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Mentira das Urnas-livro de Maurício Dias

Por Carlos Jurandir

Nas eleições, o dinheiro é o argumento mais forte

O fato de que o dinheiro é o personagem principal do processo eleitoral no Brasil já foi denunciado, há quase um século, por, entre outros, Machado de Assis e Lima Barreto.

Aos dois maiores escritores brasileiros junta-se agora o repórter Maurício Dias, 57 anos, que acaba de lançar o livro Mentira das Urnas, mostrando a relação mais que direta entre a quantidade de dinheiro empenhado e soma de votos conquistados por candidatos a cargos eletivos de todos os níveis, no Brasil, em todos os tempos.

Segundo Maurício, no último pleito, em 2002, o PT conseguiu eleger o atual presidente da República porque tinha mais recursos financeiros que seu principal adversário, do PSDB. A contribuição da prefeitura de São Paulo, garante, foi decisiva para a vitória.

No processo eleitoral brasileiro, de um modo geral – conta -, a maior parte dos recursos vem da máquina estatal, nos três níveis – federal, estadual e municipal.

Da iniciativa privada, através do caixa 2, fora os expedientes indiretos.

Todos os partidos sempre entraram no jogo, inclusive os de esquerda, afirma o pesquisador. Ele garante que não desapareceu ainda a prática da fraude primária, aquela apontada por Lima e Machado, mas hoje a influência do poder econômico sofisticou-se . “Com a melhora da legislação”, diz Maurício, “a presença do dinheiro ficou ainda mais evidente. A prevalência do poder financeiro no processo eleitoral representa hoje o calcanhar de Aquiles da democracia.

Todo mundo sabe disso, mas é preciso que se faça uma avaliação completa do impacto econômico no resultado das eleições. O voto deixou de ser um fato político para se tornar um fato econômico”.

SOFISTICAÇÃO

Maurício Dias, com muitos anos de experiência como repórter político em algumas das principais publicações do país, trabalhou um ano no livro, consultando registros e mais de 50 livros, mas considera fundamental a reprodução do episódio contado por Lima Barreto em seu romance Isaias Caminha. Empenhado em arranjar emprego para o sobrinho recém-chegado, o tio foi procurar o “coronel” do curral eleitoral em pleno Rio de Janeiro. Como alguém achou que o político pudesse colocar dificuldades, o coronel lembrou: “Pode ficar tranqüilo. Já levantamos muito defunto pra votar nele”.

Na zona eleitoral, o rapaz se espantou: “Mas todo mundo tem a mesma letra!” O coronel: “Tiveram o mesmo professor de caligrafia”.

O autor diz que seu livro não é um trabalho de denúncia, mas “uma análise política do processo de falsificação da vontade do eleitor, que jamais teve liberdade espiritual para escolher”.

A imprensa tem representado importante papel na denúncia do peso do poder econômico no resultado das urnas – acrescenta-, especialmente o uso do caixa 2, mas jamais apontou, por exemplo, que a eleição para senador ano passado custou cerca de R$ 800 milhões e que a renúncia fiscal que viabilizou os programas eleitorais “gratuitos” – chegou a R$ 174 milhões. “O programa é gratuito, mas a população paga”, diz o jornalista.

- A televisão encarece as eleições – argumenta o autor -, os programas têm alto custo, o que estimula as velhas práticas. Que não diferem muito das denunciadas pelo repórter José Vieira, em 1910, a propósito do pleito do ano anterior. Por exemplo, até hoje não há comunicação de óbitos na justiça eleitoral. É a porta aberta para a fraude.

Maurício Dias começou em 1969 na Tribuna da Imprensa, indo três anos depois como repórter político para a revista Veja. Hoje correspondente no Rio da Carta Capital, passou por várias redações, como as de Senhor, Jornal do Brasil e O Globo.

Na literatura, teve uma experiência com o roteiro do filme Jango, de Sílvio Tendler. O livro atual começou de uma parceria com o pesquisador Alberto Almeida, da Fundação Getúlio Vargas, com o qual iniciou um trabalho sobre as eleições de 2002.

Mentira das Urnas, Maurício Dias, Editora Record, 190 páginas, R$ 28,90.

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