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MÁFIA. A Cosa Nostra, há 16 anos, dinamitava o juiz Giovanni Falcone, sua mulher e homens da escolta.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

IBGF, 23 de maio de 2008.

foto de Tony Gentille.



Hoje cedo telefonei para dois amigos magistrados que moram em Palermo, capital da Máfia (Cosa Nostra) e, como lembra o juiz Gaincarlo Caseli, da Antimáfia.

Eles me contaram que a cidade estava enfeitada, pronta para um dia de memória e plena de cartazes a mostrar Giovanni Falcone e Paolo Boselino, juízes dinamitados pela Máfia em 23 de maio e 19 de julho de 1992, ou seja, há dezesseis anos.

Os cartazes foram colocados pela prefeitura e, debaixo de uma célebre foto em que Falcone e Borsellino conversavam, destacava-se a seguinte frase: EROI PER SEMPRE

Como tudo é turbulento na Sicília, espera-se um dia de polêmica, pois, como no Brasil, muitos políticos gostam de faturar nos eventos antimáfia, embora a serviço de mafiosos.

Essa é Palermo das contradições e de comportamentos inexplicáveis: o governador Cuffaro teve de renunciar depois de condenado por favorecer a Máfia. Sua pena foi de 5 anos de reclusão e o processo está em fase de apelação. Menos de dois meses depois da condenação e da renúncia para evitar a cassação, Cuffaro foi eleito senador, pela Sicília. Não bastasse, já avisou que, em breve, será ministro da Agricultura.

A polêmica maior de hoje, começou a ser ensaida na antevéspera, quando o recém-eleito presidente do Senado italiano, Renato Schifani, comunicou que estaria presente à missa celebrada em memória de Falcone.

Quanto a Schifani, ele foi acusado pelo jornalista Marco Travaglio, um nome de respeito no jornalismo investigativo europeu, de manter amizade com mafiosos.

Naquele 23 de maio de 1992, episódio conhecido por Strage di Capaci (Tragédia de Capaci), o juiz siciliano Giovanni Falcone retornava a Palermo para passar o final de semana. Ele estava licenciado da Magistratura e, em Roma, permanecia à disposição do Ministério da Justiça, onde preparava projetos de lei antimáfia.

Ele era o indicado para elaborar um projeto de lei para contrastar o fenômeno mafioso. Isto porque foi o único magistrado que conseguira desvendar a Máfia, sua organização, órgãos de cúpula, chefões, ligações com os políticos e atuação sem limitação de fronteira. Mais, elaborou o chamado “maxi-processo” , que levou à condenação de potentes capi-mafie.

Quando desvendou a organização e identificou os seus líderes, Falcone fazia parte do "pool" de magistrados antimáfia. Esse "pool" tinha sido criado pelo magistrado Rocco Chinnici, fuzilado pela Máfia em julho de 1983, junto com dois carabineiros da escolta e o porteiro do prédio onde morava, atingido pelos disparos das metralhadoras.



Coma morte de Chinnicci, o "pool antimáfia" passou a ser comandado por Antonino Caponetto, que deu toda a força para Falcone ir a fundo nas apurações.

No dia da tragédia de Capaci (nome do local onde ocorreu a explosão), Falcone dirigia um Fiat-Crona. Era um dos dois automóveis da sua escolta. Como tinha paixão por dirigir, o motorista foi para o banco de traseiro e na frente ficaram Falcone e Francesca Morvillo, sua mulher. À frente, estava o outro automóvel, com os homens armados da escolta.

Os petardos atingiram em cheio o Fiat da escolta que estava na frente e de cor azul. Os organizadores do atentado com dinamite não sabiam que na frente seguia a escolta e, no automóvel de trás, Falcone. Só que a distância era curta e o impacto, devido a grande quantidade de dinamite empregada, matou, também, Falcone e a sua mulher Francesca, uma juíza de menores. O único que não morreu foi o motorista do carro de Falcone, que estava no banco de trás, como passageiro.

Falcone morreu às 19,05 hs no hospital “Civico Benfratelli” de Palermo, depois de parada cardíaca e o insucesso dos médicos na tentativa de reanimá-lo. Francesca, sua esposa, morreu no próprio local da explosão.

O telecomando responsável pela explosão foi acionado por Giovanni Brusca, da Colina de Capaci (uma elevação próxima à autoestrada A/29, na cidade de Capaci). A autoestrada ligava o aerporto de Punta Raisa (hoje chamado Falcone-Borsellino) a Palermo.

A cratera aberta com a explosão tinha 3,5 metros de profundidade e 14, 3 metros de diâmetro

. A Cosa Nostra, dirigida pelo sanguinário Totó Riina, conhecido como o “capo dei capi”, mandara colocar 500 kg de dinamite num duto subterraneo destinado ao escoamento de água pluviais. O duto cortava toda a pista da rodovia por onde passaria Falcone e a esposa Francesca Morvillo.

O mafioso Giovanni Brusca, chefe da "famiglia mafiosa" de San Giuseppe de Jato, acionou, à distância, o aparelho detonador (telecomando).

Todos os quatro homens da escolta, que estavam no carro da frente, morreram no local. Francesco Morvillo tinha avisado Falcone que ficaria em Roma e o surpreendeu no aeroporto militar por ter mudado de idéia. --Wálter Fanganiello Maierovitch--


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