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Cultura

 

O Trópico da Coca e as raízes nativas

Por WFM-CARTACAPITAL

Chapare-Bolívia.

Hora do almoço dos “becarios” e professores do curso itinerante de especialização, promovido pela Escuela de Periodismo Auténtico de Narco News, dirigida pelo jornalista norte-americano Alberto Giordano.

Prato do dia: peixe surubim, mandioca e favas. Não faltam cerveja e suco de laranjada, saído de espremedores manuais “made in Brazil”. O refeitório é a céu-aberto e funciona dentro de um parque ecológico amazônico, próximo da Vila Tunari do Chapare. Isso tudo sob o calor e a umidade do Trópico de Cochabamba, também conhecido por Trópico da Coca.

Numa das mesas e rodeados de jornalistas do curso, ocorreu o reencontro de dois velhos conhecidos: Sílvia Natália Rivera e José Mirtenbaum. Enquanto aguardavam a refeição, colocavam o papo em dia e mascavam folha de coca: “pijar hoja de coca”, como dizem os bolivianos.

À distância e para um desavisado, poderia parecer que Sílvia e José mascavam chiclete e mantinham uma bola de bilhar nas bochechas. Nada disso, no canto da boca os nativos armazenam folhas de coca, trituradas com os dentes e misturada a um pouco de cinza, para tirar o amargor da seiva. Resultado para os curiosos estrangeiros que mastigaram a hoja de coca: boca, língua e garganta semi-anestesiadas. Pô, o surubim vai ficar sem gosto, reclamou um jovem jornalista brasileiro.

Sílvia apresentava-se elegante, do alto dos seus 54 anos e poucos cabelos grisalhos: - “Já sou avó, meninada”. Sempre usa chapéu, xale de cores vivas, saia longa e tranças longas, igual a todas as mulheres do seu povo aymara. José é um boliviano de 56 anos e descendência polonesa. Barba aparada, veste jeans e camiseta de algodão, como quando fugiu da ditadura boliviana e se exilou em Nova York. Aproveitou esse período de saída forçada para tirar o seu Phd e ensinar em Universidades gringas.

Para os demais comensais, Sílvia e Jose repetiam, com a insistência de professores convictos: - “Coca não é cocaína”. Os aymaras, ghechwa, guaranis, sabem disso desde o nascimento. Esses povos indígenas mascam a folha de coca, que é considerada sagrada. Não é para menos, o extrado da folha mascada é estimulante. O efeito é psicoativo, semelhante ao provocado pelo café e pela Coca-cola.

Muita gente “mama” mais um litro de Coca-cola e mal sabe da história. E que história!!! O italiano Angelo Mariani colocou no comércio um vinho contendo extrato de coca, em 1863. Faturou horrores até 1885. Aí, um tal Johm S.Pemberton desbancou-lhe com o French Wine Cola. No ano seguinte, esse “french wine cola” mudou o nome para Coca-Cola. No rótulo estava escriro: Coca-cola, ideal tonic and nerve stimulant.

Sílvia ressalta, ainda, que mascar folha de coca não prejudica a saúde. Dos quatorze alcalóides, avisa, tem um que ajuda na absorção das proteínas e das vitaminas. Isso explica porque os nativos, explorados pelos espanhóis, conseguiam trabalhar muito, comendo o quase nada oferecido. Sobreviveram em razão de a coca ensejar o aproveitamento dos nutrientes presentes nos parcos alimentos. Daí, vinha a força para trabalhar nas minas dos exploradores espanhóis, ditos “colonizadores”.

Um becário pergunta: Quanto masca um nativo por dia, professora Sílvia?

-Você é de qual jornal? Ou qual o jornal lhe deu a bolsa para o curso? Escreve aí: de 25 a 75 gramas por dia. Isso sempre recordo aos meus alunos de sociologia da Universidad Andina Simon Bolívar, no Equador, e da Universidad Mayor de San Andrés, em La Paz. Regularmente, Sílvia ministra cursos em Madri, Nova York, Washington e Houston.

Tem outra coisa, destaca Sílvia. Os nativos e os campesinos bolivianos, chamados de cocaleros e já organizados em sindicatos, não fazem uso do cloridrato ou do sulfato de cocaína. Sabem que a maceração de folhas de coca e a adição de químicos, -tipo éter e acetona-, fazem mal à saúde: Nenhum precursor químico é produzido na Bolívia. Além disso, a Bolívia não tem indústria química nem para fabricar a cabeça de um palito de fósforo, arremata.

Em reforço à fala da socióloga aymara, José explica que o hábito de mascar folha de coca radicou-se entre os povos andinos em torno do ano 3000 aC. A “indústria da cocaína” instalou-se na ditadura Hugo Banzer e o Kissinger sabia disso. O rei da borracha, Roberto Soarez, virou soberano da cocaína. Ele usava na produção e estocagem as suas fábricas em Guajara-mirim, na fronteira com o Brasil. Os homens da confiança de Roberto Soares trabalhavam e assessoravam o ditador Banzer.

É interessante refletir num dado, destaca José: - “Os nativos mastigam a coca quando caminham solitários ou se reúnem com amigos. Ficam mais atentos e planejam o seu trabalho. O cérebro trabalha mais rápido e o raciocínio é estimulado. Nas reuniões, a conversa é sempre proveitosa. Não se joga conversa fora. Os norte-americanos proíbem a mastigação da coca, mas enchem a cara de bebidas álcool nos bares. Borrachos (embriagados) pelo álcool, não dizem coisa-com-coisa. Nada lembram no dia seguinte”.

Gargalhada geral. Um brasileiro aumenta a graça: no meu país costuma-se dizer que “ o . . . de bêbado não tem dono.

Um pouco sem jeito, Sílvia retoma a conversa. Na Convenção da ONU de 1961, os norte-americanos conseguiram colocar, --na mesma tabela de drogas proibidas--, a coca e a cocaína. Por isso, estão aqui na Bolívia. Já construíram até base-militar. Será que no Chapare tem petróleo?

Ao tempo da ditadura, a embaixada norte-americana elaborou projeto de lei, que virou a 1008, de 1988. Perceba o seu absurdo, num caso já ocorrido por aqui e imagine igual lei vigorando nos EUA: “- Um pacote de sulfato de cocaína foi encontrado num ônibus cheio de passageiros. Fazia a linha Chapare-Cochabamba. Todos os viajantes foram presos. O juiz não aceitou a acusação genérica e o “fiscal” (ministério público) recorreu. Por isso, todos permaneceram no cárcere. Depois veio a absolvição de muitos réus, por sentença do juiz. Nenhum absolvido foi solto. Esperou-se a Corte Superior de Justiça reexaminar o caso. Isso demorou cerca de cinco anos.

Pela lei boliviana, só se pode plantar coca no Yungas de La Paz, e não mais que 12 mil hectares. No Chapare, o plantio é ilegal e temos cerca de 6 mil hectares ilegais de cultivo.

A proibição não leva em conta o uso tradicional. E o governo e a embaixada norte-americana dão dinheiro até para os fiscais (membros do ministério público antidrogas) perseguirem os cocaleros. Não percebem que folha de coca não é cocaína, volta a dizer Sílvia.

Pausa, chega o peixe-surumim. Veio frito. Antes da primeira garfada, Sílvia fala que o Plan Dignidad de cultivos substitutivos, com dinheiro da ONU e EUA, era uma espécie de Plan Colômbia, feito para os bolivianos.

Para rematar a refeição, chá de coca. É só sacar da caixinha com 60 saquinhos, vendidos em qualquer supermercado boliviano.


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