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JORNALISMO INVESTIGATIVO: Câmera escondida oculta a ética

Por EVERTON CONSTANT

Na década de 90, nos Estados Unidos, elas faziam o maior sucesso. Tanto pela novidade quanto pelos bons resultados de audiência e, algumas vezes, prestígio.

As chamadas micro-câmeras, famosas em filmes de espionagens, estavam agora disponíveis e acessíveis as redes de televisão norte-americanas.

Assim, se tornaram um valioso instrumento na captação de imagem e som nas reportagens investigativas.

O problema se deu quando as emissoras passaram por cima da própria lei para denunciar um possível ato criminoso. O tipo de coisa que o Tio Sam não costuma fazer vista grossa, principalmente, quando o assunto envolve vultuosas quantias em dinheiro.

Uma publicação jornalística, por questão de sobrevivência, busca sempre um equilibro entre a vendagem e a linha editorial a que se propõe.

Para isso, conta com o auxílio de pesquisas. Mas o jornalista acostumado a rotina da redação sabe que é no frigir do dia a dia, do ensaio e erro é que se desenha a pauta da próxima edição.

Só que na televisão tudo se dá mais rápido. Até a resposta do telespectador as reportagens. É possível saber exatamente, pelo menos no ponto de vista numérico, a reação a uma reportagem no momento em que ela está no ar.

Isso por que existe nas redações uma maquininha, amaldiçoada por muitos, que oferece a estatística imediata da audiência.

Com auxilio desses medidores, as micro-câmeras viraram sensação nas redações de tevê. Sempre ocultas das mais diversas formas. Chapéu, bolsa, óculos, caneta. Resultado: as reportagens de denúncias, feitas com essas câmeras, pipocavam nos telejornais e programas semanais norte-americanos amealhando sempre boa audiência.

A onda só perdeu seu ímpeto quando grandes e poderosas corporações começaram a ser denunciadas, como grandes redes de fast food.

Diante de uma acusação, flagrada pela câmera escondida, a empresa dizia desconhecer a prática irregular e culpava o funcionário que, invariavelmente, perdia o emprego. Mas, lamentavelmente, esse é um tipo de sentimento de culpa que não se vê em muitos repórteres, principalmente, quando o seu próprio emprego está em jogo.

O problema se materializou, de fato, quando as redações de televisão foram processadas.

As grandes organizações, vítimas da ação implacável das câmeras escondidas, questionaram na Justiça o fato dos repórteres entrarem de forma ilegal em suas instalações.

Alegavam crimes de invasão de propriedade e falsa identidade. Muitas vezes, para terem acesso ao interior dos prédios, os repórteres mentiam sobre a sua identidade.

Alguns até forjavam papeladas para poderem ser contratados como empregados.

A Justiça norte-americana foi tão implacável quanto os melhores flagrantes feitos pelas câmeras escondidas.

Indenizações milionárias caíram como bombas nas redações e a ordem para recuar foi imediata. Reportagens com câmera oculta passaram a ser realizadas com autorização das empresas ou dentro dos procedimentos legais. Aí acabou a graça.

Mas não a brincadeira que passou a ser exercida de forma mais responsável e, evidentemente, em número bem menor.

Tudo isso acabou tendo repercussão no Brasil. Em algumas emissoras o apelo ético foi imediato. A noção de que um crime não pode justificar outro calou forte e virou argumento, principalmente, para se prevenir de processos judiciais.

Mas algumas emissoras adotaram um procedimento que se mostrou eficiente para garantir a prática da câmera escondida, ainda que antiético. As gravações passaram a ter como alvo grupos que por questões legais ou incapacidade de toda sorte, como falta de instrução, não costumam levar para a Justiça as suas querelas.

Infelizmente, todo o questionamento ético que envolve o uso da câmera escondida acabou varrido para debaixo do tapete


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