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Cinema: el Patron em vez do Padrino

Por IBGF/WFM

Para reaquecer um filão que ameaçou morrer com Mario Puzzo, o narcotraficante Pablo Escobar Gaviria, falecido em dezembro de 1993, desponta como o novo ícone da cinematografia – um nome importante na geoestratégia para o tema da criminalidade de stampo mafioso.

O fantasma de Escobar ainda ronda o planeta, a distribuir cocaína, corromper autoridades, participar da política partidária e, evidentemente, lavar dinheiro em grandes e seguras instituições bancárias, com agências onshore e em paraísos fiscais.

Em outras palavras, os padrini da Cosa Nostra de Nova York, da Máfia siciliana, da Camorra napolitana, da ‘Ndrangheta calabresa e da pugliese Sacra Corona Unità estão sendo desbancados pelo carismático Escobar, apelidado de El Patron e fundador do Cartel de Medellín.

Por conseqüência, deixam a cena Al Pacino, Marlon Brando e outros tradicionais intérpretes da malavita. No lugar, entram Antonio Banderas e Javier Bardem, o primeiro no papel de policial caçador e o segundo no de Escobar, uma caça, na sua época, à altura de Osama bin Laden pós 11 de setembro de 2001.

Em Killing Pablo, Banderas fará um policial. Já Bardem deve protagonizar Escobar
Os cineastas Joe Carnahan, californiano, e Andrzej Sekula, polonês, colocam temporariamente no banco de reservas o magistral Francis Ford Coppola, produtor dos três filmes da série O Poderoso Chefão (na Itália, Il Padrino).

Além da trilogia de O Poderoso Chefão foram elaborados filmes excepcionais -– com menor sucesso de bilheteria -– para mostrar o fenômeno da criminalidade organizada e a sua capacidade de destruir os Estados democráticos.

Com a autoridade de cineasta de primeira linha na abordagem do tema, Giuseppe Ferrara alertou: “A máfia é um polvo que procura esmagar a democracia, por isso a exploro como um tema ligado à preservação da cidadania. É necessário, ao lado de ações didáticas, tratar o fenômeno ao nível de comunicação de massa, de modo que os espectadores entendam a sua gravidade”.

Ferrara elaborou obras notáveis a respeito da criminalidade de stampo mafioso. Por exemplo, Il Sasso in Bocca (A Pedra na Boca, 1971), Cento Giorni a Palermo (Cem Dias em Palermo, 1984), Il Caso Moro (1986), Narcos (1992), Giovanni Falcone (1993), Segreto di Stato (1994) e I Banchieri di Dio (Os Banqueiros de Deus, 2002).

O interesse pelo tema, no entanto, começou a decair a partir de 2001. Dizem que as pessoas, para assistir cenas de violência e perceber o controle dos bairros pela criminalidade, não mais precisavam ir ao cinema, bastava abrir a janela de casa.

Na verdade, não é bem assim. E as obras-primas da cinematografia ajudam a perceber uma dimensão planetária, que da janela não se alcança. A respeito, merecem lembrança: Salvatore Giuliano(de Francesco Rossi, 1961), A Onorata Società (Riccardo Pazzaglia, 1961), O Dia da Coruja (Damiano Damiani, 1967), O Camorrista (Giuseppe Tornatore, 1986), Os Intocáveis (Brian De Palma, 1987), Johny Stecchino (Roberto Benigni, 1991), A Escolta (Ricky Tognazzi, 1993), O Tio do Brooklyn (Daniele Ciprì e Franco Maresco, 1996), Tano da Morire (Roberta Torre, 1997), Os Cem Passos (Marco Tullio Giordana, 2000), Plácido Rizzotto (Pasquale Scimeca, 2000), Luna Rossa (Antonio Capuano, 2001), Ângela (Roberta Torre, 2002).

As razões da esfriada na produção foram diagnosticadas pelo cineasta Pasquale Scimeca. Segundo ele, uma das causas derivou de um acordo tácito entre os produtores e a mídia. Assim, só prosperam os temas aptos a gerar audiência: “Não creio numa censura declarada. Creio apenas que a censura seja o efeito de um clima político, isto é, fica melhor não falar dessas coisas criminais desagradáveis, apesar de o silêncio atender apenas aos interesses mafiosos”.

