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Direitos Humanos. Resgatada Ingrid Bettencourt e FARC em conflito interno

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

IBGF, 2 de julho de 2008.

Ingrid: o primeiro sorriso.


As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) nasceram em 20 de junho de 1964 e o seu primeiro comandante foi Jacob Arenas.


O sucessor de Arenas (morto em razão de um enfarto fulminante em 1990) foi Manuel Marulanda Vélez, apelidado Tirofijo (tiro-certeiro) em razão da boa pontaria.


Desde 1998, quando no governo Pastrana concedeu às Farc uma área desmilitarizada para tentar viabilizar um processo de pacificação, o grande trunfo dessa organização foi a blindagem. Os serviços de inteligência não conseguiam obter informações e, nos povoados e na selva, imperava a lei do silêncio.


Com o processo eleitoral em curso e Álvaro Uribe despontando nas pesquisas como vencedor, as Farc, já rompido o acordo com o presidente Pastrana, seqüestraram a candidata à presidência Ingrid Bettancourt, que era senadora.


Depois de mais de 6 anos de cativeiro (o seqüestro foi em 20/2/2002), acaba de acontecer o resgate (infiltração policial nas fileiras do grupo chamado Farc 1) e a libertação de Ingrid. Foram resgatados, ainda onze pessoas, dentre elas três funcionários do departamento de estado norte-americano (agentes infiltrados de uma das agências de espionagem dos EUA).


Numa radiografia, percebe-se, nitidamente, que as FARC racharam internamente e, por conseqüência, a rígida disciplina acabou quebrada. Idem, a blindagem.


Nesse processo de desmantelamento, acompanhado pelo envelhecimento e pela doença de Marulanda (tinha câncer de próstata), a blindagem foi ruindo e as informações começaram a chegar aos órgãos de inteligência da Colômbia e dos EUA.


Neste ano de 2008, Ivan Rios, o “delfim” (sucessor) de Marulanda, considerado o intelectual e o homem mais brilhante das Farc pelo líder Tirofijo, foi assassinado em março. Seus próprios liderados o mataram, a mostrar a quebra de hierarquia e a indisciplina.


O processo de desfiguração, depois de acordo para libertação de reféns, dentre eles Clara Rojas (secretária de Ingrid e que, quando do seqüestro, fez questão de acompanhá-la), teve seu ponto alto na morte de Manuel Marulanda.


Sobre ela, duas versões. Para as Farc, Marulanda morreu de morte natural, ao lado da companheira e dos mais chegados. Segundo os 007 da Colômbia e dos EUA, ele foi atingido por ocasião de um bombardeamento na selva, realizada pelo exército colombiano.


A verdadeira versão, só será sabida quando se descobrir o local onde o corpo de Marulanda está enterrado, caso não tenha sido cremado e as cinzas levadas pelos ventos da selva.


Com a morte de Marulanda e a escolha de Alfonso Cano para o comando, o racha aumentou. O grupo de apoio a Mono (macaco) Jojoy não aceitou a escolha. Alfonso Cano era considerado um conciliador, ao passo que Jojoy um militarista, contrário à soltura de reféns. Mais, Jojoy queria a volta da guerrilha urbana, ainda que a preço de muitas vidas, pois as policias encontram bem treinadas para reagir.


A essa altura, as Farc já tinham se descaracterizado, trocado a insurgência pelos negócios com o narcotráfico, roubos de gado e extorsões mediantes seqüestros. Tornara-se uma associação delinqüencial, com perda, pela insensibilidade humana, da antiga imagem internacional.


Em dezembro, a carta escrita por Ingrig Bettencourt que chegou as mãos da sua mãe (virou livro, editado também no Brasil), mostrava que estava muito fragilizava, necessidade de cuidados médicos e havia caído em depressão.


Até Hugo Chavez, que sustentava serem as Farc uma organização insurgente e não terrorista, mudou o discurso, ao perceber que não agradava, interna e externamente. Passava a impressão de apoiar desumana e perversa organização criminal.


Com inconciliáveis divergências internas, várias deserções e financeiramente deficitária, a blindagem quebrou de vez. Terminou a lei do silêncio e as informações vazavam.


O grande “coringa” do jogo das Farc foi perdido, ou seja, o resgate de Ingrid Bettancourt representou uma grande derrota. De uma organização que, a cada dia, embrenhava-se mais na selva e sem força para iniciar uma guerrilha urbana, como antigamente: destruía torres de energia, promovia explosões e matava líderes, como, em 1998, o líder da Central Única dos Trabalhadores (CUT).


Com essa derrota, Uribe aumenta o cacife para, por meio do referendo que pretende, mudar a Constituição e chegar a um terceiro mandato presidencial: tem mais de 80% de apoio popular, apesar do escândalo da ligação de políticos da sua base de sustentação com paramilitares traficantes de drogas e já extraditados (para não haver risco de denunciarem Uribe) para os EUA.
PANO RÁPIDO Diante do racha interno, a quebra de hierarquia e a indisciplina, não haverá surpesa se Mono Jojoy montar sua própria organização, tipo Farc do B. Alfonso Cano não vai conseguir conter as deserções e o bandamendo de membros para o lado militarista.
Wálter Fanganiello Maierovitch.


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