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A Tenista e o Papa.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 28 de janeiro de 2008.



A cada dia, a cultura liberal incomoda mais os fundamentalistas, que querem até nas atividades esportivas colocar as suas regras comportamentais.

Na Índia, segundo país mais populoso do mundo, os islâmicos representam 12,4% da população: são 9,4% de sunitas e 3% de xiitas. Entre eles formaram-se núcleos fundamentalistas, cujos maridos e esposas são contrários às liberdades ocidentais.

Sania Mirza, de 21 anos, não usa o xador e com muita competência tornou-se a 31ª tenista no ranking internacional.

Ela é ídolo das crianças num país federado que reconhece 18 línguas, incluídas a oficial que é o hindi, o inglês e a clássica tamil. Mas Mirza, de quando em quando, recebe uma “fatwa” de morte dos fundamentalistas e, também, não sai da alça de mira política dos ultranacionalistas.

Vale lembrar não ocorrer o mesmo com o tenista Prakash Amritraj, conterrâneo de Mirna, e que ocupa o modesto 278º posto do ranking da ATP.

Na sexta-feira 18, Mirza enfrentou a afro-americana Venus Williams, a oitava tenista do mundo. O jogo foi pelo Australian Open. Terminada a partida, Mirza chorou de raiva. Não porque perdeu, mas pela volta das pressões e ameaças.

Com lágrimas e tudo, mostrou fibra de campeã. Como ao correr para a rede e atacar duro, ora com smash, ora com voleio, os adversários obscurantistas e os fascistas. E deu-lhes uma raquetada certeira ao dizer: “Por favor, prestem atenção nos meus golpes e não no meu corpo”.

A frase, num ambiente de boas cabeças, serviria para desconstituir qualquer “fatwa”. Incluída aquela condenatória por usar calção nos jogos e, assim, exibir as pernas para os espectadores.

Além de perder para a magnífica Venus Williams, fato previsível, e enfrentar os fundamentalistas islâmicos com ira igual à dos medievais cruzados cristãos, outro aborrecimento atingiu Mirza.

A tenista-sexy que enfurece os fundamentalistas religiosos quando se apresenta com calção curto e usa blusa incapaz de cobrir o umbigo e o abdome quando se estica nas quadras, logo após o término do jogo com Venus Williams deu, involuntariamente, novo pretexto aos nacionalistas.

A propósito, Mirza sabe bem como os fanáticos atuam na Índia. Já mataram Indira Gandhi e o filho que a sucedeu, Rajiv Gandhi, ambos do denominado Partido do Congresso. A viúva, Sonia Gandhi, de origem italiana, preferiu não enfrentar os fundamentalistas hindus e, ao ouvir os slogans de “fora a estrangeira”, delegou a função de premier para Manmohan Singh, do supracitado Partido do Congresso, fundado em 1950 por Jawaharlal Nehru.

Sem perceber, Mirza, extenuada, descalçou o par de tênis e tirou as meias. Na seqüência, apoiou os pés nus no canto de uma mesa, decorada com bandeirolas festivas dos países participantes.

Um desavisado fotógrafo da agência de notícias AFP enquadrou Mirza com os pés para o alto e os dedos próximos à bandeirola da Índia. Essa foto chegou à Índia e os nacionalistas consideraram infamante a postura da atleta.

Ainda em lágrimas, Mirza pediu desculpas e disse não ter tido qualquer intenção de desprezar a bandeira, em miniatura, da Índia. Para terminar, golpeou: “Deixem-me jogar em paz”.

Outro fundamentalista, de posturas próprias ao medievo, deu uma jogada de marketing e exibiu músculos, no domingo, na Praça de São Pedro e a aproveitar o horário tradicional da recitação do Angelus.

Para ele, não podia ficar barato o non habemus papem dos cartazes empunhados pelos universitários da Sapienza. Juntamente com os docentes, os alunos rebelaram-se contra o convite, feito pelo reitor, para o papa Ratzinger proferir a conferência de abertura do ano acadêmico. E a pressão fez o papa, em cima da hora, renunciar ao convite e apenas enviar o texto da conferência para ser lido.

Mas, em vez de oferecer a outra face como ensinam os evangelhos canônicos, o papa aceitou o movimento de desagravo idealizado pelo cardeal Camillo Ruini, por coincidência vigário-geral para a diocese de Roma.

No domingo 20, mais de 150 mil pessoas compareceram à Praça de São Pedro. Como na Itália o eleitorado católico ainda é numeroso e tem peso, na praça apareceram muitos políticos interessados em votos. Dentre eles, o demissionário ministro da Justiça, Clemente Mastella, acusado de co-autoria em sete crimes. Estava sem a mulher, que cumpria prisão domiciliar por crime de concussão.

Desta vez com um discurso politicamente correto, o papa falou em sociedade tolerante e fraterna. Colheu três minutos de aplausos. Sobre o desagravo, Carlo Bernardini, professor de física, ironizou, em declaração ao Corriere della Sera: “Quando nós, não crentes, conseguiríamos organizar algo do gênero? Não temos um Angelus nem um chefe espiritual. Aliás, que sorte a nossa”.

Walter Fanganiello Maierovitch.


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