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Dia Internacional da Memória.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

IBGF, 27 de janeiro de 2008.



No ano de 2005, em Assembléia Geral, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o 27 de janeiro como “Dia Internacional em memória das vítimas do Holocausto”.

Todo o 27 de janeiro lembro da dona Mirna, minha vizinha no tempo que eu tinha uns 7 anos de idade. Morávamos no bairro do Bom Retiro, na capital de São Paulo. O Bom Retiro era cosmopolita. Lá moravam e conviviam, pacificamente italianos, judeus, gregos, armênios, brasileiros, etc, etc.

Dona Mirna, polonesa como os meus avós paternos, tinha tatuado no braço o seu número de registro no campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia. Entrou meninota no campo de Auscwitz e os nazistas a marcaram com ferro e fogo, para morrer.

Não lembro mais os números, só a tinta azul da marca, a ressaltar na pele clara de dona Mirna. Quando usava blusa de manga-curta, bastavam alguns movimentos para se ver aqueles números em azul. Marcada como o gado das fazendas, em mim arrepiava imaginar a dor da queimadura. Balançava a cabeça, como acabo agora de fazer, instintivamente.

Os nazistas tinham marcado com ferro e fogo dona Mirna, quando da sua chegada, ainda menina, ao campo de extermínio de judeus em Auschwitz, na Polônia.

Dona Mirna, onde estará ? O seu esposo, chamava-se Henrique, soube ter falecido. Eles tinham uma loja, na travessa da rua José Paulino, conhecida, nos anos 60, como a do comércio dos judeus. Seu filho maior, Moacir, regula em idade comigo. O Leonardo, menor, tinha uns cinco anos a menos. Não os vejo e nem tive mais notícias há mais de 40 anos.

Por sorte, dona Mirna não foi executada em câmara de gás, ao contrário dos seus parentes. Quando, em 27 de janeiro de 1945, as tropas aliadas libertaram os presos de Auschwitz, dona Mirna não imaginava que acabaria no Brasil, que amava muito.

Lembro bem dos colegas judeus do colégio Staford, sediado no referido bairro do Bom Retiro. Muitas mães de alunos do Staford tinham o braço com os números de Auschwitz e isso me revoltava, pois minha mãe Lydia, filha de italianos católicos, ensinava que todos eram filhos de Deus. Ela tinha aprendido isso no catecismo do colégio Santa Inês, onde havia estudado e que ficava, também, no Bom Retiro.

Esse colégio de freiras ficava na frente da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo. Foi nas ruas do Bom Retiro que ela conheceu meu pai, prestes a se formar cirurgião dentista. Naquele incrível bairro cosmopolita, com as pessoas da rua e com os sempre tímidos amigos judeus, ouvia sobre os campos de extermínio dos judeus. Apreendi o que tinha sido o Holocausto, derivado da forma grega “olokauston”, a significar originariamente um sacrifício religioso de um animal em agradecimento à divindade. Com as vítimas dos campos de concentração e os massacres a judeus alargou-se o significado da palavras holocausto.

Demorou bem mais para começar a ouvir falar em Shoah . No Bom Retiro os amigos judeus e os seus familiares falavam o iídiche. E o termo Shoah é hebraico, a significar catástrofe, destruição de um povo, de uma etnia.

Melhor colocando, Shoah era o sistema nazista de distruição dos hebreus entre o final dos anos 30 e o 27 de janeiro de 1945. E foram eliminados 6 milhões de judeus.

Voltando. Dona Mirna era a verdadeira Mamma Iídiche, que cercava os filhos de carinho e se matava de trabalhar, naqueles tempos duros do pós guerra.

Este ano, no 27 de janeiro, resolvi orar num canto afastado da minha casa. Para entristecer a alma, coloquei para tocar a música do filme “A Vida é Bela”, a comédia-dramática do genial Roberto Benigni.

-Wálter Fanganiello Maierovitch-


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