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Arapongas agitados

Por IBGF/WFM

As relações promíscuas entre arapongas norte-americanos revoltos pela América Latina e os narcotraficantes internacionais mostram como a adoção de uma ética ambígua e comum os aproxima.

Na quinta-feira 25, o coronel colombiano Danilo Gonzáles Gil, ligado à comunidade de informações, recebeu seis tiros. Três dos projéteis esfacelaram seu crânio.

Gonzáles comandou o famoso Bloque de Búsqueda, que localizou e eliminou, em 2 de dezembro de 1993, o megatraficante Pablo Escobar, escondido numa casa no bairro Los Olivos de Medellín.

O Bloque de Búsqueda era formado por uma elite: agentes de inteligência, militares do Exército, policiais e pilotos. Esse bloco de busca foi coordenado e treinado pela Drug Enforcement Agency (DEA), que escolheu percucientemente seus integrantes, com emprego de testes com detectores de mentira e observações patrimoniais. Àquela época, o porcentual de corrupção era elevadíssimo nas forças de ordem e armadas colombianas.

A CIA incumbiu-se da execução da outra parte do projeto, ou seja, atraiu os paramilitares da Autodefensas Unidas de Colombia (AUC). Também uniu os narcotraficantes rivais de Escobar, como, por exemplo, o Cartel do Vale Norte e o grupo dos Pepes, autodenominados Perseguidos por Pablo Escobar. Para essa ofensiva, a CIA atraiu forças mercenárias, em busca de um prêmio estabelecido em US$ 6 milhões.

O Bloque de Búsqueda dissolveu-se enquanto se velava Escobar na capela do cemitério Jardines Montesacro. Passados dez anos da eliminação de Escobar, o presidente Álvaro Uribe, na terça-feira 23, anunciou, na presença do presidente George W. Bush, o ressurgimento do Bloque, que se empenhará na busca de terroristas das Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (Farc) e do Ejército de Liberación Nacional (ELN).

Com o fim de Escobar, o coronel Gonzáles passou a comandar o Grupo Anti-seqüestro e Antiextorsão. Ganhou destaque ao resgatar da guerrilha (Grupo Jega) o seqüestrado Juan Carlos Gaviria, irmão do então presidente César Gaviria, atual secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA).

A carreira de Gonzáles começou a declinar e o conduziu para o quadro de aposentados quando a CIA e a DEA resolveram reforçar as fichas da “cooperação” no general Rosso José Serrano Cadena, comandante da Policia Nacional de Colombia.

Serrano Cadena desmontou o Cartel de Cali e levou à prisão os irmãos Orejuela, seus fundadores. No vácuo aberto pela morte de Escobar e as prisões dos Orejuela e dos Ochôa, executou a Operação Milênio e prendeu 31 traficantes de ponta.

Como se sabe, Gonzáles não conseguiu se aposentar da investigação, do relacionamento com a DEA e da atualização dos seus arquivos pessoais de informações. Caiu em desgraça com a arapongagem norte-americana e, em dezembro de 2003, a DEA passou a considerá-lo cúmplice de cartéis de narcotraficantes: faria parte de um grupo incumbido de dar segurança a potentes narcotraficantes internacionais.

Diante das acusações da DEA e de um iminente risco de processo nos EUA, Gonzáles reuniu-se em Aruba com advogados, poucos dias antes de morrer. Estava acompanhado do colombiano Barruch Veja, que se apresenta como fotógrafo e, na realidade, atua como agente colaborador da DEA.

Depois do assassinato de Gonzáles, começou a circular pela Colômbia a “prova” da sua ligação com os narcotraficantes. É que duas horas antes do seu assassinato, Barruch prestou depoimento no Tribunal Federal de Miami.

Num processo criminal que tramita há mais de três anos em Miami, o réu Barruch declarou que atuava como “intermediário” do governo norte-americano, por meio da DEA. Nessa função, obteve a “rendição negociada” de 114 traficantes colombianos, que viraram delatores. Entre esses delatores estava, segundo Barruch, o coronel aposentado Gonzáles Gil.

Ressaltou Barruch que o coronel Gonzáles estava empenhado nas “intermediações premiadas”, para conseguir o resgate de três cidadãos norte-americanos seqüestrados pelas Farc. O processo criminal de Barruch terminou por acordo (plea bargaining) e pena suspensa de quatro meses.

Diante do providencial depoimento, em Miami, de Barruch, duas horas depois do assassinato na Colômbia do coronel Gonzáles Gil, surgiram especulações acerca de ter ocorrido uma eventual queima de arquivo.

Da série prêmios da Coluna Linha de Frente, ganhará uma caneta Bic quem adivinhar se Carlos Costa, ex-chefe do FBI e entrevistado há pouco por CartaCapital, ficaria surpreso com a morte de Gonzáles Gil, em odor de arquivos incendiados.


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