São Paulo,  
Busca:   

 

 

Cultura

 

Livro: História da Máfia-Das Origens aos Nossos Dias

Por IBGF/WFM

HISTÓRIA DA MÁFIA-Das Origens aos Nossos Dias

Editora Unesp

autor:SALVATORE LUPO

traduçãoÁlvaro Lorencini

Há dez anos, os italianos experimentaram sofrimento semelhante ao suportado pelos norte-americanos, depois dos atentados terroristas às Torres Gêmeas de Nova York, em 11 de setembro do ano passado.

O terrorismo mafioso conseguiu eliminar com explosões de dinamites, em maio e julho de 1992, os magistrados Giovanni Falcone e Paolo Borsellino. Também os oito policias encarregados da escolta de ambos.

Os ataques foram ordenados pelo então chefão Totó Riina, apelidado de La Belva. Uma besta-fera, --de insensibilidade comparável ao fanático Bin Laden--, e que estava foragido desde de julho de 1969.

Riina foi capturado em 15 de janeiro de 1993. Encontra-se em cárcere de disciplina dura e seu posto de capi-dei-capi é ocupado por Bernardo Provenzano, foragido há mais de trinta e oito anos, sem sair da Sicília.

Depois das matanças de 1992, os italianos perceberam que a criminalidade organizada ao modelo mafioso, como lembrado pelos especialistas Fabio Anibaldi e Francesco Silvestri, não era um fato distante, folclorístico, ou uma invenção de algum filme americano. Constituía-se num mal concreto, que destruía os alicerces das regras da convivência civilizada.

O procurador-geral Antonino Caponnetto, dominado pela dor da perda dos magistrados pertencentes ao pool-antimáfia que havia instituído, desabafou: - "Ora tutto è perduto".

Lembrou-se de um passado bem próximo, onde a máfia havia assassinado, pelos mesmo motivos, seus antecessores Cesare Terranova e Rocco Chinici. Também o general Carlo Alberto Dalla Chiesa e Ninni Cassarà, chefes da polícia de repressão à máfia. Pela primeira vez, caiu morta uma policial, Emanuela Loi, da escolta de escolta de Borsellino.

Do ataque de 23 de maio, ocorrido na auto-estrada de ligação do aeroporto nacional à cidade de Palermo, altura de Capaci, apenas sobreviveu um motorista da escolta e acompanhava Falcone a esposa Francesca Morvillo, juíza de menores em Roma.

Ninguém sobrou das explosões verificadas na palermitana via D´Amelio, onde morava a mãe que Borsellino iria visitar.

Os dois magistrados mortos simbolizavam a continuação de uma luta de contraste ao fenômeno secular representado pela criminalidade organizada. Eram mandatários da esperança da sociedade civil, desejosa do rompimento de vínculos entre a máfia e importantes dirigentes de partidos políticos, alguns deles encarapitados no poder desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Com efeito. Numa cuidada tradução de Álvaro Lorencini, a Editora Unesp acabou de lançar a História da Máfia- Das origens aos nossos dias. Uma obra do respeitado historiador Salvatore Lupo, lançada na Itália em 1993, pela Donzelli Casa Editrice.

A consagrada obra chegou, no Brasil, num bom momento, além de servir para recordar as tragédias de 1992. É que o Brasil ainda considera organizações criminosas detentoras de controle social e de território como meras quadrilhas e bandos.

Os últimos acontecimentos do Rio de Janeiro, por si só, já recomendariam a leitura da obra de Lupo. Necessária para o conhecimento de um fenômeno que ultrapassou fronteiras. Inspirou a norte-americana La Cosa Nostra, os Cartéis Colombianos, as Tríades Chinesas e a japonesa Yakuza.

Esse tipo complexo de associação delinqüencial exigiu, na Itália, a edição de adequadas medidas legais de contraste, nascidas a partir do projeto do deputado comunista Pio La Torre, em 1982. Em represália à transformação do projeto La Torre em lei (art.416,bis, do C.Penal), a máfia executou o deputado a tiros.

Do nosso lado, o governo do presidente FHC preferiu continuar com quadrilhas e bandos. Sob inspiração da sociologia criminal do século XIX, iniciada pelo italiano Enrico Ferri, o presidente FHC acabou anunciando um ineficiente Plano Nacional de Segurança Pública, há pouco mais de dois anos.

Na obra lançada pela Editora Unesp, Lupo abordou com percuciência temas relevantes. Começou pelas diversas concepções do termo máfia, não faltando lembrança às conclusões do grande etnólogo europeu Giuseppe Pitrè, nascido na Sicília.

