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INTELIGÊNCIA DE ESTADO: a arapongagem desde a origem

Por WFM-CARTACAPITAL

O historiador Flávio Josefo era judeu, nascido em Jerusalém. No ano 70, passou a viver em Roma, onde morreu sob proteção imperial e prenome de Flavius.

Os seus escritos e testemunhos ganharam importância por ter sido o único historiador a contar sobre a Judéia, no período de 100aC a 74 dC e com destaque à vida sob o jugo do Império Romano.

Josefo aderiu à revolta dos judeus contra Roma, no ano de 66. Assistiu à destruição do Templo de Jerusalém pelo exército comandado por Tito. Ainda, colheu relatos sobre a ocupação da Cidadela de Massada, onde judeus insurgentes, conhecidos por zelotas, preferiram o suicídio coletivo à submissão ao domínio romano.

Para muitos, Josefo traiu o seu povo ao fornecer informações aos romanos. Num jargão da arapongagem, seria um agente duplo. Igual àqueles que a CIA e o FBI especializaram-se em cooptar e a antiga KGB, ao tempo da guerra-fria e da extinta União Soviética, contratava para as tarefas de contra-espionagem.

Para os que duvidam da existência de Jesus Cristo, basta ler a referência insuspeita feita por Josefo, isso quando o paganismo prevalecia no Império.

As obras de Josefo nos foram transmidas em língua grega: História da Guerra da Judéia (7 volumes), Autobiografia, Antiguidades Judaicas (20 volumes) e Apião (2 volumes).

Com efeito, Josefo mostrou a necessidade da coleta de informações pelos impérios. Até para identificar os focos de rebeldia e se prevenir contra ataques de potências inimigas.

A busca desse tipo de conhecimento derivava da impossibilidade da manutenção de um permanente estado de guerra, com os súditos assumindo pesados custos, mediante pagamento de tributos.

As informações provinham da espionagem e da colaboração. Muitas vezes, entrava o apoio financeiro aos dissidentes dos governos de nações rivais, na velha máxima romana do “Divide et Impera”.

A arapongagem deslanchou depois da Segunda Guerra. Vestiu nova roupagem, ou seja, legitima a sua atuação com o discurso da defesa da soberania nacional e do estado democrático.

Os termos espionagem e propaganda cederam lugar para inteligência, informação e contra-inteligência. O impulso real acabou garantido pela evolução tecnológica: grampos, microespias, criptografia e outras peças à James Bond.

Nesse contexto pós-guerra, todas as agências de inteligência, incluída a brasileira, podem, pelas leis nacionais, buscar informações no exterior. E os melhores locais para disfarces são as embaixadas, os consulados e as representações. A embaixada norte-americana em Brasília, por exemplo, abriga agentes da CIA, DEA e FBI, registrados formalmente como funcionários diplomáticos.

Pela chamada Lei de Segurança Nacional, os norte-americanos, em 1947, substituíram o velho Office of Strategic Service (OSS) pela Central Intelligence Agency (CIA). Na União Soviética, passou-se do Comissariado de Segurança do Povo, criado em 1946, para o famoso Comitê de Segurança do Estado (KGB), nascido em 1954.

No Brasil, o serviço integrado de informações nasceu em 1927, no governo Wahington Luís. Na vida nacional, os diversos serviços de informações de Estado foram empregados para sustentar a ditadura Vargas, em 1937, e o regime militar de exceção, iniciado em 1964.

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) surgiu, inicialmente, por medida provisória baixada pelo presidente Fernando Hentique, em 1995. Com a lei disciplinadora, esperava-se da Abin um modelo de eficiência e correção, dentro de uma cultura de legalidade democrática. Esse novo modelo não vingou, pois agentes antigos, acostumados a tudo poder, atritam com os concursados, que já lutam por plano de carreira e equiparação salarial às Forças Armadas.

O presidente Lula, passado ano de meio do seu mandato, resolveu dar atenção à Abin. Para dirigi-la colocou pessoa amiga, de confiança, com experiência em inteligência policial e muito conhecimento prático de como opera o FBI, na espionagem político-ideológica.

É importante notar que os serviços de inteligência brasileiros, até agora, só decepcionaram: garantiram interesses de grupos e não do Estado. Em razão disso, a sociedade civil sempre pagou preço alto pelas deformações dos seus órgãos de inteligência.

O maior risco para os serviços de inteligência da América Latina está na tradicional tentativa de cooptação norte-americana. Wladimiro Montesinos, eminência parda da ditadura peruana de Alberto Fojimori, e o general Manoel Noriega, ex-presidente do Panamá, ainda estão vivos para contar como se tornaram agentes e colaboradores da CIA e do FBI.


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