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MAFIA DESGOVERNADA.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 12 novembro de 2007.

Lo Piccolo, na Questura de Palermo.



“Il morto è morto, pensiamo ai vivi”. Das máximas mafiosas, esta sempre foi, em sentido amplo, a mais aplicada casos de abertura de sucessão em postos de mando. Orientou o pós-guerra dos anos 80, quando confrontaram-se os perdedores capi-mafie de Palermo contra os da pequena cidade de Corleone.

Com a prisão, na segunda-feira 5, de Salvatore Lo Piccolo, 65 anos e foragido desde 1983, está vaga a cadeira de premier, ou melhor, de chefe de governo da Cosa Nostra. Um posto com “salário” mensal de 40 mil euros e nenhum conflito de interesse quanto ao desenvolvimento, pela “famiglia” do premier, de atividades ilícitas rentáveis.

Numa organização criminal cuja razão de existir consiste na obtenção de vantagens e lucros patrimoniais, o importante é o prosseguimento dos negócios. Um dos maiores expertos em máfia sicialiana, Francesco La Licata, destacou:-“ La storia della mafia è una storia, in ultima analisi, di soldi” (dinheiro).

A máfia, apesar dos conflitos intestinos, sempre conseguiu lucros surpreendentes, a influenciar no Produto Interno Bruto da Itália.

Segundo dados publicados pela Confesercenti,entidade ligada á potente Confederação das Indústria da Itália, só em 2007, a Cosa Nostra já faturou 90 bilhões de euros, ou seja, o dobro do faturamento da Fiat e dez vezes mais o conseguido pela Telecom. Para a Confesercenti, cujo relatório ficou conhecido como SOS-Impresa, a criminalidade mafiosa, em 2007, vai movimentar o equivalente a 7% do “pil” italiano (prodotto interno lordo).

Portanto, o “business” segue sempre, ainda que morto, exilado ou encarcerado um mafioso de ponta. E um chefão preso sob regime de cárcere-duro (art. 41 bis do Código Penitenciário) perde o assento na “Comissione”, que é o “Conselho de Ministros”, sob regência de um primeiro-ministro (capo dei capi). Vale lembrar que a Cosa Nostra tem formato piramidal, ou seja, conta com um vértice e, na base, soldados (picciotti di mafia).

La Licata, um dos maiores conhecedores da Cosa Nostra siciliana.


Desde que copiou, nos anos 30, a Cosa Nostra sículo-norte-americana, sediada em Nova York, e instituiu um órgão de governo, a máfia siciliana sempre teve alguém para assumir a função de chefe-dos-chefes.

Foragido da polícia e da Justiça desde julho de 1969, o sanguinário corleonese Totó Riina, “capo dei capi”, acabou preso em janeiro de 1993. Ele declarou guerra contra o Estado italiano, soltou bombas em Roma, Milão e Florença e mandou matar policiais, políticos e juízes, dentre eles Giovanni Falcone e Paolo Borselino.

Com a prisão de Riina, assumiu o governo Bernardo Provenzano, foragido desde 1963 e que logrou ser preso apenas em abril de 2006.

Provenzano deixou como herdeiro o supracitado, 65 anos e referenciado com o apelido de “barão”. Foragido desde 1983 e como os demais sem nunca ter tirado os pés da Sicília ou se licenciado da Cosa Nostra, o elegante Lo Piccolo, com seu “Rolex Precision”, acabou, ao ser preso, vítima da tecnologia e da traição.

Num carro alugado no aeroporto por um seu lugar-tenente foi colocado, atrás da placa, um localizador satelital. As delações do mafioso Francesco Francese, preso em agosto com o inseparável “Rolex Daytona”, ajudaram a conhecer seus hábitos e negócios.

Como a sua fotografia policial era muito antiga e o programa de envelhecimento por computador produziu uma imagem diversa da real, os policiais da Esquadra Móvel de Palermo tiveram dúvidas. Mas o filho e guarda-costa Sandro Lo Piccolo, de 32 anos e fotografia conhecido, entregou o pai, sem querer. Quando Salvatore se rendeu, Sandrino saiu a gritar, “Papa ti Amo”.

