São Paulo,  
Busca:   

 

 

Cultura

 

HUIZINGA e o apito ladrão.

OLHO.

Todo ser humano joga, nem todos com correção. Muitos acreditam no golpe perfeito ou apostam na impunidade.

MATÉRIA.



"No jogo existe algo em jogo." A frase é do historiador holandês Johan Huizinga, autor do clássico Homo Ludens, publicado em 1944 e chamado por Ortega Y Gasset de “o egrégio livro”.

A frase de Huizinga caiu na predileção dos Euricos Mirandas do futebol brasileiro. Também do árbitro Edílson Pereira de Carvalho, preso há pouco e candidato a arrependido, em troca da redução de penas.

Na Holanda, onde nasceu Huizinga, os dirigentes do Ajax conduziram a frase para fora das quatro linhas. De Amsterdã para o mundo, inauguraram no futebol a operação esquenta-esfria, usada na compra e venda de futebolistas, com transferências de numerários para o caixa 2, no início dos anos 90.

Os cartolas holandeses do Ajax optaram por uma formação laranja mecânica, no campo da fraude esportiva. Os laranjas eram os futebolistas comprados ou vendidos por valores fictícios, independentemente da arte de cada um. A mecânica apagou das pranchetas velhas formações, tipos 4-3-3 ou 4-2-4. No lugar, entrou o “esquema” 171-288, ou seja, prática de estelionato e formação de quadrilha ou bando. Lógico, as vítimas foram os torcedores, o Fisco e os compradores das ações do Ajax, falsamente valorizadas nas bolsas de valores.

A fraude no Ajax consistiu em lançar nos seus balanços financeiros somas bem mais elevadas das realmente disponibilizadas e em omitir o registro de parte das receitas conseguidas na venda dos futebolistas.

Para Huizinga, o jogo faz parte da natureza humana. Todo ser humano joga, mas nem todos com correção. Muitos acreditam no golpe ilícito perfeito ou apostam na impunidade.

Ao destacar que no jogo há alguma coisa “em jogo”, Huizinga não se referiu à fraude esportiva. Quis destacar o lado do jogo capaz de excitar, fascinar e tensionar, ou seja, no jogo “está em jogo a incerteza quanto ao resultado”.

Às vezes, o que está em jogo se repete. Por exemplo, o árbitro brasileiro Edílson Pereira de Carvalho repetiu o sucedido na República Tcheca, em 2004. A propósito, colheu igual resultado: cadeia. Na República Tcheca, árbitros e dirigentes acreditaram que o apito, independentemente dos craques da bola, poderia decidir o jogo e, assim, render dinheiro sujo.

Em Portugal, ainda no ano passado, a ex-diretora da Polícia Judiciária de Lisboa, Maria José Morgado, denunciou, no futebol profissional, “tabelinhas” entre políticos e empresários da construção civil: “Os políticos adquirem popularidade com o futebol e recursos financeiros para as suas campanhas. Quanto aos empresários, são escolhidos, sem concorrência pública, para as construções de estádios e centros esportivos”.

Pelo que colocou, o futebol português virou um business offshore. Segundo Maria José Morgado, as ilegalidades ficam acobertadas pelo status de utilidade pública conferido aos clubes de futebol, que se beneficiam até com incentivos fiscais.

No denunciado esquema lusitano, os chefes municipais (comunais) cedem terrenos para os clubes construírem complexos esportivos. Esses clubes, por seu turno, estão ligados a grupos de construtoras, que projetam e executam as obras. Tudo sem licitação, pois os clubes são pessoas jurídicas privadas. E as construtoras envolvem-se na corrupção político-partidária, pagando “mensalões”.

Na Itália, 12 clubes estão sendo investigados no chamado escândalo calcioscommesse (futebol-aposta). Quatro deles integram a Série A. Nesse escândalo está envolvida a Camorra. Como no caso do árbitro brasileiro Edílson Pereira de Carvalho, interceptações telefônicas realizadas pela polícia italiana revelaram a presença de associações delinqüenciais voltadas à fraude esportiva no futebol.

Os magistrados italianos do Ministério Público identificaram os acertadores das apostas no Totocalcio (loteria esportiva) e já separaram os que efetivamente foram bafejados pela sorte. Aqueles enganados e que não acertaram no Totocalcio, esperam os resultados dos processos criminais. Isso para a promoção de ações voltadas a recuperar o valor apostado, mais indenização pela fraude esportiva.

Ajax: mega fraude no futebol.


No ciclismo, a Guardia di Finanza colocou sob suspeita o Giro d’Italia de 2004. O balanço apresentado pela Federação de Ciclismo (Federciclismo) é falso. Fora isso, alguns atletas, para alcançar bons resultados, foram dopados com a perigosa eritropoietina (Epo). Um dos casos envolve a ciclista Giuliana Salce, namorada de Maurizio Camerini, organizador do Giro d’Italia e diretor da Federciclismo.

Huizinga não abortou a vertente criminal e deixou puros e preciosos ensinamentos: “As ações arquetípicas encontradas na sociedade humana são todas marcadas pelo jogo”. Citou o exemplo da linguagem e ressaltou que por trás de uma expressão abstrata está uma metáfora escondida, e toda a metáfora é um jogo de palavras.


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet