações encontraram sustentação em gravações e em prova indiciária farta.

Angelini tinha o hábito de, nos encontros com governadores e políticos, levar e acionar um pequeno gravador escondido no bolso do paletó. Várias conversas que ele teve com o governador Del Turco foram gravadas.

Pelas delações, Angelini contou como eram pagas as propinas. Esclareceu que o dinheiro era transportado em malas. Nenhum caso contou de transporte dentro da cueca ou por aviões.

As malas eram acomodadas num novíssimo e luxuoso Porsche Cayenne. A polícia foi conferir e, numa estrada de Pescara, parou o motorista do Porsche mencionado. Havia uma mala apenas. Dentro dela, 113 milhões de euros.

Ontem, além do governador Del Turco foi preso, pelo mesmo motivo (propinas), o ex-governador Alessandro Pace. Atualmente, Pace é senador pelo partido (centro-direita) do primeiro-ministro Sílvio Berlusconi.

Del Turco era do antigo Partido Socialista do premier Bettino Craxi., apanhado em 1992 pela famosa Operação Mãos Limpas. Craxi fugiu para a Tunísia, onde morreu muitos anos depois. Só reentrou na Itália, num caixão funerário, para ser sepultado na sua terra.

O empresário Pace constrói e é gestor de clínicas médico-sanitárias de luxo. Os melhores cirurgiões, especialistas e clínicos italianos, são contratados pela empresa de Pace, que paga salários dez vezes acima do valor de mercado.

Pace, apesar de colaborador de Justiça, continua preso. Só terá benefícios quando da condenação e o prêmio poderá ser uma redução na pena de privação de liberdade.

--Wálter Fanganiello Maierovitch--


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