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Do vaffanculo ao top-top.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

31 de julho de 2007.



Na segunda-feira 23, uma loira estacionou uma Ferrari vermelha num posto de venda de combustível na cidadezinha alemã de Doemitz, também atingida pelo senegalesco verão europeu.

Com sapatos de saltos altos e apenas tatuagens florais a cobrir o corpo escultural, a “ferrarista” – não se sabe tedesca ou de maranello – percorreu cerca de 10 metros até ingressar numa loja de conveniência.

Depois de comprar cigarros, fez o percurso de retorno à Ferrari e deixou para trás uma platéia ansiosa por sua volta. Há esperança. Ouvida pela agência Reuters, a vendedora da tabacaria, uma tal Inês – nada morta em termos de maketing, revelou que já não era a primeira vez que a loira, sempre pelada, aparecia para comprar cigarros.

Na chamada zona fronteiriça entre a paralisia pelo espanto e o impulso lúbrico, um cliente, com a câmera do celular, conseguiu disparar duas fotografias. Essas, já navegam pelas infovias da internet, com parada no Instituto Brasileiro Giovanni Falcone, cujo acesso à home page tem ingresso pela porta fraterna do site de CartaCapital.

Do fato, somente boas lembranças. A polícia não foi chamada e ninguém falou de ultraje público ao pudor, por prática obscena.

Por enquanto, nem o conservador alemão Ratzinger reclamou da falta de investigação policial, diante de um crime previsto no Código Penal tedesco como afronta ao pundonor.

Os tempos mudaram e os ventos ocidentais são leves, laicos, livres de fundamentalistas e integristas. Se valer o latim que Ratzinger fez voltar aos templos, a Justiça do seu país poderá responder com um velho brocardo latino: “De minimus non curat praetor”, ou seja, o juiz não deve se ocupar com questões insignificantes.

De lado o eventual exibicionismo da loira ferrarista de cerca de 30 anos de idade, a prática de ato obsceno pode, em certos recintos, gerar confusões, processos criminais e até disciplinares, por quebra de ética parlamentar.

A mão fechada com o dedo médio alçado tem origem anglo-saxônica e espalhou-se pelo planeta graças a filmes norte-americanos. No célebre filme intitulado I Vitelloni, de Federico Fellini, o magistral Alberto Sordi preferiu expressar o vaffanculo com o antebraço, à italiana. Isso ao invés do gesto anglo-saxão do dedo médio levantado, a significar mandar alguém para um determinado lugar.

Na sexta-feira 13, o dedo médio alçado deu confusão e processo no aristocrático Palazzo Madama, sede do Senado italiano. Discutia-se a reforma judiciária quando subiu à tribuna a furiosa senadora Anna Cinzia Bonfrisco, que começou como socialista e migrou para as bandas do direitista Silvio Berlusconi, ex-premier.

Cinzia chamou de assassino o senador Gerardo d’Ambrosio, magistrado aposentado e destacado integrante do antigo pool da célebre Operação Mãos Limpas. De repente, o surto histérico de Cinzia interrompeu-se. O motivo deveu-se ao fato de o senador Goffredo Bettini ter-lhe apontado o dedo médio, em destaque na mão fechada. Com efeito, a expressão oral vaffanculo, já abreviado no cotidiano para vaffa, acabou cambiada pelo gesto.

Com o referido gesto deu-se mal, em 2005, o então premier Silvio Berlusconi e a deputada Daniella Santachè, em locais e ocasiões diferentes.

Daniella não gostou de ser vaiada num campi universitário. Mostrou o dedo médio e carrega, até hoje, o apelido de Santachèffanculo. Em toda aparição pública, ela sempre escuta a saudação.

Berlusconi, quando primeiro-ministro e num comício em Bolzano, respondeu aos apupos com o dedo médio em riste. Sem ruborizar e ameaçado com processo criminal por ato obsceno em lugar público, explicou-se. O dedo representava que ele era o primeiro, ou seja, o primeiro-ministro da Itália.

Na quinta-feira 19, a mais alta Corte de Justiça da Itália entendeu que a expressão vaffanculo não tipifica o crime de injúria. Trata-se de “uma expressão incorporada ao cotidiano”. Um linguajar mal-educado, vulgar e grosseiro, jamais a prática de um crime por ofensa à honra subjetiva.

Com o top-top, na reserva de um gabinete de trabalho, o assessor especial Marco Aurélio Garcia não praticou o crime de ato obsceno, do Artigo 233 do Código Penal. Como explicou, foi um desabafo diante das circunstâncias. Em síntese, uma vulgaridade que certamente não faria, por ocasião de suas viagens internacionais, nos palácios onde é recebido.

Só para lembrar, não dá para soltar um vaffanculo na mais alta Corte peninsular, imediatamente após um julgamento desfavorável. Aí, seria crime de desacato. Mas, fora da Corte, tudo muda. Como ficou constando do acórdão da Corte de Cassação, a “grosseira expressão”, hoje, tem o significado de “deixe-me em paz”, “pare de amolar”, “não te levo em consideração”.


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