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Ultrà, as violentas torcidas organizadas italianas. Menor confessa o crime.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

O ultà, de 17 anos, que matou o policial Filippo Raciti.



Nos estádios europeus de futebol, a violência perpetrada por grupos organizados de torcedores representa um fenômeno que os sociólogos denominam “racismo social”, ou seja, a negação de valores éticos que regulam a vida em sociedade.

A tragédia da semana passada na siciliana Catânia, por ocasião da partida de futebol entre o time da casa e o Palermo, representa um capítulo a mais de horrores, onde a rica região setentrional não difere da pobre meridional (sul).

No drama de Catânia, um dos ultrà filmados usava jaqueta cara da grife Dolce & Gabbana, outro era estudante, filho de médico da classe média. O terceiro, filho de policial, foi mostrado em fotogramas a destruir os vidros de uma viatura da polícia. Em síntese, a maioria dos ultrà é composta de filhos robustos da burguesia.

Atos de violência, com agressões físicas e manifestações racistas, dentro e fora das quatro linhas, são comuns na capital italiana. Basta jogar a Lazio, esquadra do coração de Mussolini e de Paolo Di Canio, o centroavante neofascista recém-transferido.

Segundo o jornal La Repubblica, 25% dos ultrà são neofascistas, 6% rotulam-se como radicais de esquerda e 56% não se consideram politizados. O jornal Corriere della Sera mostra que, das quatro torcidas organizadas da Inter, duas são de direita, uma neonazista (irriducibili) e a última de extrema-direita (viking).

Para o policial britânico Naughton Graham, responsável pelo setor de inteligência criado especialmente para coletar informações voltadas a impedir as ações dos hooligans, as torcidas organizadas mais violentas do planeta, depois das inglesas, estão na Polônia, Turquia, Alemanha, Holanda e Rússia.

Os ataques dos ultrà em Catânia foram premeditados, saíram feridas mais de 150 pessoas, além do assassinato do inspetor de polícia Filippo Raciti. A autópsia revelou que Raciti teve o fígado rompido por pancadas e imagens mostram golpes desferidos por torcedores menores de idade. A hemorragia foi a causa de sua morte e as agressões antecederam a explosão de uma bomba caseira que derrubou Raciti.

Não bastasse a selvageria, existe uma relação promíscua entre cartolas, jogadores e torcidas organizadas. Para ficar em dois exemplos, o chefão dos commandos, quando da festa de gala pela conquista do campeonato de 2004, estava na mesa vizinha à de Silvio Berlusconi. No site dos ultrà denominado Brigadas Vermelho-Negra, Kaká e Gattuso cederam graciosamente os direitos de imagem.

Pelo que se percebe, a cartolagem considera os ultrà parte do show, ou melhor, de um negócio que movimenta o equivalente a 3% do PIB nacional. E os chefes de organizadas sempre interessam como cabos eleitorais.

Na reunião extraordinária do Conselho de Ministros de quarta-feira 7, concluiu-se por endurecer a legislação, ou melhor, turbinar o decreto Pisanu, que foi elaborado no calor da tragédia de Gênova, há 12 anos. Providências administrativas já foram tomadas, apesar do choro e do ranger de dentes de cartolas, que não aceitam jogos com portões fechados e não querem devolver o arrecadado com a venda antecipada de ingressos.

Em 2000, e para enfrentar os hooligans, o governo de Tony Blair conseguiu aprovar uma legislação especial. Muitas das normas afrontam garantias individuais, mas algumas são legítimas e de bons resultados: registro em base de dados do nome do comprador do ingresso e o número do assento onde deverá permanecer no curso da partida. Na semana que antecede a rodada, o órgão de inteligência britânica pode infiltrar agentes em locais freqüentados por torcedores violentos.

Sob impacto da tragédia de Catânia, periga o premier Romano Prodi se apaixonar pelas teses direitistas do governo anterior a Silvio Berlusconi e atropelar a Constituição. Exemplo claro disso é se protrair, diferir por 48 horas, o tempo do estado de flagrância. Ou seja, 48 horas para a polícia checar as filmagens e identificar os culpados. Num estado de direito, tal situação não é de flagrante. Portanto, prisão só caberia preventiva, decretada por juiz.

Conforta saber que o sistema inglês de se manter um juiz nos estádios não será adotado na Itália, que tem rito abreviado e preserva a garantia do juiz natural: no rito do bate-pronto inglês, viola-se o princípio universal da ampla defesa.

A firme reação da sociedade civil ao massacre de Catânia mostra que nem tudo está perdido: uma multidão acompanhou o cortejo fúnebre. Ao lado da viúva e da irmã de 15 anos, o filho de Raciti, de 9, vestia uma replicada farda de inspetor de polícia e carregava nos ombros as divisas militares conquistadas pelo pai massacrado. Para os ultrà, hooligans et caeterva, nada disso comove, sensibiliza.
WFM, fevereiro de 2007.


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