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O MAGO DAS TELEVENDAS é brasileiro

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

Para muitos, o brasileiro Mário Pacheco do Nascimento é um verdadeiro mago. Num passe de mágica, sumiu do mapa. Na Europa, Mário ficou conhecido como “Mago Do Nascimento”, residente na medieval Torre de Candelo, localizada na região do Piemonte, e para bruxo nenhum botar defeito.

O mago e a apresentadora Wanna Marchi, acusada de co-autoria nos estelionatos.


Nessa torre medieval, “Do Nascimento” deve ter encontrado o anel da fábula de Giges, mencionado na obra de Platão. Ao colocar o anel, Giges tornava-se invisível e, assim, aproveitou para matar o rei, seduzir a rainha e ocupar o trono.

Como Giges, o brasileiro ficou invisível. Nem a Interpol consegue prendê-lo, para passar quatro anos em cadeia do Primeiro Mundo, por associação para a prática de estelionatos.

Num canal privado da televisão italiana e no horário vespertino, o mago brasileiro dividia a tela e os crimes com a popularíssima Wanna Marchi (foto ao lado), um tipo “coroa perua”, altamente especializada em televendas.

No fim deste mês, Wanna será julgada por societas criminis constituída para a prática de estelionatos (truffa), via televendas. Na hipótese da sua condenação, já se sabe que a União Européia, preocupada com idosos, donas de casa e aposentados, vai recomendar regras éticas mínimas para as televendas.

Em menos de cinco anos, Wanna, Do Nascimento e aliados faturaram cerca de 33 milhões de euros. Por baixo, ludibriaram mais de 305 mil incautos telespectadores, que, como regra, ficaram envergonhados e se calaram.

Bens do Mago apreendidos no Porto de Gênova, pouco antes do embarque para Salvador (Bahía)


Apoiado por uma central operada por 45 telefonistas, o bando vendia ilusões, como ganhar na loteria, tirar os filhos das drogas, curar câncer, afastar mau-olhado etc. Mediante um preço fixo, Mago Do Nascimento enviava pelo correio uma cartela com os números que deveriam ser marcados nas apostas da Lotto.

No caso de reclamação, vinha o segundo engodo. A secretária do mago informava que a “cliente” estava “carregada” de maus fluidos e deveria, para a sorte voltar, submeter-se a um ritual de purificação a distância, mediante pagamento. Caso não topasse, recebia telefonemas com imprecações, tipo morte de filhos, ruína financeira da família e chegada de doenças incuráveis.

Wanna chorou na audiência de interrogatório e continua a afirmar que nunca enganou nem recebeu uma só moeda. Ela transfere a culpa para as telefonistas, que montaram um serviço paralelo para as fraudes, tudo sob comando da maga Dafne. Evidentemente, não a Dafne que figura ao lado de Apolo na célebre escultura de Gian Lorenzo Bernini, exposta na Palazzina Borghese.

Para a acusação, no centro da fraude está a sociedade Asciè, gerenciada por Stefania Nobile, filha de Wanna e incapaz de se sensibilizar com tragédias.

A postura violenta do bando levou a vítima Fosca Maron a pedir auxílio à polícia. Certa vez, ela recebeu um telefonema de Mago Do Nascimento, que só conhecia pela televisão. O mago contou tê-la visto em sonho e ganhando na loteria. Para revelar os números, pedia o equivalente a 300 mil de velhas liras italianas.

Fosca topou, não ganhou e o sonho virou pesadelo. O mago atribuiu a má sorte a um influsso negativo e pediu 4 milhões de liras para tirar essa carga de Fosca. Diante da recusa, o mago começou a praguejar por meio de ligações telefônicas, todas gravadas pela vítima.

O conteúdo dessas gravações foi revelado no programa televisivo Striscia la Notizia, de grande audiência nacional. A denúncia encorajou poucas vítimas. Dentre elas, uma senhora residente em Milão, cujo filho virou alvo das maldições do bando, que exigia o valor correspondente a 35 milhões de velhas liras.

Na audiência do fim deste mês serão ouvidas mais de 30 vítimas de vários cantos da Itália, que não se conheciam quando foram consumados os estelionatos. Para a Guarda das Finanças, polícia fiscal italiana, Mago Do Nascimento usou nome falso para fugir e, pelos indícios, estaria hoje na Bahia.

A dupla oferecia números que seriam sorteados pela loteria, produtos exotéricos, etc,etc.


Antes de desaparecer, Do Nascimento encheu um contêiner, apreendido no porto de Gênova, que se destinava a Salvador. O contêiner guardava valiosos tapetes orientais, vasos chineses, quadros e alfaias das suas duas casas e da Torre de Candelo, já confiscados.

Cada vítima habilitada no processo criminal como parte civil deverá receber 15 mil euros, conforme estabelecido em sentença. Por azar das vítimas, o mago conseguiu zerar uma conta corrente na Suíça.

No momento, a Justiça italiana tenta, por rogatórias, convencer as autoridades da República de San Marino a bloquear as contas que o mago manteria em sociedade offshore.

A propósito, nenhuma delas leva o malufiano nome de Blu Diamont ou Red Ruby. Mas essa é uma outra preciosa história de dificuldades na cooperação internacional.


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