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Você tem medo de quê?

Por PHYDIA ATAYDE-CARTACAPITAL

15 de Dezembro de 2004 - Ano XI - Número 321 Busca: Ricos e pobres sentem-se inseguros nas grandes cidades. Cada um teme por razões diferentes, e elas expõem faces do abismo social brasileiro

Depois de um seqüestro relâmpago na família, dona Rita Davidsohn, de 75 anos, vive com medo de que seus filhos e netos não voltem para casa. Pedro, pipoqueiro, acha que morre de tiro quem é bandido e diz não ter medo de passear sozinho à noite na periferia violenta de São Paulo. As estudantes Gabriela e Daniela andam de carro sempre com os vidros fechados e o ar-condicionado ligado. Valdomiro trabalha em um shopping e, negro, tem medo de apanhar da polícia. Patrícia, desempregada, não anda na rua sozinha depois de ter sido assaltada.

Rita, Pedro, Gabriela, Valdomiro e Patrícia são pessoas de diferentes classes sociais e vivem em diferentes regiões da cidade de São Paulo. Em comum, a sensação de insegurança. Longe de ser privilégio dos paulistanos, esse sentimento acomete quase a totalidade dos moradores das grandes e médias cidades brasileiras.

Para além da mera constatação de que ninguém está seguro, uma pesquisa inédita realizada pela Fundação Instituto de Administração (FIA) conveniada à Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, mostra o que há de semelhante e onde estão as diferenças na percepção da insegurança, nas sugestões de medidas tanto para prevenir como para combater o problema, e nas mudanças de hábito em razão dele.

Trauma.

Um seqüestro relâmpago abalou a família de d. Rita.

O coordenador-geral da pesquisa, professor Isaías Custódio, explica o objetivo do trabalho:

1– Entrevistamos mil paulistanos, de todas as classes sociais e de todas as regiões da cidade. Quisemos identificar as várias dimensões da sensação de medo para, assim, ter uma visão abrangente de como isso é percebido pelos diferentes estratos da sociedade. As opções variavam desde ocorrências policiais até situações cotidianas.

É a primeira vez que a FIA realiza essa pesquisa e a fundação pretende repeti-la pelo menos a cada ano. À primeira pergunta, se a sensação de medo aumentou, diminuiu ou permaneceu igual à sentida em anos anteriores, a maioria (65%) das respostas assinala que, sim, aumentou.

Um olhar mais cuidadoso mostra, no entanto, que a condição econômica e social faz, sim, a diferença. Entre os indivíduos da classe A (de acordo com a classificação econômica adotada pela Associação Nacional de Empresas de Pesquisa), a dos que têm melhor condição social, 72% dizem que se sentem mais inseguros. Esse índice cai gradativamente na classe B (70%), na C (66%) e na D (61%), até passar a menos da metade (44%) da classe E, a fatia mais pobre da população.

À sombra das diferenças de classe social, a pesquisa também mostra que quanto mais elevado o grau de instrução, maior a percepção de aumento da insegurança.

Ante a pergunta se o indivíduo se considera de fato “muito inseguro”, “inseguro”, “seguro” ou “muito seguro”, 86% dos pesquisados declararam-se “muito inseguros” ou “inseguros”. Novamente, desses, os mais temerosos são os que pertencem às classes A e B – 90% dos mais ricos estão inseguros ou muito inseguros. Nos outros estratos sociais, dessa vez, o índice também é muito alto: 84% da classe C, 85% da classe D e 82% da classe E.

Dona Rita, moradora em apartamento de um por andar em Higienópolis, bairro de classe média alta conta, em um lamento:

– Ah... Em São Paulo, a gente andava na rua de noite, na Paulista, eu passeava muito. Hoje, tenho medo. Nem na própria casa estamos seguros. Tenho medo de que meus filhos e netos saiam para a rua a não voltem.

Há menos de um mês, um sobrinho de 25 anos foi vítima de seqüestro relâmpago, “terrível para toda a família”. Entre os eventos que mais a amedrontam, dona Rita elege o assalto e o recente evento que a traumatizou.

Na pesquisa da FIA, entre uma lista de 19 fatores que contribuem para a insegurança, 77% das pessoas apontam o desemprego como o principal deles (tabela acima). Esse índice é o mais alto (89%) na classe E, e mais baixo (69%) na classe A. Dona Rita não mencionou o desemprego entre os eventos que a amedrontam, mas acredita que a solução para o problema da segurança como um todo deva começar na educação, e passar por justiça social.

