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DROGAS. Não deu certo. E agora ?

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF. 14 de ano 2008.



Em junho de 1998, aceitei o convite para viajar a Nova York, a fim de acompanhar a XX Assembléia da Organização das Nações Unidas (ONU). Era dedicada ao fenômeno das drogas ilícitas, em face dos aumentos planetários da oferta, do consumo e da toxicodependência.

O slogan escolhido para o encontro não poderia ter sido pior: “Um mundo livre das drogas, poderemos consegui-lo”.

Mais uma vez, a utopia. Ou seja, a possibilidade de um mundo sem usuários de drogas, a fazer tábula rasa do contado, nos séculos VI e V a.C., por Heródoto e Homero.

Naquele 1998, dentro e fora do Palácio de Vidro, sede da ONU, havia muita agitação.

Na sede encontrava-se, por exemplo, o secretário-geral, Kofi Annan, hoje um aposentado dedicado a negociar castelos. Também o então presidente dos EUA, Bill Clinton, agora recém-escalado, em face da derrota nas primárias de Iowa, como cabo eleitoral da mulher traída.

Lembro, ainda, de Carlos Menem, no momento uma espécie de morto civil com risco de nova prisão. Também estavam Fernando Henrique, que continua mentor do agonizante PSDB, e o boliviano Hugo Banzer, falecido com odor de ter servido ao narcotráfico quando ditador. Não faltaram os africanos. Alguns comovidos pelo falecimento, em razão de overdose de heroína, do general e narcoditador nigeriano Sani Abacha.

Fora da sede da ONU, numa espécie de assembléia paralela, para usar um termo de antanho, um respeitado grupo de intelectuais progressistas, um ex-secretário geral da ONU e ativistas políticos, entre eles o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.

A referida assembléia fixara o prazo de dez anos, ou seja, até 2008, para atingir a sua meta. Dispensável concluir que em 2008 não teremos um “mundo livre das drogas” “nem poderemos obtê-lo”. Mais: de 1998 a 2007, a situação agravou-se pela consolidação de narco-Estados e de Estados cúmplices.

Pelo sistema bancário-financeiro internacional, a “indústria das drogas” continua a movimentar, anualmente, cerca de 300 bilhões de dólares.

Nos EUA, onde está o maior consumo, ingressam, anualmente, 275 toneladas de cocaína através do México. E pelo México passa 80% da cocaína destinada ao mercado norte-americano.

Em 2007, as apreensões dessa droga pelas autoridades mexicanas não ultrapassaram 36 toneladas. E desde 2006 os cartéis mexicanos tomaram o lugar dos colombianos na intermediação da oferta de cocaína, heroína e maconha para o mercado consumidor dos EUA.

A fórmula adotada na assembléia de 1998, com fixação de prazo, já era conhecida. Em 1961, a Convenção Única de Nova York da ONU fixara o prazo de 25 anos para a extinção das áreas de cultivo. A Convenção entrou em vigor em 1964 e teve o fracasso comprovado em 1989.

Com efeito, quer em 1961, quer em 1998, adotou-se a política norte-americana da guerra às drogas. Uma linha militarizada que continua nos EUA, no México e, agora, no Rio de Janeiro, sob o governo Sérgio Cabral.

Para o presidente mexicano, Felipe Calderón, por exemplo, a militarização é a única fórmula eficaz de contraste. Diante de uma polícia corrompida pelos cartéis, onde até o general mexicano antidrogas se envolveu e foi condenado, Calderón e o antecessor, Vicente Fox, apelaram para o Exército, sem sucesso.

Nos quase dez anos da Assembléia da ONU e de permeio os fracassados planos Colômbia e Dignidade (na Bolívia), os dados que acabam de ser apresentados no México não deixam dúvidas do caminho equivocado e da necessidade de mudanças nas políticas das Nações Unidas.

Entre 2000 e 2007, o consumo aumentou 50% no México. Nesse período, foram presas 90 mil pessoas ligadas às redes do narcotráfico. Dos chefões dos cartéis, 40 potentes foram encarcerados.

No governo Fox (2000 a 2006), foram assassinadas, por crimes relacionados com o tráfico de drogas, 9 mil pessoas. Já o do recém-empossado Calderón contabiliza 2,8 mil mortos em menos de um ano.

Atualmente, 3,5 milhões de mexicanos já experimentaram drogas proibidas ao menos uma vez: o México tem 104 milhões de habitantes. Mais de 500 mil cidadãos mexicanos utilizam drogas ilícitas habitualmente, com 280 mil dependentes químicos carentes de tratamento.

Apesar da falência do pactuado na assembléia especial e da enganosa estratégia de guerra às drogas, Bush e Calderón, em 2008, continuarão unidos no militarizado Plan México. De preferência, sem lembrar do Plan Mérida, causador de mortes de inocentes e protestos internacionais.

Enquanto não ocorrer um massacre de inocentes, Cabral continuará, no Rio, sua pirotécnica guerra às drogas, de alto risco à população marginalizada. Aquela que, nos morros, fica no meio dos tiroteios.


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