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A luta de Zoya

Por IBGF/WFM

O escritor polonês Joseph Conrad Korzeniowski deixou um alerta. Está na sua consagrada obra O Coração da Treva, elaborada por volta de 1915: “Tudo o que se pode esperar da vida é algum conhecimento de si próprio, que, muitas vezes, acaba chegando tarde demais”.
Para a afegã Zoya, esse autoconhecimento veio cedo. Valeu para derrubar barreiras psicológicas e dar vazão aos seus ideais de liberdade e de defesa dos direitos humanos.
Ela morava em Cabul quando seu país foi invadido pelo Exército russo, em 1979. No curso da longa ocupação, os cooptados arapongas do serviço secreto afegão assassinaram os seus genitores, por subversão política. Depois da expulsão dos russos e do deslocamento dos mujaheddin para o norte, veio o domínio dos talebans. Aí, Zoya conheceu duas outras formas de autoritarismo, ou seja, o integrismo e o fundamentalismo islâmicos.
No Afeganistão, o integrismo submeteu o social e o político ao religioso. E os talebans assumiram o papel dos senhores da guerra, do tráfico de ópio e do terrorismo internacional.
O fundamentalismo no Afeganistão tornou-se sinônimo de fanatismo. O rigor interpretativo dos livros sagrados causou a intolerância e a exclusão. As mulheres foram discriminadas ferozmente. Obrigadas ao silêncio e ao uso da burka. Nem as mãos poderiam ficar expostas. Por ordem dos talebans do mulá Omar, telas pretas passaram a cobrir externamente as janelas. Uma maneira de impedir a visão do ambiente interno e evitar tentações. Contou Zoya ter o proprietário de uma casa, onde chegou a residir, colocado, junto à tela escura da janela, uma cortina bem colorida: “Era o jeito encontrado para conservar um pouco de cor, ao menos internamente”.

Em razão da morte dos pais, Zoya mudou-se para a casa da avó, nos confins com o Paquistão. E esta ensinou-lhe as histórias antigas e as tradições culturais. Comentava, também, as conversas ouvidas nos campos de refugiados e as novidades em Kandahar, Jalalabad, Cabul, etc.
Pelas mãos da avó, Zoya ingressou na clandestina Associação Revolucionária das Mulheres Afegãs (Rawa), fundada em 1977. Uma associação proscrita pelos talebans, mas de luta em defesa de direitos negados às mulheres. Notabilizou-se a Rawa pela solidariedade e pelas denúncias de atrocidades perpetradas contra as mulheres.
As mulheres da Rawa usavam a burka com finalidade diversa da oficial. Essa vestimenta servia para evitar a identificação, quando empenhadas em ações humanitárias. As afegãs ligadas à Rawa sobreviveram aos talebans pela tenacidade, coragem e muita paciência na busca da igualdade. Para confundir as milícias do Taleban, além da burka, adotavam pseudônimos repetidos. Eram inúmeras as Sorayas, Ameenas, Zebas, Hamedas e Abidas, vestidas em burkas de iguais modelo e cor.

Zoya também era um nome falso. Talvez a repetição do utilizado pela avó na mesma Rawa. Certa vez, Zoya rumou para confortar uma menina estuprada por um graduado chefe taleban. Quando soube da presença de uma representante da Rawa, a vítima desabafou: “Vocês dizem lutar pela democracia e pelos direitos da mulher, mas o método usado é equivocado. Deveriam me dar uma arma de fogo. Só uma arma me serve”.
No caminho de volta, Zoya observou que os talebans raptavam as mulheres, cometiam estupros e as escravizavam por um tempo. Depois de desfrutá-las, promoviam suas vendas aos soldados. Na verdade, concluiu Zoya, professavam um credo perverso e praticavam uma moral ambígua: “Os talebans achavam que podiam violentar as mulheres e obrigá-las a casar, mas as matavam a pedradas, quando suspeitavam de adultério ou prática de coito com estranhos e fora do casamento”.
A Rawa conseguiu, logo depois do trágico ataque terrorista ao World Trade Center, mandar Zoya para a Itália. Ela tinha a incumbência de recolher donativos e chamar a atenção para a violação de direitos fundamentais das afegãs. Em Roma, Zoya foi descoberta pela jornalista Rita Cristofari, que divulgou a luta da Rawa na mídia italiana.
Passado um ano, os jornalistas Rita Cristofari e John Follain publicaram um emocionante livro: Zoya’s Story. A edição italiana é da Sperling&Kupfer.
No livro, Bin Laden e o mulá Omar são circunstantes. Os personagens principais são os excluídos de sempre, com suas desgraças e desesperanças. E esses anônimos permitiram a Zoya combater as vilezas humanas. Qual será o seu verdadeiro nome?


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