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PCC. Ainda faltam explicações. Confira editorial da Folha de S.Paulo.

Por FOLHA ONLINE- Folha de S.Paulo

14 junho 2006




DURANTE os ataques do PCC, agentes da polícia foram brutalmente assassinados apenas por serem representantes do Estado. O fato não só justifica como exige reação à altura do poder público. Daí não segue que a resposta possa transcender os limites da legalidade, ou que os responsáveis pelas políticas de segurança possam eximir-se de prestar contas.

De acordo com laudos entregues na segunda-feira pelo Conselho Regional de Medicina do Estado (Cremesp), as vítimas mortas por armas de fogo na semana dos ataques receberam em média quatro tiros cada -nos casos mais extremos, mais de 20 tiros foram disparados contra a mesma pessoa. Em regiões onde a atuação do chamado PCC é mais intensa, como o litoral sul, a média foi ainda maior.

Segundo o Ministério Público estadual, das 126 pessoas mortas em alegados confrontos com a polícia paulista nos dias mais agudos da crise, cerca de 60% apresentam indícios de execução. Constam dos laudos perfurações pelas costas, ferimentos à bala nos braços e tiros disparados de cima para baixo.

A única forma de dirimir as dúvidas em relação à conduta policial é transparência nas investigações. Infelizmente, o secretário da Segurança de São Paulo, Saulo de Castro Abreu Filho, tem atuado na direção contrária.

Sua manifestação mais recente -o depoimento na Assembléia Legislativa paulista- foi uma performance deprimente. O secretário não só se furtou a responder a perguntas como compareceu acompanhado de uma claque que o socorria com assobios de aprovação.

Austeridade e compromisso com a prestação de contas é o mínimo que se pode exigir da pasta de Abreu Filho diante da crise. Se policiais transpuseram os limites da legalidade, precisam ser identificados e punidos.

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RETROSPECTIVA
13 junho 2006.



FABIANE LEITE.
GILMAR PENTEADO.
DA REPORTAGEM LOCAL
As 492 pessoas mortas por armas de fogo no Estado de São Paulo durante a crise da segurança pública causada pela facção criminosa PCC receberam um total de 1.978 tiros, média de quatro disparos em cada caso, segundo dados do Conselho Regional de Medicina do Estado baseados nos 23 IMLs paulistas, entre 12 e 20 de maio.

De acordo com o presidente do conselho, Desiré Callegari, no pior caso, uma vítima recebeu um total de 22 tiros. Para efeito de comparação, durante o massacre do Carandiru, quando 111 presos morreram no presídio homônimo em 1992, a média de tiros foi de cinco por vítima. As 492 mortes analisadas incluem não só as vítimas de confrontos com a polícia e os agentes de segurança mortos durante a crise como também "homicídios gerados por conflitos sociais e outros decorrentes da violência cotidiana".

O órgão também verificou o número de tiros recebido por vítima nas cidades onde a violência foi maior. Os piores casos ficaram concentrados no litoral sul do Estado, região considerada de forte influência do PCC e também com histórico de abusos da polícia. Em Santos, houve pico de 8,3 tiros por óbito no dia 15 de maio, a segunda-feira em que começou a reação das forças de segurança aos ataques do PCC. No Guarujá, o pico foi de 8,25 tiros por óbito, no dia 16.

Segundo levantamento feito pela reportagem em boletins de ocorrência de Santos, na maior parte dos casos de homicídio, exceto quando as vítimas eram agentes de segurança, a polícia relatou já ter se deparado com as vítimas caídas ao chão, atingidas por disparos.

Em São Paulo, o pico de número de tiros ocorreu no dia 13 de maio, sábado, um dia após o início dos ataques: foram 6,9 tiros por óbito, indica o conselho. Em Guarulhos, a média foi de 5,8 tiros/óbito no dia 15. "Passamos por um período de catástrofe, que não segue a linha de anos anteriores", afirmou o presidente do Cremesp.

Na quinta-feira passada, afirmou Callegari, o conselho autorizou o enterro de 34 corpos de vítimas de arma de fogo mortas no período de crise que eram mantidas nos dois IMLs da capital, as últimas que passaram por análises dos legistas.

Explosão de mortes.

Em nove dias, o Estado registrou uma média de 55 mortes por arma de fogo por dia. No segundo trimestre de 2005 (período que inclui o mês de maio), segundo a Secretaria da Segurança Pública, houve média de 23 homicídios/dia no Estado.

O Cremesp analisa os dados sobre as mortes durante os conflitos para auxiliar as autoridades e garantir que haja transparência nas investigações, afirmou Callegari, presidente do conselho.

O bairro do Capão Redondo, na periferia da zona sul paulistana, foi o que mais registrou mortes por arma de fogo durante a crise -13 casos-, seguido por São Mateus, na zona leste, com 11 vítimas. "Não me surpreende o que ocorreu. Sempre encobriram os crimes aqui. Houve divulgação de que não há mais violência, mas, na verdade, ela está migrando para os locais mais distantes do Capão", diz Paulo Roberto Clemente da Silva, 41, vice-presidente da ONG Capão Cidadão, que atua na prevenção à violência no bairro.

Segundo ele, um dos casos mais graves, durante a onda de violência, foi o sumiço de um rapaz que voltava de uma festa e foi levado por desconhecidos.

O conselho não divulgou os nomes e laudos do IML sobre as vítimas alegando questão ética. A Secretaria da Segurança não se manifestou sobre a avaliação do órgão.

A pasta confirma as mortes de 122 pessoas em conflitos com a polícia entre os dias 12 e 19 de maio. "Se a lista é essa, devo admitir que seja [verdadeira]", afirmou ontem o governador de São Paulo, Cláudio Lembo (PFL), sobre os dados do Cremesp.

-------------------------------------------------------------------------------- Colaboraram MARIANA CAMPOS, da Agência Folha, e RICARDO GALLO, da Reportagem Local.


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