A partir da outra ponta da escala social, o desemprego é o fator número 1 de insegurança para os integrantes das classes E, D e também da C.

Isaías Custódio, da FIA, comenta:

– Sentir-se inseguro não é privilégio de ninguém, mas a sensação de insegurança manifesta-se de forma diferente para cada classe social. Além disso, não são apenas questões de segurança pública que contribuem para isso, mas também questões de natureza social, como o desemprego.

A auxiliar de limpeza Patrícia Barbosa de Lima, de 33 anos, está desempregada, mora na zona sul da capital e descreve os detalhes de um assalto à mão armada sofrido há dois anos:

– Estava no ônibus, indo para casa, fiquei desesperada mesmo. Os que me assaltaram eram pivetes, para eles desemprego não é o problema... Ali foi pra comprar droga mesmo.

Depois da experiência, Patrícia mudou alguns hábitos. Leva e busca a filha de 18 anos no colégio todos os dias. Andar a pé à noite? Nem pensar. Ela evita a todo custo estar sozinha na rua – ao contrário de seu marido, Djanilson Alvez Diógenes, que garante não ter medo algum de andar na rua. De dia ou de noite.

Homens e mulheres têm uma percepção diferente do medo. A psicóloga social e coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, Nancy Cardia, afirma que a diferença na sensação de medo entre homens e mulheres – e o fato de mulheres serem mais sensíveis – é tradicional na literatura que estuda o fenômeno:

– Além das mulheres, os idosos também são mais suscetíveis ao medo. Isso acontece por vários motivos, a fragilidade física é um deles, mas há também outros, como o aspecto cultural de o homem não assumir seus temores.

De acordo com José Roberto Bellintani, superitendente do Instituto São Paulo Contra a Violência, a idéia de insegurança dos cidadãos paulistanos contraria os índices de violência. O balanço elaborado no início deste mês pelo Fórum Metropolitano de Segurança Pública (vinculado ao instituto), mostra que nos últimos quatro anos baixaram os índices de homicídio e morte por agressão e roubos na Região Metropolitana da cidade.

Os homicídios passaram de 52,9 por 100 mil habitantes, em 1999, para 39,19 por 100 mil habitantes no ano passado, segundo informações da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Já as mortes por agressão (que incluem negligência e maus-tratos) passaram de 65,2 por 100 mil habitantes em 1999 para 48,3 por 100 mil habitantes em 2003, de acordo com a Seade. Bellintani complementa:

– Nesse período também diminuiu a taxa de roubos e furtos de veículos. Há uma cultura que enfatiza o que acontece de ruim, talvez por isso a sensação de medo caminhe em sentido inverso aos índices.

Novos hábitos.

Gabriela e Daniela estão sempre com os vidros do carro fechados.

A diminuição do índice de homicídios pôde ser sentida pelo pipoqueiro Pedro Fernandes de Oliveira, de 48 anos. Ele mora no Jardim Rosana, bairro da zona sul da cidade, e conta:

– É um dos lugares mais perigosos da cidade. Mas até que melhorou. Antes eram três, quatro que apareciam mortos a cada fim de semana, agora é só um ou dois. Só morre assim quem não presta.

Pedro diz não ter medo na vizinhança porque “não se envolve com malandros” (na gíria, “se envolver” é ter ligação com o tráfico de drogas). Paraibano, ele vive há 31 anos em São Paulo e diz nunca ter sido assaltado. Ao falar sobre insegurança, reverbera o discurso do medo:

- A gente põe o pé na rua e já está com medo. Tem de ter sempre cuidado. E não adianta, pode botar o dobro de polícia na rua que não adianta. O malandro volta pro mesmo lugar pra roubar de novo. Aqui na rua a gente vê de tudo. E nada, aqui em São Paulo, vai fazer a coisa melhorar. Aqui o filho bate no pai e tá tudo certo, queria ver se fosse criado lá no Norte!

No ranking de fatores que contribuem para a sensação de insegurança, é muito expressivo o peso dado ao vício em drogas pesadas (média 76%) ou o vício em maconha (média 67%). Novamente, a classe A revela-se a mais afrontada (81% de apontamentos para o vício em drogas pesadas e 75% para o vício em maconha).

Além da questão da droga, de maneira geral a classe A é a mais insegura em relação às ameaças contra a propriedade e à integridade – roubo de carro (73% ante 57% de média) assalto à mão armada (72% ante 68% de média), estupro (69% ante 66% de média) e assalto ou arrombamento de casa (65% ante 56% de média).

