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Dom Bosco e a delinqüência juvenil

Por IBGF/WFM

O ano de 1871 foi de inquietação intelectual em todo o Piemonte. Em voga ainda estava o darwinismo. Apesar de passados doze anos, não se deixava de comentar a venda, num único dia, de toda a primeira edição do capolavoro de Darwin <1250 exemplares>, cujo título original era "On the Origin of Species by Maeans of Natural Selection".

Seguindo a vertente darwiniana, divulgava-se, no supracitado ano de 1871, a teoria acerca do criminoso nato, ou melhor, do uomo delinquente. Tratava-se do homem propenso a praticar crimes em razão de taras ancestrais e anomalias somáticas. Por forças atávicas, tinha o uomo delinquente, sintetizando, nascido em tempo distante daquele em que efetivamente deveria ter vivido.

Portanto e à luz da novidade antropológica, não mais estava a influência social na gênese do crime. Contava somente o fator biológico.

O autor da teoria era o médico psiquiatra Cesare Lombroso, nascido em Verona no ano de 1835 e falecido em 1909 na cidade de Torino. O título do livro onde grafava suas experiências era L’uomo delinquente in rapporto all’antropologia, giurisprudenza ed alle discipline carcerarie.

Apesar da empolgação gerada em toda a Europa, as idéias de Lombroso encontravam resistência no Piemonte. Estava ainda muito viva a lembrança de um fato extraordinário, ocorrido em 1855 e que envolveu delinqüentes juvenis considerados irrecuperáveis e perigosos.

Naquele ano de 1855, o salesiano Giovanni Bosco tinha estado em audiência com Urbano Rattazzi, então Ministro do Interior do Piemonte. O Ministro era homem liberal e reconhecidamente anticlerical. Apresentou-lhe Giovanni Bosco pedido que colocava em risco o seu prestígio político e a sua própria manutenção no ministério. Desejava Don Bosco permissão para passear, pelos arredores da cidade, com os 300 jovens delinqüentes internados do Reformatório de Torino, conhecido por La Generala. Tudo, aliás, sem escolta, livremente.

A permissão foi concedida e o sacerdote passeou durante o dia com os 300 jovens, que se comportaram de maneira exemplar, sem nenhuma tentativa de fuga. Notou-se, então, que o sucedido colocava em dúvida os métodos empregados no Reformatório, onde diuturnamente mais de cem truculentos guardas cuidavam da disciplina.

Consultado pelo Ministro, explicou Don Bosco: "a minha força é uma força moral. O Estado só sabe ordenar e punir. Eu vou diretamente ao coração dos jovens e a minha palavra é a palavra de Deus".

Mais, o fato extraordinário <1855> efetivamente colocava no Piemonte em dúvida a teoria de Lombroso <1871>. A respeito, Don Bosco nunca concordou com a maldade instintiva, fruto de tara biológica. Fundador da Pia Sociedade Salesiana, certa vez alertou: "o objetivo da minha Sociedade é o despovoar as ruas de jovens delinqüentes e educá-los, para a tranqüilidade de todos e a honra da pátria".

Como se pode notar, mantinha-se Don Bosco fiel à velha doutrina da Metanóia , desenvolvida pelo Cristianismo e responsável pela substituição das penas corporais pela de privação da liberdade de locomoção : "Il Nuovo Testamento adopera metanóia, che nella letteratura classica esprime cambiamento di un giudizio su un fatto passato, mentre l’altra voce ‘metamélia’ designa piutosto il cambiamento dell’anima, del cuore. Nel Metanoeite del testo greco è inclusa anche la ‘satisfactio’per i peccati della vita passata (contro Lutero) ma è principalmente la piena mutazione della ‘mente’, di tutto il modo di pensare, agire, vivere, è la conversione totale dell’uomo"

As idéias fundamentais de Lombroso encontram-se totalmente superadas e abandonadas. A obra de Don Bosco, no entanto, continua viva e a desafiar os insensíveis que não acreditam na recuperação do menor infrator e pregam irrefletidamente a pena de morte, sem sancionar o Estado que não investe na emenda.

Mas sobre Don Bosco, convém registrar, deixou Lombroso a marca do seu espírito superior, considerando-o entre os poucos que "tentaram, iniciaram e frutuosamente desenvolveram um sistema de emenda e redenção".

Wálter Fanganiello Maierovitch é juiz criminal, fundador do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de combate às máfias, professor universitário e colaborador do Il Giornale.


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