Como é a grana que sempre conta, abriu-se uma trilha para a televisão. Ou seja, produções leves e bem-humoradas, de preferência com a ridicularização dos personagens e dos costumes mafiosos. Apareceu, dessa maneira, a série Os Sopranos, talvez inspirada na fórmula de sucesso do filme O Mafioso, estrelado pelo saudoso Alberto Sordi, em 1962.

Apesar do nome, o filme não tratou de máfia, mas de um personagem caricato e a interpretação de Sordi garantiu o sucesso.

A mirar apenas nos bolsos, foram preparados enlatados de conteúdos horrorosos. Basta lembrar Dois Mafiosos contra Goldfinger e Os Dois Mafiosos do FBI.

Mas o tempo de trevas a respeito do tema máfia está chegando ao fim, não só graças às ousadias de Escobar. Na sexta-feira 6, o jornal italiano La Reppublica anunciou o lançamento de um livro preparado por um pesquisador inglês sobre a história da máfia. O tema do livro vai virar filme e o cineasta Walter Salles teria sido contratado para a sua produção, segundo o La Reppublica.

O investimento forte será mesmo em cima da memória de Escobar. A respeito, estão em preparação dois filmes de longa-metragem, uma peça teatral e três documentários. O primeiro documentário será exibido no sábado 14, nos EUA e na Colômbia. Seu título: Os Arquivos Pessoais de Pablo Escobar. A produção é da colombiana Centaurus Filmes. E a família de Escobar forneceu cerca de 600 horas de vídeo e gravações inéditas deixadas pelo traficante, além de fotografias sobre sua vida privada, jamais exibidas.

Os dois filmes de longa-metragem já têm até títulos: Killing Pablo e Escobar. Na co-produção de Killing Pablo, com custo estimado em US$ 50 milhões, entrou a empresa cinematográfica de Antonio Banderas. Além da co-produção, Banderas protagonizará o “mocinho”, ou melhor, o policial incorruptível e compulsivo no cumprimento do dever.

Quanto ao custo do filme Escobar este será de US$ 20 milhões e o papel de Bardem ainda não está definido, pois a filmagem só terá início em janeiro de 2005. A peça teatral foi escrita pelo jornalista Ramon Jimeno, com o título Pablo, Era Você? Ela vai contar as últimas 24 horas de vida de Escobar e suas reflexões de como conseguiu tornar-se o maior narcotraficante do planeta.

Fala-se que a peça poderá evoluir para uma opereta e, aí, entrarão palcos da Times Square. Segundo Jimeno, “a imagem de Pablo Escobar é muito atraente artisticamente porque é o personagem que melhor retrata o impacto do narcotráfico na Colômbia e para os colombianos desfavorecidos ele sempre foi visto como um bandido social, embora alguns não gostem dessa colocação”.

A imagem de Robin Hood é apropriada, pois, para a população pobre da Colômbia, efetivamente, Escobar morreu em odor de santidade. Faleceu de pistola em punho, a enfrentar os soldados do Bloque Búsqueda, treinados e apoiados por dezenas de agentes da Drug Enforcement Agency (DEA).

Além disso, Escobar abriu mais de 3 milhões de postos de trabalho, com o “negócio da cocaína” e, todos sabem, fez crescer o PIB colombiano, a ponto de o país ter desprezado o Fundo Monetário Internacional (FMI). Nos fins de semana, ocorre uma verdadeira romaria ao túmulo de Escobar, que, por ironia do destino, começou a carreira de delinqüente furtando lápides de mármore de sepulturas.

Em resumo, nos filmes e nos documentários, Escobar será o mammasantissima das telas. Os coadjuvantes serão os membros dos cartéis de Medellín, Cali, do Vale Norte e de Leticia. Por ora, continuarão no “freezer” das produtoras as histórias das tradicionais famiglie Luciano, Bonanno, Genovese, Lucchese, Colombo, Gambino, Bontate, Badalamenti.

Pela primeira vez, um chefão latino-americano vai escantear os padrini do Primeiro Mundo, tipo Lucky Luciano, John Gotti, Joe Bananas, Al Capone, Totó Riina, Tommaso Busceta, Bernardo Provenzano.


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