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HISTÓRIAS FORENSES: Velhos carnavais e quarta feita de cinzas.

Por Wálter F Maierovitch/Rádio CBN/Justiça e Cidadania

Cinzas em foliões que participaram de festa pagã: Carnaval.


Histórias fantástica de “Velhos Carnavais” não faltam. Tem uma que mistura Carnaval, Justiça, Cidadania e quarta-feira de cinzas.

O protagonista foi um dos maiores juristas brasileiros, professor catedrático da célebre Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e procurador geral da República quando Jânio Quadros era presidente. Fora isso, era um grande mestre da ironia fina.

. O saudoso professor Joaquim Canuto Mendes de Almeida tinha um senso de Justiça muito agudo.

Na última noite de carnaval,-- e depois de passar pelos salões badalados onde se reunia a elite esnobe e endinheirada paulistana, o professor saía para fazer Justiça. Saia a procurar pelos foliões abusivamente detidos pela polícia.

O professor Canuto rumava ao distrito policial do Pátio do Colégio, berço de nascimento da cidade de São Paulo.

Os foliões ficavam detidos no distripo policial do Pátio do Colégio. A maioria, em razão de embriaguez e algazarra. Na verdade, permaneciam detidos prostitutas velhas, cafetões enciumados, golpistas de ocasião, batedores de carteira sem sorte e vadios, mas só aqueles sem condições econômicas. Os vadios ricos tinham tratamento diferenciado, pois a lei de Contravenções Criminais só definia como vadios aqueles sem condições de se manter na ociosidade.

No distrito policial, o professor ouvia todos os detidos. De graça, ele preparava os habeas-corpus.

Ao meio dia em ponto,-- sem tempo para tirar as vestes festivas, ele se dirigia ao Palácio da Justiça para despachar os habeas corpus com o juiz de plantão.

Um primeiro contraste acontecia e arrancava risos camuflados no Palácio da Justiça. O circunspecto juiz de plantão, vestido de toga talar, despachava com o professor, que justificava o desalinho e os trajes impróprios pela urgência dos pedidos de hábeas corpus, ou seja, pressa de colocar em liberdade pessoas detidas ilegalmente.

Com os alvarás de solturas, o professor rumava de volta ao Pátio do Colégio. Aí, festa total. Gritos de liberdade e velhas prostitutas retocando a pesada maquiagem antes de ganhar às ruas.



Tinha início, então, um cortejo de foliões frustrados por um carnaval atrás das grades. O bloco dos recém libertados movimentava-se na direção da Pça da Sé, onde, na Catedral da Sé, outros tipos de foliões recebiam as cinzas para apagar a participação pecaminosa numa festa pagã chamada Carnaval.

Da praça da Sé partiam os ônibus que os recém libertados tomavam para chegar às suas casas.

Para eles, Justiça tinha sido feita. E como disse uma dama da sociedade, a um jornal da época, eles berravam “torpilóquios e vitupérios”. No popular, palavrões, mas daqueles bem conhecidos pela dama de estirpe, capaz de defini-los como torpilóquios e vitupérios. O professor Canuto, seguramente, mora no céu, pois passou pela vida a ensinar e a fazer o bem.

Como era muito gozador, talvez, no carnaval do céu, entre anjos e nuvens, esteja fantasiado de diabo, só para animar a turma.

WFM/CBN, 20 fevereiro de 2007.


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