Salvatore Lo Piccolo, com o filho Sandrino, seu guarda-costa



Lo Piccolo já está em regime de cárcere-duro, em sessão especial de presídio Opera de Milão. No dia seguinte à sua prisão, o procurador nacional antimáfia, Piero Grasso, disse em entrevista que toda a cúpula mafiosa estava presa. Em outras palavras, a Cosa Nostra estava desgovernada.

Para comprovar a afirmação, Grasso mostrou um dos “pizzini” (bilhetinhos) de Provenzano: ele mandava bilhetes cifrados, com o nome substituído por número. Lo Piccolo era o número 30, nos “pizzini”.

No bilhete, Provenzano escrevera que a Comissione (cúpula) era composta por ele, Nino Rotolo e Lo Piccolo. E o último dos foragidos era Lo Piccolo. Além do procurador Grasso, também La Licata admite que a Cosa Nostra está sem órgão de governo.

La Licata aponta, no entanto, para vários hipóteses a respeito dessa situação mafiosa de “sede-vacante”. Os chefes regionais poderão se interessar em manter a máfia sem cúpula, livrando-se do jugo superior e dos ônus.

Lo Piccolo, como capo tinha uma autonomia sempre invejada pelos capi-mandamenti (regionais). Por exemplo, ele mantinha a maior Casa de Bingo da Sicília (Bingo Lãs vegas) e usava a jogatina eletrônica para lavar dinheiro do tráfico de drogas: o mesmo ocorreu no Brasil com os bingos.

Por outro lado, o rival de Lo Piccolo, o sanguinário Mateo Messina Denaro, de Trapani e foragido desde 1983, poderá tentar assumir o posto, mas sempre enfrentou resistência dos capo-famiglie, em especial em Brancaccio, uma espécie de Bronx palermitano.

Para La Licatta, o ex-capo Lo Piccolo estabeleceu sólidos vínculos e “negócios” com tráfico de drogas, com mafiosos que foram “deportados” pela máfia e vivem nos EUA. Lo Piccolo começou a carreira mafiosa ao lado dos parlamitanos (Bontade, Buscetta, Riccobono, do qual era guarda-costa). Perdida a guerra, passou para os corleoneses (Riina e Provenzano).

Na condição de herdeiro do capo Provenzado, que depois da prisão de Riina fez a máfia submergir e tentou pacificar as “famiglie”, Lo Piccolo teve tarefa especial. Ou seja, retomar contato com os mafiosos “deportados”.

A chamada “deportação dos perdedores” ocorreu no governo Riina. E sobre isso, La Licata contou a Carta Capital: -“Existe uma geração de Inzerillo (famiglia Inzerillo) que realizaram casamentos cruzados com as “famiglie” americanas dos Gambino e Spatola. Eles esperam retornar à máfia siciliana para reconquistar espaços. Sãos os sobreviventes da matança ordenada por Totó Riina, ou seja, aqueles salvos depois de prometerem obediência aos corleoneses em exílio nos EUA, com obrigação de nunca mais pisarem na Sicília”.

De todo esse quadro, a prisão de Lo Piccolo serviu para demonstrar o sucesso dos trabalhos, na esfera não governamental, de significativas mudanças culturais. Os jovens, como demonstraram na prisão de Provenzano ocorrida em abril de 2006, são contra a máfia e a favor das liberdades públicas.

Lo Piccolo, por coincidência, foi preso no dia reservado à memória das vítimas da máfia. Centenas de jovens, na porta da chefatura de polícia de Palermo vaiaram o mafioso e gritaram “A Cidade é Nossa, abaixo a Máfia”.

Por parte do ministério Público, esteve na coordenação da operação de prisão de Lo Piccolo, seu filho e comparsas, o magistrado Alfredo Morvillo. Ele era irmão de Francesca, esposa de Falcone e com ele dinamitada pela máfia.


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