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OS CORRIDOS da família Garotinho. Pablo Escobar vive

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

O“corrido” latino-americano é um gênero musical histórico narrativo, épico-lírico. Por retratar realidades perversas, caiu no gosto das populações pobres das grandes cidades do continente americano.

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As gravações e as vendas clandestinas de CDs baratos fazem a alegria dos camelôs. Também contentam os imigrantes dos guetos hispânicos dos EUA e os moradores das periferias colombianas, mexicanas e caribenhas. Os grupos musicais que cantam os “corridos” têm nomes peculiares: Los Renegados, Coyote, Tigres.

Apelidado no Brasil de “proibidão”, o “corrido” virou caso de polícia no governo da família Garotinho. Nesta semana, 13 cantores que se apresentam em bailes funk cariocas acabaram indiciados em inquérito policial por apologia do crime. De quebra, os policiais da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática tiraram do ar um site que permitia baixar o “proibidão” e fotos dos cantores em shows.

No particular, os policiais estaduais não levaram em conta os escritos do professor Fabio Amaya, docente de literatura hispano-americana em universidades européias. Num dos seus artigos, o professor Amaya frisou: “O fenômeno do corrido é o mais importante dos últimos tempos. Ele é ignorado pela cultura oficial em razão do seu conteúdo objetivamente subversivo”.

A livre manifestação do pensamento é um dos direitos fundamentais assegurados em todas as constituições de países civilizados. A restrição vem com a vaga fórmula da violação dos “bons costumes”, que vira, como frisou o consagrado jurista italiano Piero Calamandrei, sinônimo de moral corrente. Para a polícia do governo do Rio de Janeiro, todo “proibidão” viola os bons costumes por enaltecer, louvar crimes e criminosos.

Um “proibidão” em que a polícia carioca procura identificar o compositor e enquadrá-lo por apologia do crime centra no Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro (Bope): É tiro pra caralho em cima dos otários/ Aqui o Bope treme e não tem mole pra PM/ O bagulho é só trintão/ Comando Vermelho, Favela do Lixão/ A chapa esquentou/ A sociedade não tá dando condições pra viver/ Pro trabalhador, um bom trabalho a receber/ A verdade é que pobre sempre é discriminado no trabalho e na favela/ Sempre é esculachado/ Eu não agüento mais essa onda de judiaria/ Agora eu vou botar a bala pra cantar.

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Como regra, as letras do “corrido-proibidão” reportam-se a fatos marcantes e personagens da comunidade, presos ou soltos, vivos ou mortos. Muitas vezes, o enaltecido é destaque na mídia policial ou bandido populista, que fornece assistência social no lugar do Estado.

O “corrido” não interessa às grandes gravadoras. Portanto, um “corrido-proibidão” está fora do Grammy, considerado o Oscar da música.

Na Colômbia, o grupo Furia Norteña apresenta um “narcocorrido” de sucesso. A música começa com sons a imitar disparos de metralhadoras e termina numa invocação a Deus. Para que Deus mantenha na sua glória el rey de los Capos, ou seja, Pablo Escobar Gaviria, o fundador e operador do Cartel de Medellín. No “proibidão” carioca intitulado Lula Liberô, o traficante Beira-Mar manda avisar via rádio.

Ao contrário da polícia do governo da família Garotinho, que considera o “proibidão” apologia de crime, as autoridades colombianas entendem o “corrido” como folclorístico. Mais ainda, fingem não lhes dizer respeito, embora não deixem de ouvir musicada uma das frases mais famosas de Escobar: “Eu não sou o problema. Quando eu morrer, tudo prosseguirá igual, como sempre”.

Por outro lado, não se deve esquecer que Escobar é protagonista de uma megaprodução cinematográfica de Antonio Banderas, baseada na biografia romanceada e pró War on Drugs, do escritor Mark Bowden. Além disso, muitos documentários e livros foram produzidos e regularmente vendidos: Os Arquivos Secretos de Pablo Escobar, O Cidadão Pablo Escobar etc.

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Para a população campesina, Escobar é um mito que precisa ser cantado nos “corridos”: abriu 3 milhões de postos de trabalho, ocupou o 14º lugar entre os mais ricos do mundo e dividiu a fortuna com os pobres. Comprou casas para os moradores de rua de Medellín e entregou uma dezena de campos de futebol para os jovens. Um de seus projetos sociais foi encampado pelo então prefeito populista Álvaro Uribe, hoje presidente da Colômbia.

Para os colombianos, não vai demorar a aparecer um “corrido” a contar que a mãe de Escobar dona Hermilda, e o filho, Juan Pablo, herdaram uma fortuna e trocaram a pobre Medellín por um aristocrático bairro argentino em Buenos Aires. E basta falar em Escobar para o pool de advogados de dona Hermilda cobrar direitos autorais.


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