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NOS CINEMAS: BOM DIA, NOITE.- TRATA DO SEQUESTRO HISTÓRICO DE ALDO MORO (foto): sobrevivem os mistérios e as suspeitas.

Por WFM-CARTACAPITAL

REVISTA CARTA CAPITAL

04 de Maio de 2005 - Ano XI - Número 340.

BOM DIA, NOITE.

Moro: foto do cativeiro e símbolo das Brigadas Vermelhas


Premiado filme de Marco Bellocchio, Buongiorno, Notte, começa a ser exibido nos cinemas de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, graças ao esforço do Grupo Estação. O grupo abre espaços alternativos, ou seja, exibe nas suas salas filmes importantes e polêmicos que não atraem o interesse comercial das grandes distribuidoras.

Produzido em 2003, o filme de Bellocchio guarda indiscutível atualidade. Trata do ainda misterioso seqüestro do estadista italiano Aldo Moro (16/3/78), morto pelas Brigadas Vermelhas-BR (9/5/78).

Atualmente, o seqüestro de pessoas tornou-se a principal fonte de arrecadação financeira e de pressão política dos grupos insurgentes. Para se ter idéia, em 2004, esses seqüestros renderam às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) mais de US$ 37 milhões. Mais ainda, seqüestrada em 2002 enquanto fazia campanha para tentar se eleger presidente da Colômbia, Ingrid Betancourt, ex-senadora e também de nacionalidade francesa, continua usada como trunfo político.

Moro: fim da tragédia de muitos culpados


Depois da aliança com os EUA para a invasão do Iraque, o governo italiano do premier Silvio Berlusconi experimentou continuadas derrotas e acumulou desprestígio diante de extorsões mediante seqüestro de cidadãos italianos, como se o fantasma de Aldo Moro ainda rondasse os gabinetes do Palazzo Chigi, sede da presidência do Conselho de Ministros.

A jornalista Giuliana Sgrena, do il manifesto, acabou seqüestrada no Iraque (4/2/2005) e o serviço secreto italiano pagou o preço do resgate (4/3/2005). Próximo à base aérea controlada pelos EUA, o automóvel que transportava Sgrena foi metralhado por soldados norte-americanos, naquilo que se convencionou chamar de “fogo-amigo”. Num ato heróico, o agente Nicola Calipari colocou-se como escudo e morreu no lugar da jornalista.

Essa tragédia resultou do sabujismo de Berlusconi a Bush. Anteriormente, o premier havia descurado de três concidadãos seqüestrados, que trabalhavam no Iraque como “seguranças” dos novos “senhores do petróleo”. O atraso em iniciar negociações causou a execução de Fabrizio Quattrocchi e muita comoção.

No lapso entre as mortes de Quattrocchi e Calipari, o governo italiano, graças ao próprio Calipari, acertou a libertação das irmãs italianas Simona Pari e Simona Torretta, ambas seqüestradas no Iraque, quando prestavam assistência humanitária às vítimas da invasão.

Moro: presidente do artido da Democracia Cristã.


Os insurgentes precisam obter recursos com rapidez. Na Colômbia, as Farc gastam US$ 35,65 milhões com armas, uniformes e alimentos. E, sobre a urgência na arrecadação, preocupa o seqüestro no Iraque, em janeiro deste ano, do engenheiro brasileiro João José de Vasconcellos Júnior, que prestava serviços para a Odebrecht.

Com efeito, chega em bom momento a iniciativa do Grupo Estação. O seqüestro de Moro, então de 62 anos e presidente do partido da Democracia Cristã, continua nebuloso, a envolver suspeitas que recaem em interesses de políticos de prestígio, partidos, máfia, serviços secretos (Itália e CIA), segredos da Otan, eversão voltada à luta de classes e instalação da ditadura do proletariado.

Moro foi seqüestrado quando se dirigia ao Parlamento. Lá seria votada uma moção de confiança ao quarto governo do premier Andreotti, que, como se soube no fim de 2004, por definitiva decisão da Justiça, se manteve associado à máfia até a primavera de 1980.

Na Via Fani, em Roma, deu-se o ataque brigadista e a morte de cinco agentes da escolta. Moro ficou 55 dias em cativeiro. O seu corpo acabou abandonado no porta-malas de um automóvel, estacionado, simbolicamente, a meio caminho entre as sedes dos partidos da Democracia Cristã (DC) e Comunista Italiano (PCI).

Moro:corpo encontrado entre as sedes dos partidos politicos.


Moro estava a costurar uma tentativa de aliança com o PCI, que pregava um Estado democrático e se afastava da linha soviética.

O governo Andreotti negou-se a negociar com as Brigadas Vermelhas. E as BR desejavam um informal reconhecimento político do movimento e a soltura de brigadistas, em processo que tramitava em Turim. Até o papa Paulo VI intercedeu em favor de Moro. Os socialistas, comandados por Bettino Craxi (condenado nos anos 90 pela Operação Mãos Limpas, morreu foragido na Tunísia), apoiavam as negociações com as BR.

Moro escreveu mais de 80 cartas no cativeiro romano da Via Monte Nevoso e as mais importantes desapareceram. O jornalista Mino Pecorelli e o general Dalla Chiesa, que teriam recebido algumas das cartas, foram assassinados em 1979 e 1980, respectivamente.

A viúva e os filhos de Moro protestaram e não compareceram aos funerais. Acharam que o governo Andreotti, rival na DC, não fizera o necessário para evitar a morte de Moro. Ou não teria sido conivente?

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