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TODAS AS VIOLÊNCIAS-Colômbia

Por WFM-CARTACAPITAL

Bogotá- Quinta feira, 30 de dezembro. O gongo da meia-noite encerrou a última queda-de-braço travada, em 2004, entre o presidente colombiano, Álvaro Uribe Vélez, e as Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (Farc).

Resultado: as Farc não aceitaram a proposta de Uribe, que pretendia a liberação de 63 seqüestrados, em troca da não extradição para os EUA de Ricardo Palmera, 54 anos, conhecido pelo codinome revolucionário Simon Trinidad e um dos principais membros do Estado-Maior das Farc.

Ao meio-dia de 31 de dezembro consumou-se a extradição de Trinidad, ficando à disposição da Corte Federal do Distrito de Colúmbia. Ele é acusado de tráfico de drogas para os EUA e de seqüestro, na Colômbia, de três cidadãos norte-americanos.

Num trabalho de interceptações telefônicas, as agências de inteligência e antidrogas dos EUA (CIA e DEA) prenderam Trinidad em Quito (Equador), em janeiro de 2004. Depois de repatriado, a Corte colombiana deu sinal verde para a sua extradição para os EUA, ad referendum de Uribe.

Membro de uma das famílias mais ricas do norte do país, Trinidad abandonou o emprego de bancário. Quando foi preso, estava há 17 anos na clandestinidade. Juntou-se a Manuel Marulanda, apelidado de Tirofijo, líder das Farc, fundada em 20 de junho de 1964.

Quando o presidente Andrés Pastrana desmilitarizou uma vasta área na região de Caguán, que ficou sob controle das Farc, coube a Simon Trinidad negociar em nome dos insurgentes.

Sobre a adesão à guerrilha, ele declarou preferir estar ao lado de progressistas que se opõem aos 10% de proprietários rurais que monopolizam 90% das terras cultivadas da Colômbia. Para seus adversários, incluídos os paramilitares da direita, Trinidad, quando era bancário, passou para as Farc listas de correntistas ricos, que acabaram sendo alvos de extorsões mediante seqüestro.

Para muitos, Uribe, que está interessado em emendar a Constituição para concorrer à reeleição, representa um estudado papel, cujo objetivo é eliminar as organizações insurgentes, já catalogadas por Bush como narcoterroristas. Enquanto isso, milhões de colombianos com medo e fome continuam a fugir do país: em 2003, foram 412 mil. Na Colômbia, mais da metade da população sobrevive com menos de US$ 2 por dia.

Com a extradição, Uribe fechou a porta para um acordo humanitário, costurado pelos europeus que sonhavam em intermediar a troca de seqüestrados por guerrilheiros encarcerados.

Em síntese, a Colômbia, desde Simón Bolívar, o Libertador, e seu primeiro presidente, em 1819, vem sendo palco de intermináveis e sangrentas batalhas. O país detém o recorde mundial de assassinatos de jornalistas e os massacres de pobres camponeses foram uma constante na sua história republicana.

Entre 1848 e 1849, foram constituídos dois partidos antagônicos: Conservadores e Liberais. Os Conservadores tinham como slogan “Deus, Pátria e Família”. Já os Liberais incorporavam o lema da Revolução Francesa: Egalité, Liberté, Fraternité. O tempo demonstrou que os dois partidos estavam unidos na preservação do mesmo modelo e das concessões.

A propósito da exploração do trabalho, Gabriel García Márquez, na obra Cem Anos de Solidão, recordou o massacre dos “bananeiros” da zona de Santa Marta, em 1928. Os “bananeiros” entraram em greve e exigiram da empregadora, a United Fruit, repouso semanal, aumento salarial e material de segurança. Mais, que o pagamento do salário fosse em dinheiro e não mais em bônus. Um bônus que só podia ser descontado em compras nos armazéns da própria United Fruit. Essa empresa, de triste memória, vendia aos “bananeiros” produtos trazidos nos porões de navios, que depois voltavam carregados de bananas.

O grande líder popular colombiano, Jorge Eliécer Gaitán, era a esperança de mudanças na vida político-institucional, a partir da eleição presidencial de 1950. Acabou assassinado em abril de 1948.

Para muitos, a eliminação de Gaitán foi o primeiro trabalho sujo da Central Intelligence Agency (CIA), criada sete meses antes do atentado. Outros tipos de violência vieram na seqüência: a ditadura Rojas Pinilla (1953) e o massacre dos guerrilheiros que nele acreditaram e depuseram as armas (só restando as Farc). O narcotráfico pelos Escobar, Ochoa, Orejuela e Gacha (capa da revista Forbes como o homem mais rico do mundo). A eliminação de camponeses e o tráfico de drogas pelos paramilitares das Autodefensas Unidas de Colombia (1996). Os seqüestros, os assassinatos e os ataques de matriz terrorista pelas Farc e pelo ELN. Por último, o falido “Plano Colômbia”.


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