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O VEZO DE MINIMIZAR

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

Nunca se viu passividade policial igual. Sem ser molestados, grupos de torcedores presentes no Estádio Olímpico de Roma exibiram, pelos quatro cantos do gramado calcístico, faixas carregadas de intolerância racial, xenofobia e nazi-fascismo.

Suásticas, no Estádio Olímpico de Roma.


Isso aconteceu no domingo 29, passados três dias do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto e dois meses depois de Zoro, jogador negro do Messina e natural da Costa do Marfim, ter sido ofendido pela racista torcida da Inter de Milão.

Perto do canto da bandeira do córner do Estádio Olímpico ficaram expostas as suásticas, todas mostradas pela televisão. Nenhum policial providenciou suas apreensões, como se Adolf Hitler não tivesse existido e ainda prevalecesse a cruz gamada como símbolo de felicidade dos brâmanes e budistas.

No campo de jogo defrontavam-se as esquadras do Livorno e da Lazio, time do coração de Benito Mussolini, il Duce, fundador do movimento fascista italiano, em 1919, transformado dois anos depois em partido político.

A quantidade de faixas e a exaltação da torcida podem ser aferidas pelas palavras do ministro do Interior, Giuseppe Pisanu, responsável pela defesa do país, segurança pública e observância das normas constitucionais. Para Pisanu, era “perigoso” a polícia agir e apreender as faixas, pois um confronto poderia resultar em “tragédia”.

As declarações de Pisanu agradaram aos neofascistas e aos separatistas da Liga Norte, que compõem a coalizão de sustentação do governo do premier Silvio Berlusconi, presidente emérito e maior acionista do Milan de Kaká, Cafu, Serginho e Dida, este, diga-se, em péssima fase.

Numa Itália agitada pela proximidade das eleições e assustada pela possibilidade de um ataque terrorista em represália à participação dos seus soldados nas forças invasoras do Iraque, pegou mal perante o eleitorado a tentativa de minimizar de Pisanu.

A propósito, minimizar é uma característica de autoridades em segurança pública, especialmente em ano eleitoral. Na segunda-feira 30, o secretário de Segurança Pública do governo de Geraldo Alckmin afirmou que os homicídios caíram e os seqüestros de pessoas para fins de extorsão aumentaram em São Paulo.

Quanto às extorsões mediante seqüestro, o secretário de Alckmin ressaltou que muitas das vítimas ficaram pouco tempo em cativeiro e, no geral, os valores pagos não foram elevados, entre R$ 500 e R$ 1.000. Em síntese, uma bagatela e, afinal, passar poucas horas ou dias em cativeiro deve ser mais emocionante e “emagrecedor” do que se hospedar num “spa” cinco-estrelas.

Governador Alckimin de São Paulo.


Em matéria assinada pelo jornalista Sérgio Ramalho, o jornal O Globo mostrou como grupos informais de prestadores de serviços de segurança, integrados por policiais militares e civis interessados em reforçar o soldo, se transformaram em milícias privadas, em pouco menos de um ano. Já controlam 72 comunidades, onde vivem mais de 200 mil pessoas.

Um mapa ilustrado mostrou que as milícias privadas avançaram e expulsaram, do centro da cidade e para as bandas de Santa Cruz, a chamada “bandidagem pesada”.

Com isso, as milícias passaram a contar com controle de território e social. Como se tivesse havido uma secessão e formação de outro Estado, as milícias cobram “taxa de proteção”, igual ao pizzo (racket) exigido pela Cosa Nostra.

Essas milícias faturam um porcentual que incide sobre o valor das transações imobiliárias efetuadas nos seus territórios. Igual ao Estado, elas cobram o imposto de “transmissão intervivos”, diante de um fato gerador específico.

As milícias criaram postos para a prática da usura. Vendem acesso aos canais a cabo, que apelidaram de TV-Gato, e realizam justiça de mão própria: apreensão de bens de devedores, despejos de moradores etc.

Não vai demorar para que as milícias fluminenses passem a copiar as máfias russas no controle do mercado de trabalho, a fim de receber comissões sobre admissões e salários.

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Como se percebe, aqueles que foram buscar segurança privada, pela ausência do Estado, acabaram submetidos ao governo de milícias, que aniquilaram direitos individuais e difundiram o medo. No fundo, os moradores meteram-se numa camisa de sete varas. Apenas a qualificação dos bandidos de agora é diferente, pois muitos são funcionários públicos, com direito a usar fardas, crachás e armas da corporação.

Para minimizar, em época eleitoral, o governo anunciou a criação de uma delegacia especializada para investigar as tais milícias privadas. Diante da porta arrombada, o governo do clã Garotinho resolveu dar uma guaribada na tramela.


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