Gabriela e Daniela Morette, de 13 e 16 anos, são filhas de um engenheiro e moram em Mogi das Cruzes (interior de São Paulo). A família tem parentes na Vila Mariana, bairro de classe média da capital e, em São Paulo, elas estão acostumadas a andar somente de carro com os vidros fechados e o ar-condicionado ligado. Respondem em coro que seqüestro e assalto à mão armada são as duas coisas que mais dão “pavor”.

E, no outro extremo da pirâmide social, além do já mencionado desemprego (89% ante 77% de média), as preocupações que mais afligem a classe E são o alcoolismo (67% ante 57% de média), a agressão e maus-tratos por policiais (63% ante 54% de média) e maus-tratos em crianças (63% ante 58% de média).

Os entrevistados também foram convidados a opinar sobre quais deveriam ser as medidas repressivas e preventivas (tabelas na página ao lado) para diminuir a insegurança. No âmbito da repressão, nas classes mais pobres, D e E, a prioridade (ambas com 22%) é “punir mais rapidamente os criminosos” e “reduzir a maioridade penal”. Praticamente empatado em segundo lugar (com 21%), “aumentar o número de policiais” e em terceiro (18%) “equipar e treinar policiais”.

Na classe C, a prioridade (23%) é “aumentar o número de policiais”, seguida de “controlar rigorosamente a venda e distribuição de armas” (20%), e de “punir mais rapidamente os criminosos” e “reduzir a maioridade penal” (empatadas em 18%).

Por fim, nas classes A e B, com maior poder aquisitivo, as três alternativas mais indicadas são idênticas às apontadas pela classe C, apenas com porcentagens diferentes. A prioridade também é “aumentar o número de policiais” (com 28% de apontamentos), em segundo vem “controlar rigorosamente a venda e a distribuição de armas” (com 21%) e, por fim, “punir mais rapidamente os criminosos” e “reduzir a maioridade penal” (também empatadas em 18%).

Bellintani, do Instituto São Paulo Contra a Violência, vê com muita ressalva a opção de “reduzir a maioridade penal” como medida eficaz na repressão da violência:

– Essa é uma questão complexa, e a solução do problema também é complexa – diz, para, então, fazer uma análise da postura diante da insegurança:

– O cidadão pensa que a violência é um problema do Estado, e não se percebe como agente de segurança pública. Mas ela necessariamente passa por um envolvimento maior dos cidadãos.

Além de mapear as opiniões sobre medidas repressivas, a pesquisa da FIA também identificou ações preventivas para diminuir a sensação de insegurança. Dessa vez praticamente não houve distinção entre classe social para apontar que o melhor a fazer é “aumentar o nível de emprego” (46% das escolhas, variando de 44% a 47% nas cinco classes sociais).

A percepção da insegurança afeta diretamente o comportamento dos cidadãos. Quando interrogados sobre quais foram as mudanças de atitude em razão dela, as quatro alternativas mais apontadas, e com larga distância das demais, constatam o que talvez já não salte mais aos olhos dos próprios paulistanos: as calçadas estão vazias. Mais da metade (60%) declararam que diminuíram a quantidade de saídas à noite, 57% que deixaram de circular por bairros da cidade e 41% que evitaram sair sozinhos de casa.

O coordenador da pesquisa, Isaías Custódio, acredita que a tendência das pessoas é se isolarem cada vez mais, e prevê conseqüências disso:

– O enclausuramento voluntário provoca a redução do que se chama capital social, ou seja, a solidariedade, um elemento fundamental para se resolver qualquer problema de segurança.

No entender da coordenadora no Núcleo de Estudos da Violência, Nancy Cardia, essa opção acaba por ser uma atitude lógica:

– Fatores imprevisíveis, como seqüestros e assaltos, são profundamente assustadores e traumáticos e a conseqüência natural de quem está amedrontado é evitar a rua.

A equação encontra respaldo na arquitetura de guerra e na indústria do medo, reinantes na metrópole:

– Em uma cidade como São Paulo, isso é ainda mais compreensível. A constituição da cidade, com muros cada vez mais altos, onde não se vê quem está fora e não se é visto, torna a rua um local inseguro. Antigamente havia um domínio visual de território, hoje não mais. Na rua, você está cada vez mais exposto e desprotegido.

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