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PANTOMIMA E CUSPARADA

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

O jornalista Paolo Corbèra freqüentava o mesmo bar que o senador Rosário La Ciura, do qual se aproximou e virou amigo. Numa noite, tomou coragem e perguntou ao senador: “Por que não procura um remédio para o seu permanente catarro?”.

A resposta saiu mansa: “Eu não tenho nenhum catarro. Você deveria ter notado que nunca tusso antes de cuspir. Cuspo por causa das farsas a que assisto. Meus cuspes são simbólicos e eminentemente culturais. Se você não gosta, volte para as conversas com seus amigos que não cospem porque não querem jamais se indignar com nada”.

Sereia, conto de Lampedusa (editora Berlindis Vertecchia).


Essa passagem está no conto A Sereia, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, que só começou a escrever obras literárias nos últimos quatro anos de uma breve vida de 61.

Nos últimos dias, o Brasil e a China transformaram-se em palco cênico de duas farsas qualificadas pelo caradurismo e pela Lei de Gerson. Ambas com potencial para expulsar uma tempestade de perdigotos da boca do senador Rosário, protagonista do conto A Sereia.

A pantomima brasileira foi protagonizada por Suzane von Richthofen, mentora do massacre dos genitores, consumado em 31 de outubro de 2002 e executado com barras de ferro manejadas pelos treinados irmãos Daniel e Cristian Cravinhos, o primeiro seu ex-namorado.

Suzane representou o papel da retardada mental arrependida e que só há pouco se libertou do domínio do ex-namorado, que a drogava a ponto de perder o discernimento e a noção dos valores humanos. Para esconder seus atuais 22 anos, vestiu-se infantilmente: camiseta estampada com a Minnie de Walt Disney e pantufas em forma de coelhinhos da Páscoa.

Na cidade de Xangai, e em prosseguimento à turnê que empolgou milhares de fãs nas areias da praia de Copacabana, no Rio, coube ao megastar Mick Jagger querer passar a falsa versão de que os Rolling Stones não tiveram cinco músicas censuradas, quando se apresentaram para 8 mil espectadores, número baixo para o prestígio da banda.

Para os censores do Ministério da Cultura chinês, quatro das músicas falavam sobre sexo, tema considerado nada pertinente para um país que deseja controlar a natalidade. Uma alegada apologia das drogas levou à censura da quinta música, numa China que entrou duas vezes em guerra com a Inglaterra por causa do monopólio do comércio do ópio e que, hoje, conta com uma criminalidade organizada capaz de fabricar e exportar ecstasy para os demais países asiáticos e a Austrália.

Jagger sustentou que não houve censura, mas uma simples recomendação para não tocarem quatro músicas: Honky Tonk Women, Brown Sugar, Beast of Burden e Let’s Spend the Night Together.

Em São Paulo, o tutor e os advogados da supracitada Suzane travestiram-se de Duda Mendonça, aquele que conseguiu mudar até a imagem arrogante de Paulo Maluf. A beneficiária da metamorfose seria Suzane, sempre pronta a encenações e com o julgamento pelo Júri bem próximo. Dentre as suas encenações preferidas, convém recordar algumas delas e frisar que o alegado efeito das drogas não lhe retirou a capacidade de compreensão e autodeterminação: 1. Para não despertar suspeitas, chorou em outubro de 2002, quando do enterro dos pais. 2. Forjou como álibi a estada em um motel. 3. Depois de descoberta e da confissão, sustentou falsamente que era assediada sexualmente pelo genitor.

O plano forjado para favorecer Suzane passou pela tentativa de manipulação da mídia. A meta era a de preconstituir prova falsa, a ser exibida no Júri, acerca da fragilidade, arrependimento e cooptação pelo namorado. Acabou desmascarada pela Globo e pela revista Veja, os dois veículos escolhidos para a engendrada mise-en-scène. No Fantástico, gravações ambientais mostraram que Suzane deveria seguir um script adrede preparado, momentos previstos de choro e pedidos de encerramento da entrevista sob aparência de imensa dor moral.

Com a nova imagem, Suzane imaginava, na jurisdição civil, obter sucesso no seu pedido judicial para administrar os bens do espólio dos pais, em substituição ao irmão. Fora isso, conseguir a improcedência da ação civil de exclusão da sucessão hereditária. Nas suas ações, Suzane constrangeu seu único irmão, acusado de má administração e subtração de bens deixados pelos genitores.

A Justiça criminal, como ensinou um mestre francês, tem por meta não deixar impunes os crimes e não punir os inocentes. Daí se dizer, com acerto, que o advogado, na defesa técnico-jurídica, tem um papel fundamental na realização da Justiça. Portanto, mudar a cena do crime, forjar provas, tentar manipular a mídia e criar falsos fatos, afrontam o nobre ofício do advogado criminal.

No caso Suzane von Richthofen, a prisão preventiva mostrava-se necessária para evitar as maquinações processuais e as pressões ao irmão.


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