Analisou, ainda, conceitos e situações relativas à cunhada máfia-empresa, colocação que ainda gera dissenso entre Pino Arlacchi e Umberto Santini, dois dos maiores expertos em criminalidade organizada.

O seu lado de historiador levou a interssante incursão na antiga questão da máfia como um ordenamento jurídico, nascida ao tempo do fascismo e desenvolvida pelo constitucionalista Santi Romano. O autor analisou e distinguiu a velha e da nova máfia. Vários outros assuntos foram abordados, como por exemplo os vínculos entre máfia e política. A obra finda com as reações da antimáfia e o legado deixado pelo juiz Falcone.

Na seqüência desse seu capolavoro sobre a História da Máfia, Lupo publicou outros estudos. Em 1995 e pela mesma editora Donzelli, produziu análise crítica intitulado “Andreotti, la Mafia, la Storia d´Italia”. Essa obra nasceu em face do processo criminal por associação mafiosa envolvendo, como réu, Giulio Andreotti, sete vezes primeiro-ministro e senador italiano vitalício. No ano de 2000, Andreotti foi em primeiro grau absolvido, por insuficiência da prova. O recurso de apelação tirado pelo ministério público ainda pende de julgamento. O Júri misto, composto por jurados leigos e magistrados de carreira, reconheceu ter Andreotti faltado com a verdade ao negar aproximações com mafiosos. A propósito, seu “delfim”, o eurodeputado Salvo Lima, era um mafioso e acabou assassinado pela organização, descontente com a sua dúbia postura política.

Convém registrar que Salvatore Lupo é professor docente de História Contemporânea. Dirige a publicação Meridiana-Rivista di Storia e Scienze Sociali e integra o conselho editorial da Rivista Storica. É do conselho diretor do Istituto Nazionale del Movimento di Liberazione in Italia.

Em agosto passado, concedeu entrevista aos supracitados Anibaldi e Silvestrini. Numa de suas respostas, que serve de complemento à sua obra de 1993, esclareceu que o velho sistema de poder mafioso encerrou um ciclo, marcado por matanças e emprego de métodos terroristas. Esse sistema de poder, a caracterizae uma máfia militante, não mais existe porque se extinguiu o anterior sistema político partidário italiano e desapareceram todos os interlocutores políticos tradicionais da Cosa Nostra, em especial o partido da Democracia Cristã.

Na entrevista, Lupo deixou claro que a mafia continua a existir e a realizar seus negócios ilícitos, havendo uma parte do atual sistema político italiano em condição de abrir caminhos ao submundo criminal mafioso.

Em uma outra passagem da recente entrevista e analisando o legado de Falcone-Borsellino, frisou: a máfia foi identificada e ninguém mais poderá afirmar sua inexistência. Mecanismos legais adequados foram introduzidos para a repressão e a opinião pública sensibilizou-se e está atenta para o problema.

Voltando à recém lançada pela editora da Unesp e ao entendimento da máfia como organização criminosa que busca o controle social e estabelece poder de fato em territórios, difundindo a intimidação e cassando a cidadania.

Lupo como que empurra o leitor para a Sicilia como Metáfora, uma dos principais escritos de Leonardo Sciascia. Segundo Sciascia, “A história siciliana é toda uma história de derrotas: derrotas da razão, derrotas dos homens racionais”.

Talvez por aí se consiga explicar, na Sicília, os sucessos eleitorais de Berlusconi e seu grupo neo-fascista de apoio. Por outro lado, o livro de Lupo sepulta mitos criados pelo cinema, igual ao que levou os espectadores do Poderoso Chefão a torcer pelos bandidos.

A ética mafiosa, pode-se verificar pela leitura de Lupo, sempre foi ambígua, desonrada e, pelo dinheiro e poder, não se incomoda de se tornar uma organização parasitária do estado.

Com a ressalva das análises findarem em 1993, antes dos ataques em Florença, Roma e Milão, das prisões de Riina e Brusca (acionou o detonador em Capaci), do processo Andreotti etc, não se vai encontrar, no Brasil e em nossa língua, uma obra igual a de Lupo.

Em síntese, uma leitura obrigatória para os interessados no tema criminalidade organizada e violência.

Como afirmou a escritora e jornalista Marcelle Padovani, a máfia não precisa de assessoria de imprensa, pois tudo que faz vira notícia no mundo todo. Já as boas obras da antimáfia precisam ser bem anunciadas. Nelas, se trabalha com a realidade do fenômeno e não com estórias criadas para o cinema, que, alías, erradamente passa a idéia de a mulher gozar de importância secundária.

Boa leitura.

Wálter Fanganiello Maierovitch.


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet