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CADÊ os Lansky brasileiros?

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

No Brasil, apenas as marionetes do crime organizado são reveladas. Nunca aparecem os cordões de sustentação e as mãos de manobra dessas marionetes parasitas que se locupletam indevidamente. Assim, nos nossos cenários são identificados apenas os personagens das laranjadas: Delúbio, Valério, Jefferson, Duda, Lalau, Buratti, Beira-Mar etc.

Lansky: o gênio das finanças.


Mayer Lansky ocupou o Ministério da Fazenda da potente máfia americana, conhecida por Cosa Nostra, de origem ítalo-hebréia. Isso ocorreu no verão de 1931 e quando em plena vigência da denominada Lei Seca, de proibição da comercialização e consumo de bebidas alcoólicas.

Mestre em assuntos financeiros e estrategista de bastidores, Lansky idealizou para a máfia um novo sistema organizacional que, nos nossos dias, recebe o nome de Governança Corporativa.

Lansky colocou a sua privilegiada inteligência a serviço do crime organizado. Nascido em 1902 durante um pogrom em Grodno, na Polônia, fugiu menino para Nova York e foi morar num paupérrimo gueto de judeus e italianos. Seu bar mitzvah criminal deu-se, por acaso, quando caminhava pela neve na Hester Street, sozinho, pensativo, com frio e fome. Ao deixar o devaneio, percebeu que estava cercado por uma gangue juvenil, armada com faca, soco-inglês e taco de beisebol.

O chefe dessa gangue era conhecido nas ruas por Charles Luciano, natural da Sicília, batizado Salvatore Luccania e, quando famoso capo da máfia, Lucky Luciano. Da boca de Luciano saiu o aviso a Lansky: “Se queres salvar a pele, ebreuzzo, deve nos entregar 10 centavos de dólar toda semana”. O mirrado Lansky cerrou os punhos e berrou: “Vaffanculo”.

Naquele momento nasceu a mais sólida aliança criminal e fraterna amizade entre Mayer Lansky e Luciano, cinco anos mais velho em idade. Coube a Lansky, ainda, administrar o patrimônio de Luciano, colocado entre os cem homens mais ricos do século XX e ex-morador da suíte presidencial no último andar do suntuoso e famoso hotel Waldorf-Astoria. Segundo voz corrente nos anos 20, o Waldorf-Astoria era um pensionato cinco-estrelas de mafiosos.

Quando Luciano se encontrava preso e condenado à pena de prisão perpétua, Lansky serviu de intermediário num histórico acordo: de um lado, e pelo Exército americano, o coronel Charles Poletti. Do outro, a máfia representada por Lucky Luciano. Resultado: desembarque tranqüilo das tropas aliadas na Sicília, em julho de 1943, libertando-a do fascismo. Para Luciano, o prêmio do fim da cadeia e expulsão para a Itália, onde se radicou em Nápoles.

Lansky: governaça corporativa na Cosa Nostra.


Com o título de cérebro financeiro de uma máfia republicana, Lansky morreu de fulminante ataque cardíaco, aos 81 anos, em 1983. Deixou US$ 400 milhões em contas correntes abertas em bancos americanos, suíços e em paraísos fiscais.

No tempo da Lei Seca (Volstead Act, 1920), Lansky organizou a rede do rum, comprando essa bebida nos centros produtores da Jamaica, República Dominicana, Aruba, Curaçao e Barbados. Em New Orleans, o rum era engarrafado e distribuído.

Lansky explorava cassinos em Las Vegas e mantinha para clientes uma lavanderia de dinheiro em paraísos fiscais. Em Cuba, possuía cassinos e pagava “mensalão” para o ditador Fulgencio Batista. Com Fidel Castro no poder, Lansky encerrou os negócios na Ilha. Passou a investir pesadamente na Ásia e na América do Sul (Argentina, Venezuela e Bolívia).

Durante sua carreira criminal, Lansky apaziguou mafiosos italianos e hebreus. Até a cozinha iídiche caiu na predileção dos chefões das cinco primeiras famiglie vitoriosas na guerra de Castellamare. Uma guerra vencida por Salvatore Maranzano, em abril de 1931, contra a ditadura de Joe Masseria, que se proclamava capo di tutti i capi. As cinco famílias eram chefiadas por Lucky Luciano, Alberto Anastasia, Tommy Lucchese, Joseph Profaci e Joseph Bonanno.

O mafioso Maranzano tinha fugido da perseguição de Mussolini à máfia, em 1927. Pela astúcia de Lansky e Luciano, Masseria foi fuzilado. Só que o sucessor Maranzano também virou ditador.

Cúpula: três italianos e três hebreus fundaram a Cosa Nostra.


Não foi difícil Luciano eliminá-lo, com a estratégia de Lansky e as delações de Anastasia, lugar-tenente de Maranzano. Daí, e para acabar com a ditadura dos chefões, criou-se o governo corporativo, com o nome Cosa Nostra. Esse colegiado republicano mafioso reunia três italianos e três hebreus: Lucky Luciano, Alberto Anastasia, Frank Costello, Lepkeleh, Ben Siegel e Mayer Lansky.

Como se percebe, o Brasil é um país muito diferente. Na sua história de corrupções e criminalidade organizada só aparecem peixes pequenos. A propósito, Louis Buchalter, que fez fortuna na Cosa Nostra, era chamado pela mãe judia de Lepkeleh, que em iídiche significa Luisinho. O nosso deputado Luizinho é diferente, pois teve acrescido o apelido: “Professor Mensalinho”.


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