São Paulo,  
Busca:   

 

 

Espiões/D.Humanos

 

Forças brasileiras no Haiti:violência e criminalidade organizada

Por IBGF/WFM

Segundo o Ministério da Defesa, a presença das nossas Forças Armadas no Haiti “servirá para, eventualmente, enfrentar situações de repressão à criminalidade organizada no país, como no Rio de Janeiro” (Folha de S.Paulo – 16/5/2004). É bom lembrar que o Haiti não é o Rio de Janeiro. Trata-se de uma nação que vive uma crônica crise político-institucional. Em outras palavras, no Haiti a questão não é criminal-policial.

No Rio, os fenômenos da criminalidade organizada e da violência representam questões de segurança pública, de atribuição reservada às polícias. Não se trata de segurança nacional, a justificar intervenção militarizada pelas Forças Armadas. A segurança interna, também chamada de segurança pública, envolve ações policiais preventivas e repressivas. Ambas voltadas a proteger a sociedade civil dos crimes e de modo a oferecer tranqüilidade. Com precisão, a Constituição da República enumerou os órgãos policiais competentes para atuar: Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Ferroviária Federal, polícias civis, policiais militares e corpos de bombeiros” (art.144).

A propósito, a clareza solar do texto constitucional levou o governo federal a solicitar da governadora do Rio de Janeiro, para legitimar a intervenção das Forças Armadas, um documento consignando que as forças policiais estaduais tinham perdido o controle da manutenção da lei e da ordem. Como a “família Garotinho” não jogou a toalha, a anunciada intervenção das Forças Armadas não ocorreu no Rio. As Forças Armadas atuarão apenas em apoio às polícias estaduais e federal.

O Haiti é o país mais pobre do continente americano e 90% da sua população sobrevive com menos de US$1 ao dia. Na América Latina, foi o primeiro país a conquistar a independência, em 1804. Apesar disso, viveu sob ocupação norte-americana de 1915 a 1934. De 1957 a 1986 esteve sob a furiosa ditadura da família Duvalier. Referendada a Constituição de 1987, o país logo sofreu dois golpes militares (1988 e 1991) e o último impediu a posse de Jean Bertrand Aristide. Com mandato da ONU, os marines norte-americanos colocaram Aristide na Presidência em novembro de 1994. Desde a independência da França, o Haiti suportou 32 golpes de estado. As ditaduras, golpes e instabilidades colocaram esse país, em termos de desenvolvimento humano, no 150º posto do ranking das nações. Com mais de 8,3 milhões de habitantes, 49% dos haitianos são analfabetos e 55% estão desempregados.

Ao assumir a chefia do Estado, Aristide extinguiu as Forças Armadas, de tradição golpista. No lugar, criou a Força Pública de Segurança, com 4 mil homens, todos treinados pela ONU. Para se ter idéia do efetivo policial, a cidade de Nova York conta, como o Haiti, com mais de 8 milhões de habitantes e utiliza 62 mil policiais na segurança pública.

Quando da queda de Aristide e da intervenção da ONU, duas versões opostas circularam. Na primeira delas, Aristide teria se aliado a potentes narcotraficantes para se manter no poder. Permitiu, assim, a transformação do país num corredor de droga colombiana direcionada aos EUA e à Europa. Vale lembrar que 15% da cocaína colombiana que ingressa nos EUA passa pelos portos do Haiti.

Oriel Jean, ex-chefe da segurança pessoal de Aristide, controlaria 85% do trânsito dessa cocaína. Oriel foi extraditado do Canadá para os EUA, onde se encontra preso e responde a processo criminal por tráfico, em Miami. O ex-chefe da Força de Segurança Pública, Rudy Therassan, acabou preso em Miami, na sexta-feira 14, sob acusação de narcotráfico internacional.

As mais pesadas denúncias contra Aristide partiram do haitiano Beaudoin Ketant. Em dez anos, Ketant enviou 33 toneladas de cocaína para Miami. Está condenado nos EUA a 27 anos de prisão. Ele era proprietário de uma casa avaliada em US$ 8 milhões em Vivi Michel, próximo a Port au Prince. Nas paredes da casa estava pendurada meia dúzia de quadros de Picasso e Monet. À corte de Miami contou que todo mês repassava US$ 1 milhão ao governo, para ser dividido entre Aristide e seu partido político, o Fanmi Lavalas.

A segunda versão aponta como narcotraficante Guy Philippe, líder dos rebeldes. Conforme concluiu Bruce Bagley, professor de Ciências Políticas na Universidade de Miami, os rebeldes deram um narcogolpe, num país que é rota de passagem da cocaína colombiana.

Com efeito, as tropas brasileiras integrarão a missão de paz da ONU por seis meses e custos estimados em R$ 150 milhões. As declarações do Ministério foram precipitadas e geraram falsa expectativa à população do Rio de Janeiro.


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet