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Violência. Cabral virou Bush, no Complexo do Alemão.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

junho de 2007.



Ao contrário das quadrilhas e dos bandos, as associações delinqüenciais especiais, de matriz mafiosa e força bélica eversiva, buscam o controle social e de territórios.

Como alertou o jurista italiano Giulio Vassalli, ministro da Justiça responsável por importantes reformas legislativas, criminais e processuais penais, as associações delinqüenciais representam um “sistema extra-institucional de controle social, que tende a se sobrepor à autoridade constituída”. Para o constitucionalista Santi Romano, o crime organizado de modelo mafioso tem o seu ordenamento jurídico próprio e cria um sistema paralelo de poder.

Durante séculos, organizações do porte da máfia siciliana, dos cartéis colombianos, da Cosa Nostra sículo-americana, da Camorra napolitana, da ‘Ndrangheta calabresa e das Tríades Chinesas controlaram os cidadãos e espaços físicos das cidades. Ao difundir o medo, estabeleceram a submissão e a vassalagem nessas áreas controladas por seus exércitos, sempre bem equipados e treinados para a guerrilha urbana. No Rio de Janeiro, há anos diferentes governos estaduais permitiram a secessão, em áreas pobres e de crescimento urbano desordenado, sem observância das posturas e das leis.

Com a criminalidade organizada, as classes dirigentes celebram freqüentes alianças e pactos. No início dos anos 90, a segunda Conferência Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, que ficou conhecida como Eco-92, transcorreu sem violências em razão de acordo entre a criminalidade organizada e o governo federal. O cantor Michael Jackson conseguiu rodar um videoclipe na favela, depois de pagar “taxa” de proteção à organização criminosa que controlava o morro Dona Marta. Antes, é bom frisar, o famoso cantor solicitara proteção policial, negada com a informação de que o governo estadual não lhe poderia garantir segurança em nenhuma das favelas cariocas.



Recuperar territórios e retomar o controle social tornou-se, não só no Rio de Janeiro, meta de governos, todos pressionados pela opinião pública. Em 1992, a máfia siciliana declarou guerra ao Estado, matou juízes, policiais e políticos. No ano seguinte, explodiu bombas em Roma, Milão e Florença.

No dia 2 de maio, em razão da execução de dois policiais na Vila Cruzeiro, o governo de Sérgio Cabral, pela Secretaria de Segurança Pública, entendeu em declarar guerra à potente e fortemente armada criminalidade organizada que domina o Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, com mais de 150 mil habitantes.

Segundo estimativas, a força da associação criminosa do Alemão e o poder corruptor derivam da venda mensal de 120 quilos de cocaína, a ensejar movimento de 1,4 milhão de reais.

Depois de 58 dias de combates, que obedeceram a um projeto elaborado dois meses antes do início da operação policial, contam-se 38 mortes, 19 delas apenas na batalha da quarta-feira 27. Fora isso, há uma centena de feridos por balas perdidas, escolas fechadas e a população desesperada e desorientada, no fogo cruzado entre projéteis disparados pelas forças de ordem e pela criminalidade organizada.



No Complexo do Alemão, nesses 58 dias, ao recomeçar o tiroteio, a palavra de ordem virou o “Salve-se quem puder”. Ainda, depois das 19 mortes da quarta-feira, a polícia reconhecia que a criminalidade ainda mantinha controle de territórios.

Ao adotar o estilo Bush e querer jogar para a torcida distante das favelas, ficou claro que o governo Cabral deflagrou uma guerra urbana cega e deixou os moradores do Complexo entregues à própria sorte. Não foi previsto nenhum plano de blindagem: rota de fuga, abrigos seguros etc.

Mostra a experiência que existem outros caminhos, não beligerantes e mais eficientes, para reconquistar territórios e retomar o controle social. O passo inicial começa com o saneamento das polícias. São os policiais corruptos, vendidos, que dão proteção às associações delinqüenciais e agridem fisicamente a população.

A vereda mais segura e eficaz, sem riscos às comunidades, é secar as fontes de sustentação financeiro-econômica das organizações de matriz mafiosa e eversiva. Sem rendimentos, elas não corrompem, não compram armas e não têm crédito para obter drogas ilícitas para a revenda. Erram as autoridades ao não perceber que, no Complexo do Alemão e em outros, por trás de tudo existem intocáveis e superiores grupos criminais.

Por último, é de lamentar a expressão “veneno amargo”, usada pelo secretário da Segurança Pública, em face da quantidade de mortos e feridos. Numa correta chave de leitura, a expressão revela intolerável e desumano conformismo. Pelos policiais, pode ser entendida como licença para matar.


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