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A Lista de Carla, a Peste.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 18 de janeiro de 2007.



Depois de oito anos à frente do comando das investigações e dos processos acusatórios no Tribunal Penal Internacional (TPI), Carla del Ponte chegará a Buenos Aires como embaixadora da Suíça, no dia 3 de fevereiro.

Mulher-símbolo na luta contra os maiores facínoras da humanidade e com sentença de morte decretada em 1989 pela Cosa Nostra, Carla permanecerá no cargo por três anos.

Na bagagem, trará a sua imperdível obra intitulada Carla’s List (ou A Lista de Carla), que acaba de ser lançada nos EUA. A Lista de Carla é um livro-documentário sobre o seu trabalho como procuradora-geral do TPI, sediado em Haia (Holanda). O tribunal das Nações Unidas foi instituído, com 120 votos a favor e 7 contrários, pelo Tratado de Roma, em 18 de julho de 1998.

O TPI tem competência para apurar e julgar os crimes de genocídio, de guerra, contra a humanidade e de agressão internacional. Pela competência, fica claro o motivo pelo qual sete países, dentre eles EUA e China, votaram contra a criação do tribunal e não estão sujeitos à sua jurisdição.

O livro-documentário traz os mais de 200 processos e investigações conduzidos por Carla. Vale recordar que o seu principal acusado foi Slobodan Milosevic, ex-presidente da ex-Iugoslávia e promotor da chamada limpeza étnica nos Bálcãs. Em cárcere na Holanda, decorrente de mandado internacional expedido pelo TPI, o “Carniceiro dos Bálcãs” morreu dois meses antes do fim do seu julgamento.

Ao terminar o mandato, Carla del Ponte saiu atirando do TPI. Apesar de todos os esforços e pressões, incluídas as mais de 20 viagens a Belgrado, ela não conseguiu que o governo da Sérvia prendesse e entregasse ao TPI os genocidas Ratko Mladic, general sérvio, e o líder nacionalista-fascista Radovan Karadzic, mentor da construção da Grande Sérvia. Foragido, ele conseguiu publicar e difundir um livro de poesias.

Nascida na cidade suíça de Lugano em 1947, Carla, na saída do TPI, soltou uma frase indignada: “Belgrado não merece nada”. Por trás da frase está o jogo geopolítico internacional das potências voltado ao apoio ao atual governo sérvio, que luta para se manter nas eleições deste mês de janeiro.

Claro, o atual governo não quer desgostar os extremistas-nacionalistas, que escondem os assassinos Mladic e Karadzic. Por outro lado, a Sérvia tem apoio de vários países europeus para entrar para a União Européia (UE). O desejo de ser aceita na UE e o fato de não querer prender e entregar Mladic e Karadzic tornam o país, num contexto da geoestratégia, frágil nas negociações e pronto a não resistir à independência do atual enclave do Kosovo.

A propósito, na reunião de fim de ano do vértice da UE, os Estados membros, sob a presidência de turno de José Sócrates (primeiro-ministro de Portugal), fecharam questão. Por acordo secreto, mas que já vazou, querem a independência do Kosovo.

Pela estratégia secreta, entre janeiro e fevereiro, o Kosovo proclamará, unilateralmente, a sua independência e, imediatamente, será reconhecido por França, Grã-Bretanha, Alemanha e Itália.

De quebra, no último encontro de 2007, o vértice da UE entendeu que o “Kosovo é uma questão européia”. Por isso, prorrogou a missão de garantia de paz, agora com 1,8 mil soldados. Homens que assegurarão, caso necessário, o uso de força na tramada independência do Kosovo.

Para Carla del Ponte, toda a pressão deveria ser no sentido de o governo da Sérvia prender e entregar ao TPI, para julgamento, os facínoras Mladic e Karadzic. Como deixou claro, Carla preferia a embaixada em Roma do que a de Buenos Aires, mas o atual ministro da Justiça da Confederação Helvética, de um governo direitista recém-eleito, alegou que ficaria muito caro manter a sua reforçada escolta.

No fundo, uma desculpa diplomática para não deixar ecoar a voz de Carla em Roma. Ela já havia acusado o premier italiano, Romano Prodi, de ter se recusado a recebê-la para tratar de pressão sobre a Sérvia: “Prodi me evitou. Durante um ano tentei encontrá-lo, mas sem sucesso. Ele disse que não tinha tempo para me receber. Estava claro que já tinha se acertado com os sérvios”. Há que se observar que Prodi, que já foi comissário europeu, patrocina o ingresso da Sérvia na UE.

Nos anos 80, a Justiça italiana descobriu que os chefões mafiosos apelidaram Carla del Ponte, então juíza de instrução na Confederação Helvética, de Carlita La Peste. E mandaram matá-la.

É que Carlita La Peste, na famosa Operação Pizza Connection, que até virou filme, descobriu que o dinheiro sujo do intenso tráfico de drogas ilícitas entre Itália e EUA, operado pela Máfia siciliana e a Cosa Nostra sículo-americana, era reciclado em bancos suíços. Mandou apreender tudo. Foi um dos maiores desfalques patrimoniais já experimentados pela Cosa Nostra.


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